Quando acabei de ler o tradepaperback "Season of Mists", da série "Sandman", fiquei intrigado com a história de Lúcifer, que se tinha “demitido” das suas responsabilidades de senhor do Inferno, entregando a chave do mesmo ao Dream of the Endless, o personagem principal da série "Sandman", um dos sete Endless . Fiquei muito entusiasmado quando surgiram os primeiros rumores de que a série "Sandman", devido ao seu absoluto sucesso, teria direito a um spin-off. Logo na altura pensei – e não é soberba da minha parte – que um excelente spin-off seria saber o que se passou e viria a passar com Lúcifer Morningstar. Para meu gáudio, o Neil Gaiman também pensou o mesmo: que a personagem que mais mereceria ter a sua própria revista seria o Lúcifer. A DC não achou muita graça à sugestão e levantou algumas questões (leia-se "objecções") ao desejo do Gaiman dar um título ao Mafarrico em pessoa. Sabe-se que nos EUA existem fortes grupos de pressão que se levantam em peso contra certas questões, em especial o sexo e a religião, e, vejamos, o Diabo retratado num comic não seria muito bem-vindo por esses referidos grupos. Isto traria à DC muitas dores de cabeça, ainda mais a morada da Vertigo tem, ou tinha, o número 666 na sua porta! Mas como muitos dólares compram muitas aspirinas e como o Gaiman insistiu e fincou pé nessa personagem, a DC decidiu então encomendar um camião cheio de ácido acetilsalicílico guiado por uma legião de preparados letigators para rebater qualquer cefaleia. Bem-dita a hora!

O Neil Gaiman ofertou ao Mike Carey, na foto, a responsabilidade de escrever esta série, que debutou em 1999 e durou até 2006 com 75 números publicados (11 TPBs com um stand-alone, “Lucifer - Nirvana”) pela chancela da DC/Vertigo. Ao contrário da série Sandman, que teve a colaboração de variadíssimos desenhadores, a série "Lucifer" teve a colaboração quase exclusiva do Peter Gross, do Ryan Kelly e do Dean Ormston nas odd-stories; o número 50 trouxe o Phillip C. Russel (conhecido nos EUA por ter sido o primeiro comic artist a se ter assumido Gay, e cá por nós, que não ligamos ao que os outros gostam ou não gostam, por desenhar o Elric do Roy “the Boy” Thomas); este número 50 foi uma homenagem ao Sandman número 50.
Basicamente, sem spoilers, conta a história do Arcanjo Samael e de como ele se tornou Senhor do Inferno e como e porque ele se fartou de o ser. O Arcanjo preferido de Deus revoltou-se e apoiado por uma legião de outros Arcanjos, Serafins, Anjos e Querubins travou uma guerra contra a facção fiel a Deus, comandada pelo seu irmão de criação, Michael Demiurgos, o Primeiro de Deus. Até aqui todos nós, de uma ou outra maneira, já conhecíamos a história. Após muitos e muitos eons como governante do Inferno, nunca resignado ao seu destino, decidiu desafiar novamente a ordem vigente e criar o seu próprio universo, onde é absolutamente proibido adorar o e quem quer que seja. Abandonando o Inferno, vem para o nosso mundo e abre um bar em Los Angels com o nome de Lux (humm…eu acho que é em Lisboa, mas o Manuel Reis não é nada parecido com este nosso personagem, baseado no personagem criado por Milton no seu “Paradise Lost”) acompanhado por uma poderosa e angustiada amante, Mazikeen, filha de Lilith, a primeira mulher da história do mundo, começa a desenrolar-se de forma complexa, em que mistura religiões, crenças, mitos e seus personagens, numa panóplia de acontecimentos que envolvem alguns dos habitantes deste mundo real, que também trazem surpresas e são, por sua vez, personagens principais no desenrolar da trama. Desde conhecermos figuras míticas de religiões passadas; Demónios cujo nome já os nossos bisavós não conheceram; hordas de Infernos de outras religiões já também há muito desaparecidas; o verdadeiro nome hebreu de Deus, impernunciável segundo os mais devotos, por ser demasiado sagrado: Yahweh; figuras que ainda hoje são parte integrante das nossas religiões e que das quais não sabemos muito, etc, et etc. Conhecemos um Inferno diferente daquele retratado pelo Catolicismo ou mesmo por Dante e conhecemos também uma história teológica do Homem e da criação do Mundo e do Universo muito bem engendrada pela pena do Carey. É um festival de arte misturado com argumentos para quem gosta de pensar e de cruzar conhecimentos.

Na minha opinião será imperativo ler o TPB “Season of Mists” da série "Sandman" e só depois começar a ler o primeiro da série Lúcifer. Preparem a carteira, pois se lerem o primeiro, só param no último. Considerada como uma das melhores séries de comics de sempre, pelos leitores, é um must-read indeed para qualquer amante desta arte.
Podemos ler outros títulos com este personagem: “Secret origins”; “Demon” vol.3; “Spectre” vol.3; “Hellblazer” vol.1; “The Witching” vol.1.
Imperdível!











