segunda-feira, 30 de junho de 2008

EX LIBRIS EROTICIS ("Dos Livros Eróticos")

Nos meus tempos de jovenzinho, em que ainda andava a descobrir o Mundo, não era muito comum ser confrontado com qualquer tipo de nudez ou referência mais ou menos erótica que fosse num qualquer livro de BD, televisão ou cinema. Não é que não existissem, pois existiam; basta lembrar a – tristemente – famosa Linda Lovelace, a bela Erika Blank ou, melhor, a Sylvia Kristel, que como a Erika foi estrela nos filmes Emmanuelle. Se a Linda Lovelace ficou conhecida por um filme pornográfico, terceiro escalão – que foi o mais visto da história da pornografia – as outras ficaram conhecidas por um filme erótico que ultrapassou todas as barreiras, na época, do aceitável. Este filme Francês levou o erotismo ao rubro, mostrando masturbação, violações e, claro, pompoarismo - hoje em dia bem mais em voga e por razões bem diferentes (técnicas de parto natural); O pompoarismo é uma técnica oriental já muito antiga, que consiste na contracção e relaxamento dos músculos do períneo e tem por fim primordial aumentar o prazer sexual tanto feminino como masculino…espero ter satisfeito a curiosidade de quem, eventualmente, nunca tenha ouvido falar da técnica! No caso do parto natural, prende-se com o facto de ajudar a parturiente a focar-se instintivamente no local e a controlar a força necessária para "expelir" o bebé, enquanto debaixo do efeito da epidural.
Esta receita para o sucesso foi adaptada à BD por vários autores, em especial os Italianos, e é destes que esta primeira parte destes posts sobre o erotismo se irá focar.
Também posso referir, desde já, que nessa época – os anos 70 – existiam revistas onde predominava a nudez. Revistas como a Gaiola Aberta, Zakarella, O Mundo do Riso (isto para não falar da mítica e muito rica em textos, no mínimo flamboyants, Gina… mas isso é outra conversa e muito pouco bedéfila por sinal, embora bastante gráfica nos seus desígnios!) e muitas outras que traziam sempre um picantinho dentro delas. Mas os jovenzinhos de outrora não tinham acesso a elas como agora têm os jovenzinhos dos tempos correntes, tal é o poder da Internet.
Terei que, obrigatoriamente, dividir este tema em partes, pois é tão vasto o assunto na BD. Acredito que começar pelos autores Italianos, que tão bem conseguiram e conseguem atingir níveis de elevada qualidade, seja a escolha acertada e de chave-de-ouro para abrir este tópico. A seu tempo verei se valerá o esforço redigir mais sobre o assunto. Quem já na BD não leu, ou pelo menos ouviu falar de Milo Manara, Guido Crepax, Vittorio Giardino ou P. Euleteri Serpieri, entre aqueles mais directos autores do género erótico? Ou outros, talvez não tão conhecidos, que sempre primaram por desenhar belas donzelas nas suas obras, como são os casos dos autores Roberto Raviola, Massimo Rotundo, Franco Saudelli e sua esposa Francesca Casotto (que servia de modelo para as suas criações), Gaetano Liberatore ou mesmo Raphael Marcello.
Neste post ir-me-ei basear numa das obras-primas dos livros sobre Banda-Desenhada, “Tentação à Italiana”, escrito pelo Brasileiro Gonçalo Júnior, editado em 2005 pela Opera Graphica Editora; também, na minha memória de muitas leituras sob e sobre o assunto, assim como na minha colecção que conta com largas dezenas – arriscaria centenas – de álbuns e revistas da especialidade…caso para exclamar: “Belo tarado, que este me saiu!!!” Não poderia começar a escrever sobre os autores acima referidos sem primeiro evocar o pioneirismo de “Barbarella”. Esta heroína foi criada por um Francês, de seu nome Jean-Claude Forest em 1962 e foi um marco de viragem na História da BD no Mundo. Seria também importante referir todas as influências que este autor teve para criar a voluptuosa Barbarella (inspirada na sex-bomb Brigitte Bardot, embora tenha sido representada no cinema pela também bombástica Jane Fonda); influências provenientes do cinema Francês e Italiano que pelo cunho dos seus principais autores exploravam na época a condição feminina (nem sempre em tom abonatório desta, frise-se); outras influências, como a Norte-Americana, quer através dos desenhos de Al Capp, Milton Caniff, Harvey Kurtzman, do grande Jim Holdaway e claro, do Rei das pin-ups, Bill Ward, foram fortes e incontornáveis para este boom criativo do erotismo neste Francês e posteriormente na escola Italiana; isto sem querer descurar Hollywood e as suas bomb-shells. O sucesso da bela e sensual astronauta levou ao aparecimento de outras aventureiras de belas curvas: Jodelle (Guy Pallaert e Pierre Bartier); Marie Math (do próprio Forest); Saga (Nicolas Denil); Vampirella (James Warren, Forrest J. Ackerman e Frank Frazetta); Zakarella (dos nossos Roussado Pinto e Carlos Alberto dos Santos); Scarlet Dream (Gigi e Moliterni); Epoxi (Paul Cuvelier e Jean Van Hamme…e estaria aqui a escrever linhas e linhas de outras heroínas e seus autores.

Creio que deu para perceber, embora de modo extremamente sucinto, os antecedentes dos mestres Italianos do erotismo os quais, nos próximos parágrafos, vou abordar. Friso que apenas roçámos o tópico, que para ser devidamente explorado teria que dedicar-lhe muitos e muitos mais capítulos.

GUIDO CREPAX:
GUIDO CREPAX (Guido Crepas. Milão. 15/07/1933 – 31/07/2003)
Em 1962, na senda da edição dos primeiros álbuns de luxo com obras de abordagem experimental - sinal de permissividade que após alcançada possibilitou o lançamento de variadíssimas publicações para adultos - surgiu o movimento denominado por “Black comics”, marcado por aventuras a preto&branco (mas onde o elemento que movia o desenho era apenas o preto) de mistério e suspense onde abundavam os elementos sádicos e, progressivamente, eróticos que vieram fortemente a influenciar Guido Crepax. Na linha “Black Comics” destaco a criação das irmãs Angela e Luciana Giussani, “Diabolik” (1962 - um estrondoso sucesso e precursora da utilização do “K” como elemento perverso de associação teutónica).
Depois de muita tinta derramada em Itália devido ao crescente de vozes contestatárias à proliferação de edições para adultos, onde já tudo valia (do fetichismo à zoofilia passando pela flagelação), e depois de terem sido rechaçadas pela liberdade de impressa e ideias, o Guido lançou a sua incontestável heroína fotógrafa – inspirada na actriz Louise Brooks – nas páginas da revista “Linus” dentro das aventuras de “Neutron”. Corria o ano de 1965 e “Valentina” rapidamente afirmou-se como um símbolo do erotismo, embora só em 1967 tenha tido direito às suas próprias aventuras. Para além de ser uma BD de forte carisma erótico, possuía outros factores que fizerem elevar a arte de Crepax a um outro patamar: referências cinematográficas, literárias e melómanas abundam nas suas complexas histórias. Depois de Crepax a arte sequencial erótica Italiana nunca mais será a mesma. Refiram-se também outros personagens originais e adaptados do e pelo autor: “Anita”, “Bianca”, “Belinda”, “Justine” e “Emmanuelle”. Em português temos acesso às suas obras através das editoras Brasileiras L&PM, Martins Fontes, Opera Graphica e em Portugal pela chancela da Marginália “A História d’O”. Deixou muitas saudades.

MILO MANARA:


MILO MANARA (Maurilio Manara. Luson. 13/09/1945 - )
Fortemente influenciado pelo anterior, também no seu tempo deu novo fôlego e alterou a forma como o erotismo passou a ser desenhado e aproveitado pela Industria e seus intervenientes artistas. Em 1982, com a publicação da história “O Clic!” na revista Italiana “Playmen” o ainda jovem artista ganhou rápida notoriedade; depressa viu o seu trabalho internacionalizar-se com a publicação da aventura da bela e devassada aristocrata nas páginas da famosíssima e saudosa revista Espanhola “TOTEM”. Passados poucos anos vê o seu trabalho elevado a obra imprescindível, já com “O Perfume do invisível” publicado (1984) pela gigante Francesa Casterman na revista “(A SUIVRE)” e ter sido definitivamente editada, até hoje, pela Albin Michele.
As histórias do Manara surgem numa altura em que as histórias para adultos perdiam a força ganha nos meados dos anos 60 até meados dos anos 70 e num tempo em que o aparecimento das Graphic Novels nos EUA traziam novo estatuto à 9ª arte e aos seus intervenientes. Esta lufada de ar injectada nas mentes criativas da arte sequencial trouxe mais material para os anos 80 e seguintes.
Manara será o primeiro artista de BD a conseguir atrair o publico feminino às suas histórias visivelmente marcadas pela inegável máxima “as mulheres também têm fantasias sexuais”. Pese o facto de ser por muitas vezes repreendido e acusado por facções mais feministas de denegrir o belo-sexo, a verdade é que quem as profere tem muito pouco de belo e apesar de se auto-denominarem feministas pouco têm disso. Vejamos, apesar de à primeira vista as suas histórias parecerem subjugar as mulheres, submetendo-as à depravação dos homens que nelas habitam, a verdade é que são, na esmagadora maioria, fantasias tipicamente femininas e em que são as mulheres – sempre protagonistas principais, com excepção feita às aventuras de Giuseppe Bergman – que lideram toda a trama, acabando invariavelmente vencedoras. Podemos ainda considerar, do ponto de vista masculino, a vergonha que o autor nos faz propositadamente sentir por nos excitarmos com situações que são imorais (ex. esturpo), mas que no entanto, habitam o imaginário fértil e talvez desviante, no ideal moral que não pode ser desmentido e confessado em publico, de um grande número de mulheres – não todas, claro – que confessam, apenas anonimamente, fantasiar com isso. Enfim, não me cabe estar a defender o que quer que seja, apenas constato uma verdade editorial: tem mais publico feminino que masculino! No fundo, e parafraseando um crítico, as suas histórias são de um “espectáculo libidinoso irresistível às mentes mais livres!”.
Manara colaborou com outros grandes nomes da arte: Federico Felinni; Hugo Pratt; Neil Gaiman e mais recentemente com Alejandro Jodorowsky. Em Português conseguimos encontrar praticamente todas as suas obras.


SERPIERI:


SERPIERI (Paolo Euletri Serpieri. Veneza. 29/02/1944 - )
Escrever acerca de Serpieri como autor de BD, é escrever sobre a Druuna. Para quem já leu alguma das aventuras da Druuna, a visão de uma mulher de formas exuberantes e atitude ingénua e generosa já não consegue ser ultrapassada apenas pela imaginação, pois Serpieri já nos roubou isso. Druuna representa a mulher que qualquer um de nós, num dado momento, já sonhou…era do tipo de menina que faria qualquer um de nós, na rua, exclamar “Bendita seja a tua mamanzinha, minha linda!”. Não existem adjectivos suficientes para descrever a fartura e a sua falta de pudor. A par com o Manara, Serpieri é um dos maiores vultos do erotismo/pornográfico dos últimos 25 anos. Pelo que o Serpieri afirma, o personagem foi inspirado numa menina com quem ele se cruzou em Roma no começo da década de 80 (caso para blasfemar: “Meu Deus, ela existe!”). Lançado em 1985 o primeiro episódio da sua já extensa saga na revista L’Eternauta, Morbus Gravis (editado pela Meribérica), é talvez uma das séries com os personagens mais completos na ficção-cientifica erótico-pornográfica, pela infinidade de influências do cinema, da literatura, da BD e dos próprios Comics. O Mundo bizarro da heroína, povoado por monstros mutantes disformes, monstros humanos e pobres coitados que deambulam à mercê de um poder mal definido, é o palco apocalíptico das suas aventuras, que embora pejado de cenas de sexo muito explicito não abdica de um enredo complexo e completo. O traço de pormenor cheio, meticuloso e hiper-realista define o desenho do autor; também o não abdicar da perfeição no produto final possibilitou-nos ler os seus álbuns com todas as suas cores originais. Em Portugal poderemos encontrar o álbum Morbus Gravis e Druuna editados pela Meribérica e o álbum “O Planeta Esquecido” editado pela Norma. É uma lacuna enorme não terem sido publicados os outros; a Bagheera é a editora Francesa da série, embora os dois primeiros álbuns tenham tido a primeira edição na Dargaud.


ROTUNDO:



ROTUNDO (Massimo Rotundo. Roma. 11/04/1955 - )
O título deste post não é mais se não um dos títulos de BD erótica já publicado, o seu autor, Rotundo, por incrível que possa parecer, sem haver uma explicação plausível aparente, não se tornou numa celebridade Mundial. Na Itália é bem conhecido e aclamado. Nas suas histórias, cada detalhe da paisagem ou do ambiente é cuidadosamente construído como complemento para a beleza plástica inigualável da anatomia feminina que costuma construir; a sua arte também chama a atenção de qualquer leitor para o facto de cada espaço das suas pranchas ser ocupado por desenhos que impressionam pelo preciosismo. Rotundo inclui-se, sem sombra de dúvidas, na excelência dos guiões e arte da BD. Em Portugal não temos nenhum álbum deste autor publicado, mas isto não é novidade pois tão parco é o nosso acervo; mas no Brasil tem pelo menos duas obras suas publicadas pela chancela da L&PM, nomeadamente os Ex Libris eroticis I e II. Em Espanhol, na revista “El Víbora” era assíduo; também na revista Francesa “L’Echo des Savanes” publicou algumas das suas obras.
Um tanto polémico quanto aos temas dos seus álbuns, devido ao conteúdo mais hard-core, onde inclui bestialidade e zoofilia, mas consegue fazer ultrapassar esse impacto ao suavizar o contexto implícito.


TANINO:
TANINO (Gaetano Liberatore. Quadri. 12/04/1953 - )
Este Arquitecto autor de BD, em parceria com Stephano Tamburini, criou o herói cyberpunk desprovido de carácter, Ranxerox, que debutou no nº 3 da revista Cannibale em 1978 (em Português, na Animal). O autor era presença assídua nas revistas “El Víbora”, “L’Echo des Savannes”, “Heavy Metal”, “Metal Hurlant”, “(A Suivre)”, “Chic”, etc.
Tanino não se encaixa na categoria de um autor essencialmente erótico, mas atingiu o patamar de mestre Italiano das formas femininas. O sexo aparece nas suas histórias como parte do contexto e só muito raramente como interveniente principal; as ninfetas que abundam nas suas histórias (em especial a companheira do desmiolado e agressivo herói, Lubna), tão novas que são que nem peito têm, são parte integrante e desconcertante pelo carácter violento e sádico que as movem na perseguição dos seus intentos, sejam eles quais forem.
Um dos aclamados trabalhos deste autor, “Liberatore’s Women” (1998), oferece-nos o talento enorme do seu criador na forma de rabiscos, esboços, aguarelas, óleos (etc) de cerca de 110 beldades em todas as poses imagináveis (desde masturbação assistida às fantasias); é um tratado e uma homenagem às pin-ups.
Outra aventura fora de colecção e que eu faço questão aqui em referir, mais para os amantes de comics, é a “E.M.P.S.”. Esta aventura mistura sexo, política e loucura num País dominado por uma ditadura socialista, onde a repressão policial é extremamente violenta, mas em que no entanto o governo oferece aos seus cidadãos um serviço gratuito de assistência sexual (!). A história desenvolve-se quando um velho homossexual e sadomasoquista recorre à ajuda médica disponibilizada pela assistência sexual. O médico reserva surpresas, pois debaixo da sua roupa esconde o uniforme do Superman…um devaneio louco de Tamburini desenhado por Tanino.
De acordo com a sua própria biografia, Tanino, desde criança que é fascinado por sexo (e quem não é?!).

MAGNUS:



MAGNUS (Roberto Raviola. Bolonha. 30/05/1939 – 05/02/1996)
Como a maioria dos mestres Italianos no desenho erótico, Magnus, teve formação em artes plásticas antes de entrar no mundo da BD. Foi um apaixonado pela 9ª arte desde tenra idade, o que o levou ao Liceu Artístico para se tornar desenhador profissional; depois estudou cenografia e pintura na Academia das Belas Artes; finalmente terminou a leccionar desenho.
Em Português só me lembro de o ter lido na revista “Grandes Aventuras Animal” (com o seu “Necron”, escravo sexual da sua Frankesteiniana criadora Dra.Frieda Boher) e nos álbuns da Martins Fontes. Mas em Espanhol era grande a fartura, desde a revista “El Víbora” até à mais recente “Kiss”.
Começou nos caminhos do erotismo em 1965, em parceria com Luciano Secchi, numa série que se propunha “copiar” o sucesso de Diabolik. Acabaram por criar não uma, mas duas séries, “Kriminal”(aqui por baixo) e “Satanik” (Marnie Bannister), que é possível ler em Português através dos formatinhos da “Vecchi”.
Após ter sido descoberto o seu traço firme na construção e caracterização dos seus belos personagens, Magnus teve também direito a ver publicados os seus trabalhos nas melhores revistas de BD para adultos da França e da Itália; vê publicados também vários álbuns. Um dos seus mais famosos personagens foi o herói Alan Ford, que parodiava os agentes secretos muito em voga nos anos 60/70. Foi a partir de 1975, com a criação da série de sex-fiction “il Briganti”, que cada vez mais mergulhou na BD erótica de carisma grotesco onde o estilo policial e de horror se misturavam entre si e o erotismo; nesta linha a sua criação mais conhecida foi o personagem Milady, uma estonteante prostituta de luxo. Na década de 80 surge o seu personagem mais conhecido e já mencionado supra, Necron; versão radical do clássico da literatura de Mary Shelley, “Frankestein”. Termino este pequeno perfil com a sua obra-prima da BD erótica, “As 110 Pílulas”, baseada num dos episódios mais corrosivos do livro “Jin Ping Mei”, um clássico da literatura erótica chinesa, passado durante a dinastia Sung, no reinado de Hui Tsung, período que ficou conhecido como Cheng Ho (O Império Harmonioso).
Refiro, embora não se enquadre no erotismo, a sua mais longa história em fumetti: Tex.




SAUDELLI:


SAUDELLI (Franco Saudelli. Latina. 04/08/1952 - )
Este confesso amante do Bondage (como se pode ver na sua imagem de apresentação, na companhia da sua esposa, Francesca Casotto) é por nós conhecido através da revista – mais uma vez – “Animal”. O seu personagem fetiche e principal suspeita na notoriedade do seu criador, Bionda, é loura. Não é uma “loira burra”, pelo contrário, é uma loira ladra bem inteligente e estreou-se na “Comic Art” em 1987. Para além de experiências um tanto ou quanto futuristas, as proezas de Bionda giram em torno dos hábitos e vícios da sociedade de consumo moderna, em tom de sátira social e com muito erotismo. Bionda foi inspirada na actriz Kathleen Turner e nasceu da sua paixão, já referida, por temas de cativeiro.
Um dos primeiros trabalhos de Saudelli, o mais importante no lançamento da sua carreira foi o álbum “A Filha de Wolfland”; esta Graphic Novel é sem dúvidas um dos seus trabalhos com maior expressão. A história passa-se num país Europeu fictício, que se assemelha inequivocamente com a Alemanha dominada pelo Partido Nacional-Socialista de Hitler e a sua corrente Nazi, e tem como protagonista Muriel Kampf (referência à obra de Hitler, escrita durante o seu cativeiro). Embora não seja uma obra de erotismo puro, já possui algumas pranchas mais escandalosas onde o fetichismo impera.



GIARDINO: GIARDINO (Vittorio Giardino. Bolonha. 24/12/1946 - )
Um conhecido nosso, com álbuns editados pela Meribérica e pela ASA (também com outros editados pela Brasileira Martins Fontes), é, ao contrário da maioria dos seus congéneres autores de BD erótica, formado em Engenharia Electrónica. Só aos 30 anos de idade é que se decidiu dedicar à BD (felizmente para nós!).
Em 1983 criou o personagem “Little Ego”, que era antes de mais uma homenagem ao personagem de Winsor McCay, “Little Nemo” e às suas sonhadas deambulações pela Slumberland. Com “Little Ego”, Giardino procurou juntar o surrealismo do sonho com o erotismo em tom irónico. As suas histórias são curta, nunca ocupando mais de quatro páginas. Embora criada em 1983, só em Julho de 1984 é que a doce sonhadora debutou na “Glamour International Magazine”; a revista que depois a acolheu e a deixou sonhar sonhos molhados foi a “Comic Art” até 1989 – teve várias reedições noutras famosas revistas como a Heavy Metal e a Selecções da BD :-)
Não se pode dizer que seja um autor de BD erótica. Com a excepção da Little Ego não se conhece mais trabalho dele nessa área, mas a Little Ego é uma das minhas preferidas heroínas da BD erótica. Provavelmente a sua série mais conhecida seja “As Investigações de Sam Pezzo”, editada pela Martins Fontes.
Haveriam mais autores a merecer aqui serem referidos, com toda a certeza, mas acredito que consegui focar os principais pontos do erotismo na BD Italiana. Espero que tenham gostado e que não tenham apanhado uma grande seca.

sábado, 28 de junho de 2008

R.I.P. MICHAEL TURNER.

MICHAEL TURNER. (Michael Layne Turner. Crossville/Tennessee. 21/04/1971 – 27/06/2008).
Foi com grande pesar que vi no blog do Crucios (Ekos World – o nome constitui uma homenagem por si só) que o Michael tinha perdido a sua já longa luta contra o pesadelo do Cancro. Estava eu a preparar há vários dias um outro post, mas achei que devia adiá-lo e prestar aqui a minha muito sentida homenagem a um dos meus preferidos autores e artistas de Comics.
O Michael foi descoberto pelo grande Marc Silvestri numa convenção, tendo desde logo sido contratado por este para a Top Cow como um dos artistas responsáveis pelas ilustrações cenográficas. Pouco tempo depois ajudou a criar o personagem “Witchblade”. Em 1998 lançou a sua absolutamente fantástica série “Fathom” e mais tarde “Soulfire”.

O Michael era uma força da vida; para além de ser um grande autor/artista, ocupava o seu tempo como praticante e instrutor de artes marciais; era praticante de esqui-aquático, que lhe valeu vários prémios em competições; era também um amante e ávido jogador de videojogos.
Em 2002 criou a sua própria chancela, Aspen MLT inc., e foi logo incapacitado de publicar as suas histórias pelo período de um ano devido a uma acção de tribunal imposta pela Top Cow relativa aos direitos das séries “Fathom”, “Dragonfly” (nome original da série “Soulfire”) e “Ekos”; esta disputa foi resolvida por mutuo acordo fora da barra do tribunal em 2003. Foi o artista responsável pelas capas de vários títulos da DC, das quais destaco Identity Crisis; foi co-autor e artista do arco “Godfall”.
Em 2005, na Marvel, foi mais tarde o artista responsável pelas capas alternativas da série “Civil War” e também da série “Wolverine: Origins”. Infelizmente não o conseguiremos ver na série “Ultimate Wolverine” e também na relegada – em prol da "Soulfire", por votação apertada dos leitores – “Ekos” com o seu herói, Grell.
A sua lamentável e corajosa batalha pessoal contra o cancro começou em Março do ano 2000 quando lhe foi diagnosticado um condrossarcoma (lesão cartilaginosa maligna) na pélvis do lado direito. Foi tratado no Centro Médico da Universidade da Califórnia, Los Angels, submetido a uma excisão cirúrgica radical que lhe retirou por completo a sua anca, quase metade da pélvis e cerca de um quilo e meio de osso, seguida de nove meses de complicada radioterapia. Ao fim de 8 anos não resistiu e foi malogradamente ceifado pelo algoz cancro na cama que ocupava no Hospital de Santa Mónica às 10h42m (hora do Pacífico), perto do seu estúdio na Marina d’El Rey.
Este é um elogio curto para a sua bela obra, mas aqui fica um muito obrigado pela tua imaginação e pelo teu génio artístico.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

WANTED

WANTED é uma mini-série de 6 comics editados pela Top Cow, é considerada um complemento à série “The Authority” (Warren Ellis e Mark Millar) e que é pressuposta ter uma premissa de Watchmen.
Em WANTED, Mark Millar – brilhante e muito controverso – traz-nos um Mundo habitado por Super-Vilões, os quais, após se terem organizado, acabaram com todos os Super-Heróis, dominado por cinco crime-lords e a sua fraternidade que tudo pode contra quem quer que seja e que viajam entre os vários Mundos paralelos saqueando quase que impunemente. O personagem principal é um jovem inadaptado e muito otário de 24 anos, Wesley Gibson, que descobre que o seu pai era um dos mais perigosos Super-Vilões à face do Planeta (Killer) e que lhe deixou como herança uma considerável fortuna; para poder ter direito a herdar, o jovem Wesley tem que aprender a ser como o seu Pai.
O Mark Millar, um Escocês (gozado pelos seus pares como forreta, fazendo jus à fama que acompanha os seus compatriotas – que eu considero serem bem generosos) com 38 anos e com demasiados créditos nos Comics para aqui serem referidos – abro excepção ao mega acontecimento Civil War – criou para esta sua série os assassinos “ultimate” (Pai e filho). Com arte do J.G. Jones este WANTED é uma leitura fácil mas um bocadinho perturbante devido à violência gratuita e pouco fundamentada dos seus personagens; isto é, embora sejam realmente todos Super-Vilões, o Mark tenta justificar o porquê da malvadez dos mesmos e aí perde em toda a linha, pois os pressupostos são fracos. No entanto, e no geral, a série é muito boa e constitui entretenimento garantido.
Tal foi o sucesso que, na senda aberta pelo recentemente e com muito sucesso estreado Iron-Man, a adaptação cinematográfica da mini-série estará muito brevemente a ser também estreada nas salas de um qualquer cinema perto de si (veremos se terá sucesso). O seu elenco é constituído por alguma estrelas do firmamento de Hollywood, entre elas a deliciosa Angelina Jolie (Fox), o oscarizado Morgan Freeman (Solomon) e James McAvoy na pele do protagonista, portanto poderemos contar com alguma qualidade; a realização está ao cargo do Russo Timur Bekmambetov, pouco conhecido, de onde apenas se poderá destacar os filmes “Night Watch”/”Day Watch”.
A ultima edição da série – “WANTED, Assassin’s edition” – para além dos seis comics compilados em hardcover, dá-nos uma série de entrevistas, esboços, “deleted scenes” e estudos dos personagens, capas alternativas e uma dust-cover que no reverso tem um maravilhoso desenho da bela e depravada Fox.
Não é uma série para meninos!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

AND NOW...SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT:

Roubando esta famosa frase aos Monty Python começo este pequeno post a um dos mais famosos Comic/Revista de sátira: MAD Magazine…e, pois está claro, ao “usual gang of idiots” que a criou e ainda hoje, os que ficaram, a trazem até nós. Esta frase poderia muito bem ter sido aquela que antecedia o título MAD; no entanto a frase que antecedia o título era “Tales to calculate to drive you…”, que constituía uma paródia aos famosos contos policiais radiofónicos do seu tempo: “Tales well calculated to keep you…in suspence”. A outra frase vertical, “Humour in jugular vein” era por si só uma antecipação ao seu interior satírico.
Será um pequeno post, pois tudo o que há para dizer sobre este Comic/Revista e tudo o que nela se englobou e engloba seria trabalho para um largo compêndio, qual ensaio académico. No entanto, já havendo muito – ou pelo menos, algum – material publicado sobre este famoso pasquim, para quem quiser ler e aprender mais será fácil.
Eu fui apresentado a esta revista nos idos anos 80, já ela ia no número 269 (Março de 1987), em que a capa – a imitar a TIME Magazine “Man of the year” – era uma sátira a uma das figuras que ensombravam a relativamente recente MTV – Max Headroom – onde, como é costume, a figura de proa e que logo identifica a revista se “disfarça” de Max. A MAD só a muito custo se encontrava, sendo para isso necessário correr os hotéis que possuíam banca de jornais e revistas internacionais, pois mesmo esses hotéis não a recebiam com regularidade; a Livraria Barata também era paragem obrigatória, pois possuía, provavelmente, o melhor escaparate de revistas de BD internacional em Lisboa a par com a Linhares.

A versão Brasileira, embora tivesse debutado em 1974 pela chancela da Vecchi, só na década de 80 é que se tornou fácil de encontrar nos nossos escaparates. Nunca, na minha opinião, chegou aos calcanhares da original, pese o facto de possuir muita arte da original e também ter muitos artistas Brasileiros dotados e com muito material nacional – social e politico – para satirizar. Já conta com cinco edições: Vecchi; Record; Mythos e Panini que ainda a publica.

Fundada em 1952 pelos lendários William Gaines e Harvey Kurtzman é hoje, e desde há muito tempo, a última sobrevivente da clássica e aclamada linha EC Comics (estão agora disponíveis os HC – um para cada linha - compilando os seus respectivos números). Há muitos anos atrás, estava disponível na infelizmente já desaparecida Linhares (Meca dos Comics e BD internacional em Lisboa) a primeira edição slip-cased hardcover da Tales from the Crypt e MAD Magazine, entre outras maravilhosas relíquias.
Sobre os seus fundadores também existe muita coisa a dizer, não estivessem eles entre os mais controversos, geniais e inovadores mestres dos Comics Americanos.
Escrever sobre a carreira e a vida destes Srs. é indissociável da MAD.

O Harvey Kurtzman nasce em 1924 no bairro de Brooklyn, em Nova York, e depois de muita história de vida ver-se-á como editor da MAD em 1952. O aparecimento do Comic surge de uma disputa salarial em que o Harvey se julgava discriminado em relação ao seu outro colega editor, Al Feldstein. O Al era editor de mais Comics da linha EC e reconhecidamente mais rápido a produzir. Foi então proposto ao Harvey, pelo Bill Gaines, a edição de um Comic humorístico e se o fizesse com sucesso veria os seus honorários crescer; assim nasceu a MAD. Poucos anos depois, foi-lhe feita uma proposta para um novo trabalho; o Bill Gaines, não querendo perder o Harvey, decidiu um novo up-grade ao Comic – ao fim de 9 números já tinha passado de bi-mensal a mensal – agora, depois de 23 números como Comic Book, ao vigésimo quarto, mudou o seu formato para Magazine – de $0,10 passou a custar $0,25 – mantendo assim no seu cargo o seu principal impulsionador e ao mesmo tempo contornando a nova ordem que imperava sobre os Comics (já lá vamos!). Em 1956, no ano em que a MAD cresceu bastante, enquanto os outros títulos EC já tinham sido completamente abandonados, levantou-se um caso que ainda hoje é polémico: reza a história que o Harvey pediu ao Bill 51% do negócio deste, por achar que o sucesso da revista se devia apenas a ele; o Bill, então, substituiu-o pelo Al Feldstein e o assunto ficou arrumado. Tendo saído da revista, passou por muitas outras publicações de grande qualidade, embora efémeras; exemplos: “Trump”; “Humbug” (que vai ser editada em slip-case HC brevemente) e “Help!”. Dentro do trabalho produzido para a muito efémera e valiosíssima Trump (dois números em que o Publisher era o conhecidíssimo Hugh Hefner) destaco o seguinte: quem alguma vez leu uma Playboy Norte-Americana – para além de ver as belas Playmates – se calhar conseguiu chegar às últimas páginas, onde estavam impressas umas pranchas de um comic um bocado ordinário e cheio de um humor muito à parte daquilo que era usualmente visto; o personagem chamava-se Little Annie Fanny (disponível na Amazon.com em dois volumes) e o seu autor era o grande Harvey Kurtzman. O Harvey deixou-nos com saudades ao partir em 1993. Dele ficou um histórico e impressionante acervo e um prémio com o seu nome, para além da sua herança, que predomina no humor característico com que nos brindou ao longo de décadas. Nessa altura foi editado um álbum, onde se reuniram muitos dos artistas seus amigos e principais admiradores que confessavam fortes influências, esse álbum foi publicado pela Meribérica com o título “Estranhas Aventuras”. Muito mais havia para escrever sobre este artista/autor/editor para lhe fazer completa justiça.

O outro responsável pela criação do título MAD foi o seu “Publisher”, William Gaines, nascido em 1922 tendo partido para o outro paraíso em Junho de 1992. A forma do como e porquê deu ordens para a criação da revista já foi descrita no parágrafo anterior. Este Publisher é também autor de muitos e muitos textos humorísticos e é pedra basilar no estabelecimento dos Comics como arte respeitada. Empreendeu grandes lutas contra as forças que se interpuseram aos Comics, sendo a CCA a mais famosa (Comics Code Authority) – associada da CMAA (Comics Magazine Association of América). Foi também alvo de um inquérito da Sub-Comissão do Senado Norte-Americano para a Delinquência Juvenil, após ter sido publicado o livro “Seduction of the Inocent” (1954) do Dr. Frederick Werthman. Este autor, no seu livro, defendia a tese de que os Comics eram leituras para crianças e, por tal, deveriam ser alvo de séria análise (leia-se censura) antes de publicados…passo a descrever a mais importante parte do interrogatório da sub-comissão:
Chief Counsel Herbert Beaser: Let me get the limits as far as what you put into your magazine. Is the sole test of what you would put into your magazine whether it sells? Is there any limit you can think of that you would not put in a magazine because you thought a child should not see or read about it?

Bill Gaines: No, I wouldn't say that there is any limit for the reason you outlined. My only limits are the bounds of good taste, what I consider good taste.

Beaser: Then you think a child cannot in any way, in any way, shape, or manner, be hurt by anything that a child reads or sees?

Gaines: I don't believe so.

Beaser: There would be no limit actually to what you put in the magazines?

Gaines: Only within the bounds of good taste.

Beaser: Your own good taste and saleability?

Gaines: Yes.
Senator Estes Kefauver: Here is your May 22 issue. (Kefauver is mistakenly referring to Crime Suspenstories #22,May) This seems to be a man with a bloody axe holding a woman's head up which has been severed from her body. Do you think that is in good taste?

Gaines: Yes sir, I do, for the cover of a horror comic. A cover in bad taste, for example, might be defined as holding the head a little higher so that the neck could be seen dripping blood from it, and moving the body over a little further so that the neck of the body could be seen to be bloody.
Kefauver: You have blood coming out of her mouth.

Gaines: A little.

Kefauver: Here is blood on the axe. I think most adults are shocked by that.

Esta translação do inquérito é parte integrante da História dos Comics e da MAD, pois devido a esta “perseguição” a crise nos Comic Books iniciou-se; a MAD passou de Comic a Magazine (número 24) para se esquivar das restritivas regras da CCA (impostas em 1955), podendo assim o seu criador continuar a dar livre azo à sua criatividade. A título de curiosidade, a mensagem que o número 24 traz dentro é :"Buy this Magazine".

O William Gaines era o principal responsável pela publicação dos títulos EC Comics – são as siglas para Educational Comics e também Entertaining Comics – onde os seus mais conhecidos títulos adaptavam histórias bíblicas. O Bill encontrou o seu nicho nas histórias de terror, ficção-cientifica e fantasia; dos títulos mais conhecidos destaco o famosíssimo Tales From The Crypt; Shock SuspenStories e Two-Fisted Tales. Em finais de 1954 a linha EC começou a sofrer um grande revés, acabando por ser cancelada em 1955, muito pelas razões mencionadas supra. A MAD, por ser extremamente lucrativa, foi salva pela família Gaines, tendo continuado a ser publicada.

No início, a MAD, para além do já referido Harvey Kurtzman, tinha nos seus quadros os criadores/artistas Bernard Krigstein e Russ Heath; estes eram, na época, o reduzido “the usual gang of idiots”, embora o termo só ter começado a ser publicado nos créditos da revista muitos anos depois. Refira-se também, embora só tenha entrado em dois números da revista, tendo a seu cargo a capa do número 11, o artista Basil Wolverton, conhecido ainda hoje pelos seus desenhos grotescos e por si próprio professado como “Producer of Preposterous Pictures of Peculiar People who Prowl this Perplexing Planet”.

Como já tinha escrito, aquando da saída de Kurtzman deu-se a entrada de Feldstein (número 29), este último manteve-se no cargo de editor até 1984 – a MAD tinha um tiragem de mais de dois milhões de cópias por Mês – depois de ter estado 28 anos “sentado” no cargo. A entrada de Feldstein para editor da MAD coincidiu com uma nota da TIME que escrevia que a MAD era uma efémera revista pulp satírica; a própria TIME, hoje considera a MAD como a revista com mais sucesso nos anos 50, a par com a TV Guide e a Playboy, "engolindo" sem pudor a sua nota. Após a saída do Al entraram, como equipa, Nick Meglin e John Ficarra; este último ainda hoje se encontra à frente da edição da revista.

Querendo aqui apenas referir o impacto económico-político-social que a revista causou, embora relevante e no meu entender muito interessante, seria uma tarefa extenuante e em que me arriscaria a aborrecer-vos (ainda mais) se aprofundada com as devidas referencias, pois a ramificações são inúmeras, logo, extensas. Posso apenas dizer que desde lutas legais com o gigante Coca-Cola, entre outros; políticos como o Richard Nixon ou George Bush; e sociedade Norte-Americana, desde os puritanos aos extra-liberais, passando pelos patriotas, tudo aconteceu à, e com, a MAD.

Nas suas páginas desfilaram e desfilam os melhores autores/artistas, dos tempos idos e dos contemporâneos, com os seus recorrentes artigos, tais como: “The Lighter Side of…” do inesquecível Dave Berg; “Spy vs. Spy” do saudoso António Prohía; os Gags do também saudoso Don Martin (editados na integra em dois luxuosos HC slip-cased volumes – também o seu ghost-writer Don “Duck” Edwing (figuras marginais, mas de muita importância nos comics que valerão um futuro post); “A MAD look at…” e as “MAD Marginals” (também em formato XXL) do hilariante Sergio Aragonés; As sátiras às séries de TV e aos filmes, onde destaco o Mort Druker como artista e a relativamente recente paródia cross-over feita às séries Sex in the City e Deadwood, onde as protagonistas da primeira são contratadas como prostitutas para o Gem Saloon; “Snappy answers for stupid questions” do prolifico Al Jaffee; e claro, a “MAD fold-in”, que dispensa apresentações e que valoriza brutalmente a revista, quando não efectuada. Faltam aqui dezenas e dezenas de nomes que também muito justamente mereceriam a devida vénia.
Para terminar, teria que escrever sobre o rapazinho mascote da MAD…pois está claro!!! Nunca ficaria completo – mesmo que sucintamente – um post à MAD, se não se escrevesse sobre o ALFRED E. NEUMAN!
“WHAT, ME WORRY?” é a famosíssima frase do rapazinho com ar de, para uns, de totó, para outros, de maluco. O que é certo é que o Alfred, desde que debutou na capa da MAD número 24 – first cover appearence – embora só na capa do número 30 (1956) é que contará com capa só para si, o AEN raramente deixou de aparecer numa das 490 (Junho 2008) capas da revista, exemplos: a número 233, onde aparece o Pacman e a número 254. A sua primeira aparição é em 1954 na Ballantine’s The MAD Reader (compilação dos dois primeiros anos da MAD).
Mas esta figura caricata não é original criação do responsável pela sua fama, é um pictograma já conhecido pelo menos desde 1908 (à esquerda) e 1921 (à direita), mas foi adoptado pelo Harvey Kurtzman e adaptado pelo Bill Elder (a P&B) e depois, definitivamente, pelo Norman Mingo (a cores). Mesmo muito antes de 1908, em 1868 já se conheciam as caricaturas aos “Mik”, nome pejorativo dado aos Irlandeses, que eram já muito parecidas com a do Alfred E. Neuman; isto fez com que a MAD e o seu primeiro editor tivesse que defender em tribunal a propriedade da imagem do AEN para que permanecesse registada à revista. O nome Alfred E. Neuman foi retirado de um programa de rádio dirigido pelo comediante Henry Morgan, onde aparecia um personagem inócuo – do género, passado cinco minutos já não nos lembramos dele!) e que se chamava Alfred Newman – alusivo, mas sem relação, ao compositor oscarizado; agora, não me perguntem qual o nome que o “E.” representa, pois até hoje nunca consegui saber com toda a certeza (se calhar referência ao Henry, emudecendo o “H”). Uma curiosidade é que o Alfred nunca foi desenhado de perfil, mas sempre de frente, de costas ou então em silhueta. Outra curiosidade prende-se com a frase famosa acima assinalada “What, me worry” só por apenas uma vez ter sido alterada para “YES, me worry!”, depois do desastre nuclear de 1979 na Ilha de Three Mille. Foram, no entanto, feitas adaptações a outras línguas, mesmo a línguas mortas: “Quid, me vexari?”. Cada vez que existem eleições, lá vem o eterno candidato AEN com o seu também famoso slogan “You could do worse…and always have!” (MAD cover #218 que é um remake da capa do #30). Por incrível que possa parecer, sendo o Alfred uma das caras mais reconhecidas nos EUA, a revista que mais números vendeu foi o número 161 (Setembro de 1973) que satirizou o filme Aventura no Poseidon (versão 1973) e onde apenas aparecem os pés do Alfred.
Traduzida e/ou adaptada em 24 Países e para 17 línguas (na Índia é publicada em Inglês), é ainda hoje um enorme sucesso, com o qual eu me delicio todos os meses.
Para quem a quiser adquirir, hoje em dia não é muito difícil: é procurar uma daquelas tabacarias que a receba, se a começarem a comprar o distribuidor continuará a colocá-las nesse spot. O mais cómodo e mais fiável é irem à BDMania e fazerem uma standing-order; se não morarem na grande Lisboa, fazem-na online que o serviço ao cliente é excelente.

Para quem sobreviveu até ao fim deste post, pois os meus parabéns!

Agradecimentos especiais ao Doug Gilford, pelas capas aqui colocadas (maldito scaner e dono – eu - que é um nabisso!); O Doug é provavelmente o maior coleccionador de revistas MAD, o seu site é um autêntico babanço (não digo “inveja”, porque é feio!) para quem é coleccionador destas revistas: http://www.collectmad.com/madcoversite/ . Vejam a opção “Spice up your Mad covers the Bradford way!” Quanto ao resto, tudo serviu: a memória, os meus livros enciclopédicos sobre Comics e sua História e a Wikipédia (que repete os livros e dá mais algum material).

quarta-feira, 4 de junho de 2008

FELL: Feral City

Não é estar “sempre a bater na mesma tecla”, mas quando estou especialmente interessado num certo autor ou artista (por motivos de ter lido algo que me tenha agradado muito), tenho a tendência para me entrosar nas suas obras até me fartar e então mudar de ares. Neste caso mato dois coelhos com uma cajadada só.

Em posts anteriores já tinha feito um perfil de ambos os intervenientes responsáveis pela criação desta pequena obra-prima hard-boiled – Warren Ellis e Ben Templesmith – por tal apenas vou-me debruçar no personagem e sua estória.Richard Fell é um Detective que por razões ainda por apurar, mas que não foram as melhores, viu-se exilado numa zona muito bera, Snowtown, da grande cidade (que não é especificada). A imagem “o outro lado da ponte” é uma constante para lhe fazer lembrar, e a nós também, de uma outra vida com certeza mais glamorosa do que esta que agora vive. Richard Fell, qual Dante, explora e esmiúça este Inferno que é “o outro lado da ponte”, vivendo situações de intenso perigo pessoal. Incorporado numa esquadra desfalcada de operacionais – 3 homens e meio – e comandada por um Capitão que, ridiculamente, acredita nas artes mágicas como forma de ver resolvidos os infindáveis casos que afogam a dita esquadra – tal é o desespero que transformou o comandante num alucinado consumidor de barbitúricos – o nosso anti-herói aparece como um reforço de luxo mas ainda pouco acreditado como tal.

O traço do Ben Templesmith é também personagem principal, ao criar um cenário tão sombrio que por si só descreve o buraco deprimente e perigoso que é aquela parte da Cidade. Warren Ellis escreve short-stories nas quais, em cada uma, constrói o carácter dos personagens e dá-nos um caso policial com princípio meio e fim; cada um mais estranho e improvável do que o anterior e onde a máxima do Detective Richard Fell se aplica muito bem: “toda a gente esconde alguma coisa”.

É um reviver dos policiais negros da década de trinta muito adaptado à realidade actual e mais obscura que se poderia encontrar; o estilo Hard-Boiled no seu melhor. Editado em TPB, com capa alternativa (imagem abaixo), pela Image faz agora um ano, contém oito pequenos contos, perfazendo um total de 128 páginas de muito boa – arrisco: excelente – literatura bedéfila.

sábado, 31 de maio de 2008

78ª FEIRA DO LIVRO, DE LISBOA

Acabei de chegar da Feira do Livro de Lisboa e não resisto em deixar aqui as minhas frescas impressões da mesma.
Dificuldades de estacionamento já se esperava, mas desta vez não tive sorte em conseguir um lugarzinho para o pópó naquelas alamedas bem arborizadas paralelas ao Parque Eduardo VII, daí ter ido meter a viatura no parque subterrâneo, qual foi o meu espanto (embora não me devesse ter espantado!) que por três horas de parque paguei 4,80 Euros…é o que se chama “ir roubar para a estrada”…não bastavam as Gasolineiras!


A Feira está na mesma: ridículos e exíguos pavilhões; farturas; hambúrgueres; gelados; pipocas; gente, muita gente (!); preços que ficam muito aquém daqueles que poderiam ser praticados pelos Editores que aqui eliminam a margem de lucro dos “bandidos dos Distribuidores” (salvo seja!). Algumas Editoras lá tinham a bancazinha para um qualquer autor dedicar o seu livrito e assim se aproveitar daqueles que não resistem a um autógrafo (mesmo quando não fazem intenções de vir alguma vez a ler o livro moldura do dito cujo). Animação: nada! Pois…é um local por demais intelectual para ter direito a outras manifestações de cultura para além daquela que é impressa…nem que fosse música de câmara para animar a festa, caramba!



Fui à BDMania e lá comprei o TPB em formato especial “A Casta dos Metabarões”; o resto já eu tinha tudo, portanto resisti a não quebrar a tradição e lá gastei 13,50 Euros, mesmo já tendo os álbuns da malfadada Meribérica e os Comics da Humanoids Publishing; é que não gostaria de ver a prateleira desequilibrada com apenas o último livro, desculpei-me eu!
A DEVIR, mesmo ao lado, metia dó. Nada de novo, tudo já muito visto, apenas os álbuns em HC dos Piratas do Tiête me suscitou alguma curiosidade; no escaparate do lado “tudo a 5 Euros”, dizia a placa…como se fosse barato!
Não sei se deixei escapar a Sodilivros, corrijam-me se me enganei no nome dos Distribuidores que no ano passado vendiam tudo a 1 Euro. Se deixei, também não me interessa pois já tenho tudo (na minha colecção de álbuns faltam-me apenas uns 5 ou 6 livros do Blueberry e não acredito que os fosse encontrar ali).
Passei pela Bonecos Rebeldes e vi o novo livro BC por 15 Euros; comprei-o e não me arrependi.
Na Gradiva lá estavam os Calvin e FoxTrot; de novo apenas o número dois da Agnes; não comprei, pois não gostei do primeiro.
Na Bizâncio estavam a fabulosa série Baby Blues que a par com a série Zits (da Gradiva) devem ser as únicas a serem editadas quase que ao mesmo tempo do que a edição Norte-Americana.
Nas Edições Afrontamento perguntei pelo quinto e sexto volume da absolutamente fantástica iniciativa da edição traduzida da série integral Peanuts: só no Natal. São 24 volumes e por este andar só daqui a dez anos é que eventualmente estará completa!!!
De BD é isto…de pouca esmola vive o pobre!
Este ano o Grupo Leya lá entrou em força, e quando a polémica estalou eu até tomei o partido do Grupo, pois já estava farto dos mentecaptos do costume da APL. Pensei eu: - Ora ainda bem que há alguém com poder para fazer cair aqueles tipos do seu iluminado pedestal e consigam fazer com que os Dinossauros evoluam, já que não os conseguimos extinguir! Pois, pois! Agora estou aqui para engolir as minhas palavras. Que regabofe, que fogueira (ou feira, como preferirem) das vaidades, que ostentação e que tão mau serviço. Os livros estavam caríssimos, com descontos ridículos; as várias bancas estavam pejadas de “colaboradores” que percebiam absolutamente nada daquilo que estavam a vender (já lá vou com mais pormenor); a tenda central estava cheinha de caixas e era sempá’aviar o freguês; o acesso superior, que dava para a passadeira que dá acesso ao outro lado da feira, entupia a passagem de quem quer que fosse e, mais atento, reparei que, organizada tal como uma fortificação Romana de campanha, tinha as passagens para as Bancas das outras Editoras vigiadas por seguranças e máquinas de detecção para prevenirem que os mais atrevidos levassem o livrinho para casa sem primeiro o pagar. Já nem parecia a Feira do Livro…parecia mais a loja itinerante do Grupo Leya, qual Circo com a sua trupe de ilustres (e não tão ilustres) autores. Claro que fui à banca da BD da ASA! Perguntei ao “colaborador” de serviço (que já o ano passado lá estava) se tinha saído alguma edição para a Feira…a resposta do Sr. Colaborador, com ares de entendido: “Sim, este álbum, O Santuário de Gondwana.”. Fiquei perplexo e não resisti em lhe perguntar: - O Sr. percebe alguma coisa de BD?! Rodeou a pergunta, mas a ausência de resposta pronta foi esclarecedora. A ASA BD é triste e pobrezinha! Comprei o álbum do Titeuf que me faltava, custou-me dez Euros! Se o tivesse procurado com mais afinco numa qualquer grande superfície, provavelmente ter-me-ia custado 3 Euros (ou menos); será que as grandes superfícies têm prejuízo na venda desses livros?! Não me parece. De resto, o que existia nos escaparates dessa triste Banca eram Astérix, Lucky Luke, Spirou da joint-venture com o Público, Thorgal, BlackSad, e os outros títulos editados também com o Público. Repito: que pobreza.
Para me fazer sentir pior, lá se viam os “amigos” a aviarem-se de tudo o que era títulos, a custo zero; sacos e sacos de boa (e má) literatura prá rapaziada! Eu e os outros papalvos, que não são “amigos” de alguém, a pagarem por eles!
Nunca pensei dizer, ou escrever, isto: A APL é que tinha razão! É a minha opinião, e, contrariamente ao que sempre fiz e advoguei, não vou respeitar as contrárias.
Para a próxima vez que for à Feira do Livro não vou ao “Espaço Leya”, como pomposamente chamam àquela chafarica sem vergonha que conspurca o espírito (embora “fraco de” também se poderia prefixar) do que deveria ser uma Feira. Melhorar é possível, sem dúvida; Mas assim não!