quarta-feira, 13 de agosto de 2008

MORT WALKER

É sem dúvida um dos melhores cartunistas de todo o sempre, os seus personagens marcaram e marcam gerações, desde os mais conhecidos da série Beetle Bailey (Recruta Zero) aos menos conhecidos Boner’s Arc (Arca de Noé).
Como quase todos nós, travei conhecimento com este grande nome dos cartoons através dos gibis brasileiros que até nós chegavam com pelo menos seis meses de atraso (e apenas se houvesse sobras no mercado brasileiro). Eram os anos 70 e os gibis da RGE (Rio Gráfica e Editora) rivalizavam com os da Editora Abril. As histórias eram trabalhadas pelos estúdios brasileiros (com aprovação do Mort Walker) que aproveitavam o fenómeno de publicações das famosas tiras nos Jornais, portanto ainda não tinha mesmo tomado contacto absoluto com o trabalho original do autor. Só mais tarde, com as compilações em formato de tiras (comic strip) é que me assombrou (embora ainda fosse demasiado imaturo para o reconhecer) o seu trabalho genial e o seu maravilhoso dom em nos fazer rir e pensar. A RGE foi a pioneira na publicação do Recruta Zero em língua Portuguesa, mas, de facto, é à "Saber SA, Expansão Industrial e Comercial da Cultura" que se deve a expansão e grande volume de vendas no Brasil com um gibi em formato livro (inventado por Savério Fittipaldi) que dava pelo nome "Zé, O Soldado Raso". Ao contrário dos da RGE, só tinha material original, isto é, made by Mort Walker. Vendia entre 40 a 50 mil exemplares, enquanto os da RGE (actual Globo) "só" vendiam cerca de 12000. Figurou nos nossos jornais há já algum tempo: lembro-me de o ver no “A Capital” e no “Correio da Manhã” quando tinham a boa prática de publicarem tiras.
Nascido em 1923 na cidade de El Dorado no estado do Kansas, mal sabiam os Pais que iriam trazer um tesouro que nos faria ir a todos mais além do que a Dorothy foi (sem querer descurar o também genial Lyam Frank Baum). Prestes a completar 85 anos de idade, Addison Morton Walker é ainda hoje um dos mais populares cartunistas em actividade, com os seus personagens a serem vedetas nas funny pages de cerca de 3000 jornais por esse Mundo fora. Mort Walker detém o recorde do cartunista com o maior número de jornais a publicarem os seus desenhos.
Este seria outro post monstruoso se eu me deixasse levar pela minha paixão pelo autor, portanto tentarei ser breve mas conciso.
Mort Walker começou a desenhar desde muito cedo, aos 11 anos de idade conseguiu ver publicado o seu primeiro cartoon, tendo sido remunerado. A sua paixão pelo género surgiu das suas muitas leituras dos agora clássicos. Milton Caniff (Terry e os Piratas) e Frank Willard (Moon Mullins) foram as suas principais influências. Começou aos 12 anos a coleccionar originais, o que o levou a alcançar, anos depois, o maior acervo do género no Mundo. Arrepiando história, em 1942, aos 19 anos, entrou para o exército e aqui a sua caminhada para o sucesso ganhou maior fôlego, pois foi através desta experiência que adquiriu os conhecimentos necessários para dar vida ao seu maior sucesso, Beetle Bailey. Foi em 1950 que criou Spider (imagem à esquerda), um estudante universitário calão, strip adquirida pela King Features Sindycate. Foi um flop pois não conseguiu ser publicado em muitos jornais (para ter sucesso uma tira teria que ser publicada em pelo menos cem jornais). A King Features estava prestes a cancelar o contrato com o artista quando se deu o início do conflito na Coreia. Aí, Mort fez o jovem Spider, já com o nome de Beetle Bailey, ingressar no exército. Foi o início da caminhada para o sucesso. Depressa se fez notar, de tal maneira que o jornal do exército (Stars & Stripes) também adquiriu os direitos de publicar o herói. Foi exactamente com esta passagem pelo Stars & Strips que o Mort Walker e o seu Beetle Bailey foram catapultados para o absoluto sucesso; isto porque o jornal, ao fim de algumas tiras, decidiu cancelar a publicação por achar que denegria e ridicularizava a imagem dos oficiais em geral. Tal foi a cobertura mediática da medida que fez disparar as vendas dos direitos da publicação da tira noutros jornais. A tira e seus personagens geraram sempre muita discórdia em variadíssimos meios da sociedade Norte-Americana: fosse por dar uma imagem estereotipada dos Negros (Tenente Mironga, Lt. Flap no original), fosse pela imagem das mulheres (Dona Tetê, Miss Buxley no original), ou fosse pela imagem estereotipada dos jovens do interior, ou mesmo dos jovens mentalmente retardados (Dentinho, Zero no original), entre muitas outras. Tiras censuradas foram mato (Ex: Miss Buxley em biquini); no entanto fez um trabalho para um editor Sueco onde a própria Miss B. aparecia nua…um editor Norte-americano viu-a e pediu-lhe para a editar nos EUA em edição limitada: esgotou em menos de nada!
Quando a Guerra da Coreia terminou, Mort achou que a imagem do soldado já não se coadunaria com os novos tempos, então trouxe o Beetle Bailey para casa e criou-lhe uma família. Foi uma cartada aparentemente mal jogada, pois os milhões de fans exigiram o regresso do jovem recruta ao quartel (Swampy) comandado pelo inesquecível General Dureza (General Halftrack), o que aconteceu logo ao fim de apenas duas semanas. “Aparentemente mal jogada”, mas apenas aparentemente, de facto a criação da família do Beetle Bailey deu origem a um spin-off de estrondoso sucesso: Hi & Lois (A turma da Zézé - imagem à esquerda). Esta nova série de cariz familiar foi e ainda é uma das tiras de maior publicação no mundo dos periódicos, nas suas páginas dedicadas aos Funnys e aos Comics, sejam diárias ou dominicais (normalmente a cores e de página inteira). Eram os anos 50 e as famílias em geral retratavam-se nas cenas dos seus simpáticos personagens. Personagens que ao longo dos anos evoluíram sempre a par com os tempos. É com Hi & Lois que começou uma parceria de grande sucesso: primeiro entre Mort Walker (textos) e Dik Browne (desenho), depois com os filhos de ambos. Dik Browne posteriormente criaria o famosíssimo Hagar o Horrível, que é, desde a morte de Dik em 1989, continuada pelo seu filho, Chris Browne. A série Hi & Lois é agora criada por Brian Walker, Greg Walker e Chance Browne.
Outra série de algum sucesso (pouco conhecida entre nós, excepção feita ao Brasil que a viu publicada pela Abril) foi “Boner’s Arc”. Contava as desventuras de um capitão de uma arca de Noé que era muito pouco respeitado pela bicharada e pela sua própria mulher (o que era recíproco, por sinal). Fica aqui o cross-over da série com o Beetle Bailey. Mort assinava esta série com o seu primeiro nome, Addison, devido ao facto de o King Features Sindycate ter achado que já assinava demasiadas tiras com o seu usual pseudónimo.
Entre os seus trabalhos mais apreciados pelos próprios cartunistas e todos aqueles que se querem iniciar na arte são as obras “Backstage at the Strips” e “The Lexicon of Comicana”. A primeira reflecte um olhar pessoal do autor pelos bastidores da criação de comic-strips e a segunda faz um apanhado de todos os termos criados pelo Mort e que devem ser usados na elaboração de uma comic-strip.
No inicio da década de 60, em conversa com o seu amigo Dik Browne, surgiu-lhe a dúvida existencial da razão pela qual os cartunistas não terem o respeito merecido pelo seu trabalho. Dik disse-lhe que era por não terem um Museu onde pudessem exibir os seus trabalhos. Walker que era dono de uma fabulosa colecção sobre o tema decidiu criar um. Depois de várias localizações, a última em Boca Raton na Florida, encontra-se agora fundido com a Universidade do Ohio e está localizado em Columbus. Vejam os links: http://drawn.ca/2008/07/17/mort-walkers/ e http://www.cartoon.org/. A imagem é a da Hall of Fame do Museu e tem o nome do famoso mediashark William Randolph Hearst. A título de curiosidade, o magnata fazia questão de ser ele a aprovar todas as tiras que eram publicadas nos seus jornais, a tira do Beetle Bailey foi a última que pessoalmente aprovou.
Outras situações curiosas poderiam aqui ser descritas, mas como não quero me alongar mais deixo apenas mais duas:
Em 1952 ajudou um colega seu que não conseguia ver as suas tiras publicadas, o seu nome e personagens? Charles Schultz e os seus Peanuts!
O private Beetle Bailey só mostrou os olhos uma vez numa tira onde ainda era apenas o universitário calão (esta tira nunca foi publicada num Jornal, apenas é possível vê-la nas edições especiais sobre o personagem e seu autor; a imagem em baixo foi retirada do livro da L&PM "O Melhor do Recruta Zero Vol.1"); na revista MAD de Abril de 1969 tiraram-lhe o chapéu e lia-se na testa “Get out of Vietnam”. Personagens como Hi & Lois Flagstone (com Dik Browne), Sam & Silo (em co-autoria com Jerry Dumas), Sgt. Orville P. Snorkel, Otto, Plato, Zero, Gen. Halftrack, Martha Halftrack, Miss Buxley, Miss Blip, Bunny, Killer, Cookie, Lt. Sonny Fuzz, Rocky, Cosmo, Cpt. Sam Scabard, Major Greenbrass, Lt. Jack Flap, Julios, Dr. Bonkus, assim como as suas participações filantrópicas nas mais variadíssimas lutas contra os mais variados flagelos, farão sempre parte do nosso colectivo. Actualmente a tira é trazida até nós por um dos nove filhos do Mort, Greg Walker, no entanto todo o trabalho do estúdio ainda é supervisionado pelo Mort.
Para quem quiser ler mais, aconselho que adquiram o maravilhoso livro biográfico do Mort Walker: “Mort Walker’s Private Scrapbook”. As comic-strips do Beetle Bailey são normalmente reeditadas todos os dois anos, brevemente sairá uma com os primeiros anos do personagem em hardcover e poderá ser adquirida na Amazon.com; também será possível adquirir no eBay a série limitada editada pela Dark Horse com quatro títulos disponíveis (Miss Buxley, Gen. Amos T. Halftrack, Beetle Bailey e Sgt. Snorkel), cada um traz uma figura de vinil (não confundir com as valiosíssimas Syrocos – ver imagem das reedições Syroco elaboradas pela YOE!Studio). Outras como a Boner’s Arc serão muito mais difíceis de encontrar, tentem o mercadolivre.br. A “Hi & Lois Sunday Pages” também se podem encontrar na Amazon. Vejam o link: http://www.mortwalker.com/ para mais informações.

Com a máxima do inesquecível Beetle Bailey me despeço,

“Never let to tomorrow what you can do the day after.”

terça-feira, 5 de agosto de 2008

HARVEY COMICS


Quem não se lembra dos gibis Brasileiros? Gibis publicados pela RGE, Vecchi, Cruzeiro S.A., Bloch Infanto Juvenil, Abril, Trieste, Cedibra, EBAL, Idéia Editorial. Saudosas editoras Brasileiras que nos traziam inúmeros títulos dos melhores clássicos Norte Americanos. Títulos os quais, alguns, já nós conhecíamos através de revistas muito Portuguesas, caso do Mandrake e do Fantasma, por exemplo. Mas desta vez o que me traz a este post são outros personagens que brilhavam nas páginas dos formatinhos Brasileiros e que fizeram as delícias da miudagem de outrora. Personagens como o Gasparzinho, o Brasinha, a Brotoeja e a Bolota, o gigante Miudinho serão concerteza nomes Portugueses (ou Brasileiros, se preferirem) que farão tocar algumas campainhas de uma memória já guardada num qualquer arquivo encefálico que pensávamos perdido. Para os mais novos, serão muito provavelmente nomes completamente desconhecidos, mesmo quando associados às imagens que ilustram este post.
Vou tentar puxar pela minha memória, com a ajuda do meu acervo de gibis e da maravilhosa Internet, para conseguirmos relembrar uma outra perspectiva dos Comics, muito bem amada pelos fans, Industria e, sejamos francos, pelos censores (esses malvados, pérfidos e asquerosos seres que afinal de conta se preocupam com as criancinhas). Refiro-me a tais criaturas porque existe um personagem, Little Lotta (Bolota), que foi considerado o pior exemplo que uma menina poderia dar; no entanto a simpatia aliada à bondade e o apetite que todas as mães gostariam que os filhos tivessem, foi forte dissuasor da respectiva censura e erradicação da redonda e super forte menina; também o Hot Stuff (Brasinha), por ser um diabinho, foi sujeito a alguma preocupação por parte dos censores, no entanto acabou por escapar quase que incólume.
Nasce este post por eu ter começado a adquirir as compilações da Dark Horse da Marge’s Little Lulu (1935; publicada pela Abril nos anos 70 e já antes na editora "O Cruzeiro" nos anos 50 aos 70 – Luluzinha, Bolinha França, Juca, Zeca, Careca, Aninhas, Alvinho, Plínio, Glória e outros). Irei fazer um post dedicado apenas a Marjorie Henderson Buell e seus famosos personagens muito brevemente. O prazer que eu tive em relembrar as leituras da minha infância – que não eram exclusivas da Walt Disney – fez-me lembrar de outras também muito apreciadas. Sorte das sortes! Coincidiu esta releitura com o lançamento das compilações dos principais personagens da Harvey Comics, efectuadas pelo Leslie Cabarga (Autor, Ilustrador e Designer) e pelo Jerry Beck (Historiador especialista em cinema de animação). Qual foi a minha agradável surpresa quando entrei na BDMania, para levantar mais um número da Little Lulu, e encontrei o número um dessas compilações: “Casper, the Friendly Ghost”! Já com mais dois volumes publicados (“Richie Rich” e “Hot Stuff”), outro prestes a sair (“Baby Huey”) e um quinto já na calha (“Little Dot, Little Lotta and Little Audrey”). São um sucesso de vendas e espera-se que venham a ter muitos mais números publicados.
As aventuras eram dedicados às crianças, pese o facto de alguns dos seus personagens serem tradicionalmente figuras que assustariam qualquer criança: diabos, fantasmas, feiticeiras, gigantes. Apesar de dedicados à criançada, os adultos também se rendiam, afinal quem não era o adulto que sonhava em ter a fortuna de um Richie Rich?! Qual não era o adulto que se desmanchava a rir com as desventuras do Sad Sack (Recruta Biruta – Abril)? Este último foi considerado uma cópia mal atingida do famosíssimo Beetle Bailey (Recruta Zero), criação do imortal Mort Walker; no entanto, criado por George Baker, Sad Sack (1941) é anterior a Beetle Bailey (1950). Este mal entendido dever-se-á à chegada do Recruta Biruta à língua Portuguesa quase que simultâneamente com o Recruta Zero. As histórias da Harvey Classics eram aparentemente simples, mas na verdade abrangiam a cultura clássica e eram cuidadosamente exemplares na transmissão do certo e do errado, assim dotadas de uma moral facilmente depreendida pelo público-alvo. Frize-se que esta editora foi, também, contemporânea da geração “Baby-Boom”.
A Harvey Comics começou, muito antes de aparecerem os personagens já referidos e que caracterizaram o estilo “Harvey”. Iniciaram-se como as outras grandes editoras de comics, isto é, com super-heróis. Personagens como o “Captain Freedom”, herói da Golden Age of Comics, criado por um até hoje desconhecido autor que assinava com o pseudónimo “Franklin Flagg”. “Spirit of 76” é outro herói que merece destaque: criado por Gary Blakey e Bob Powell, foi figura de proa no comic “Green Hornet”, tendo no entanto debutado na “Pockett Comic” #1 (1941), comic que lançou a Harvey. Este personagem foi mais tarde recriado pela dupla Roy Thomas e Frank Robbins na Marvel; chegou a ser desenhado pelo inesquecível Jack Kirby. Também o “Captain 3-D” merece destaque por ser uma das primeiras revistas em 3-D, vendida com os óculos bicolores (foi, também, mais tarde readaptado pelo Roy Thomas). Outro que foi um marco é o herói “Fighting American”: este herói, contra todas as habituais prácticas na Industria dos Comics, era propriedade dos seus autores, Joe Simon e Jack Kirby; foi publicado pela Crestwood Publications/Prize Comics, depois pela Harvey Comics e finalmente pela Marvel; embora tenha parecenças gritantes com o “Captain America”, os seus criadores afirmaram que não foi influenciado por este, apenas era produto da época. Apesar de se terem iniciado com os super-heróis, a Editora não conseguiu ter em carteira heróis suficientemente populares para os manter, o que , malogradamente no final lhes foi fatal.
Não querendo fazer mais um mega post, vou apenas aconselhar-vos a adquirirem um destes magníficos livros. Irão apaixonar-se, mais uma vez, pelos simpáticos personagens que saíram do génio de autores/artistas como Warren Kremer, Howard Post, Seymor Reit, Joe Oriolo, Vic Herman e outros, todos eles sob a alçada dos irmãos Leon, Robert e (especialmente) Alfred Harvey os quais, em1941, decidiram lançar-se no Mundo dos Comics com a sua própria chancela; primeiro o Alfred, que comprou a Brookwood Publications, ao qual se juntaram logo depois os seus dois irmãos. Até ao seu declínio foi uma referência no universo dos Funny Books. Ainda hoje arrasta um enorme número de fans e outros saudosistas, que, embora não sejam leitores habituais de comics, sempre que sai uma compilação, compram.
Não só nos Comics esteve a Harvey presente. Também na animação deram grandes passos com o seu estúdio (Harvey Films) e os seus Harvey Toons. Começaram em 1951, após licenciarem famosos personagens de outros estúdios (MGM; Hanna-Barbera). Tal foi o sucesso que mais tarde optaram por adquirir os direitos dos personagens (Baby Huey; Casper, etc.). Sucesso que durou até 1979 e que hoje é recordado por muitos que gostariam de os ver voltar, eu incluído.
Deverão ficar na nossa memória e regularmente revisitados, pois são um agradável “clister-mental” (eu sei que a analogia pode não ser a melhor, mas é sem dúvida isso: ajuda a esvaziar a mente do quotidiano pesado, enquanto se lêem).

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

THE GOON

Desta vez venho com um dos personagens mais estranho e ao mesmo tempo divertido que eu tenho lido nos últimos tempos – abro este à parte para também sugerir o Hellboy Júnior do Bill Wray, com sólidas e “kinky” referências aos Harvey Comics; fiz este à parte pelo Goon já se ter cruzado com o Hellboy numa das aventuras do primeiro. O Goon é um brutamontes que insiste em dizer ser o homem-forte de um mafioso que dá pelo nome Lebrazio. De facto, o Goon é que é o chefe das operações que pertenciam ao mafioso; este foi morto pelo próprio Goon em vingança pelo assassínio da sua tia, que criou o herói desde criança. Uma curiosidade é que a boina que caracteriza o Goon pertencia ao Lebrazio. Acompanha o brutamontes o seu inseparável companheiro Franky, dono de um humor negro e inteligência que muitas vezes ensombra o herói; este personagem é desenhado sem pupilas, ao estilo da famosíssima Little Orphan Annie (Harold Gray. 1894-1968) . Embora não tenha uma cronologia adaptada à realidade, a cenografia e o guarda-roupa é típico dos anos 20/30 do século XX. As aventuras incluem zombies, lobisomens, génios do mal, monstros ao estilo Kaiju no género Tokusatsu (Godzilla e companhia, para os leigos).

O seu criador, Eric Powell, é um Norte-Americano nascido em Lebanon, Tennessee. Com já alguns créditos firmados na Industria dos comics, anteriores a esta sua criação, embora discretos. A primeira editora do The Goon foi a modesta Avatar Press (1999 – 3 números publicados). No entanto, o autor decidiu lançar-se a solo na edição da sua série e fê-lo sob a chancela da Albatross Exploding Funny Books (2002) à força do seu abandono da Avatar (devido à fraca qualidade dos comics) e de não ter encontrado alguém que publicasse a sua série. Depressa se fez notar e ainda com poucos números publicados o autor/artista foi rapidamente convidado a assinar com a Dark Horse (2003), os quais confessaram-se embaraçados por terem deixado escapar esta série por tanto tempo. O convite foi prontamente aceite. A Dark Horse apostou muito bem neste autor e no seu emergente personagem, pois em 2004 ganhou o primeiro de alguns prémios Eisner. Com este reconhecimento foi já convidado para artista numa edição na lendária e “matusalaica” Action Comics, onde brilhou com o personagem “Bizarro”. Também é interveniente, como entrevistado, no documentário “Independent” (documentário “indie” sobre o processo e espírito criativo nos Comics), recentemente visionada na terminada San Diego Comic Con.

De referir – embora não seja uma história nua e crua do The Goon – é o one-shot absolutamente negro e extremamente gráfico “Satans Sodomy Baby” (Dark Horse), que foi vendido dentro de um saco de plástico protector e com aviso bem ao estilo do humor da série The Goon quanto ao conteúdo expectável (cliquem na foto à esquerda para lerem a mensagem). Como era de esperar nos Estados Unidos da América do Norte, esteve envolto em grande polémica, sujeito a boicote por parte dos conservadores do costume…sim esse tipos que para os quais o sexo (embora neste comic seja bastante devasso, confesso e não professo) é altamente reprovável, ainda mais quando envolve o demo. A figura de proa desse protesto foi uma beata, de seu nome Margaret Snodgrass, residente no Alabama, que conseguiu fazer vingar o seu protesto ao ameaçar com a “eterna condenação ao Inferno” quem o vendesse nos seus escaparates. Houve realmente quem não tivesse colocado o comic nas prateleiras, tendo até ido mais longe e deixado de vender a série. Por tal, foi o número vendido com o título”Satans $@#%* Baby”, dentro de um saco de plástico e com o aviso para o seu conteúdo, tendo ficado remetida a capa e o título original para o seu interior; foram também publicadas as cartas dos fans que foram solidários com o one-shot, seu autor e editor.

O autor explica que esta sua criação é puramente ficcional, isto é, ao contrário de muitos outros personagens dos Comics que se inserem e transpõem na e para a realidade, o Goon é ficção absoluta e exclusiva dos Comics (ou dos Funny Books, se preferirem). Isto pode-se ver bem em dois dos números do Goon: o primeiro num número em que o Hellboy (personagem dos comics que se insere na realidade) se transporta através de um comic book do The Goon; o segundo número, onde um miúdo encontra e lê um Comic Book do The Goon.
Para além dos comics e respectivos TPBs, foram já publicados os hardcovers edições especiais autografados pelo autor e apelidados de “Fancy Pants” (dois volumes), as excelentes Graphic Novels “Chinatown”, “Noir” e “Wicked Inclinations”.
David Fincher (o mesmo de Fight Club e Se7en) recentemente optou pelo personagem no seguimento de um acordo com a Dark Horse para a realização de uma longa metragem de um dos títulos da editora; poderemos então esperar a adaptação para breve. Será em CGI, pelo que com optimismo antecipo uma boa adaptação.
Divertido, em suma, mas um exercício de grande qualidade de comics ao estilo Funny Books puro e duro e sem papas na língua.

terça-feira, 22 de julho de 2008

SAN DIEGO COMIC CON


COMEÇA HOJE! e eu não vou lá estar...Não é um post, apenas um "lembrete" para os poucos mas bons que lá me vão fazendo o favorzinho de acompanhar este blog. Mesmo estando eu de férias, não quero deixar escapar o momento para publicitar o maior e mais expectacular evento sobre Comics no Mundo, a Convenção Anual de Comics de San Diego, California. Começa hoje, com uma noite especial para visitantes previamente registados e durará até ao dia 27 deste Mês. Quem lá intencionar ir (agora já é tarde) poderá contar em perder (completamente) a cabeça e se não levar uma carteira recheada, acabará por voltar para casa a pensar que deveria não ter pago a conta da luz nos passados quatro meses e que comer não teria sido preciso por período igual de tempo. Também é obrigatório ler bem o extenso programa para levar aquele Comic que gostariam mesmo de ver assinado ou/e com um "costumized" sketch, isto para não falar da enorme possibilidade de trazer "original art" a tuta-e-meia, ou mesmo a custo zero. Em termos dimensionais será dificil descrever o espaço...estão a ver a Amadora? Pois...não tem nada a ver! Igual ou mesmo maior, talvez só mesmo em Angoulême (e eu não saberia, pois nunca lá estive; apenas pelos relatos de outros).
Bem...vão até ao fim deste blog e têm lá o link para a SDCC e respectivos high-lighted events. Ponham o babete.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

DMZ

A DMZ é, em linguagem de segurança de informação e também informática, a sigla para “zona desmilitarizada” (no original: DeMilitarized Zone). Resumidamente, a DMZ – também apelidada de “Rede de Perímetro” – é uma pequena zona/rede que se encontra entre uma zona/rede segura e outra que não o é (Ex: Rede local e Internet na informática; território controlado e território inimigo na linguagem de segurança de informação). A função de uma DMZ é manter um espaço de contenção e manobra que limita e delimita potenciais danos provocados por um qualquer comportamento agressivo por parte de um potencial invasor. Também é conhecida por "terra de ninguém".

DMZ é também uma excelente série de comics da responsabilidade do autor independente Brian Wood (na foto) e do artista Riccardo Burchielli (não consegui arranjar foto). O primeiro, Norte-Americano, é já, de certo modo, um veterano de créditos firmados como “criador” de comic series independentes (ex. “Local”), também ilustrador e artista em várias séries de muito sucesso; O segundo é Italiano e estreia-se nos EUA com esta série, no entanto já com algum trabalho feito na Europa (ver http://ricxx.blogspot.com/). Neste momento já estão disponíveis 4 TPBs da série e brevemente o quinto também estará disponível. O autor espera que a série consiga atingir os 60 números.

A história decorre em Nova York num hipotético futuro próximo. As tensões provocadas pela constante e crescente ingerência do executivo Norte-Americano nos assuntos de outros países, e por conseguinte ter menos do orçamento de estado para investir no próprio país, eclodirão numa insatisfação quase que generalizada na população. O facto de estarem presentes em vários palcos de guerra viva, os EUA desprotegeram-se internamente ao terem reduzido drasticamente o número de efectivos da Guarda Nacional. Este facto criou oportunidades às milícias patrióticas da zona centro dos EUA a ganharem força politica e com isto conseguirem arrastar consigo as populações dos estados adjacentes e mais moderados numa revolta. Estes acontecimentos precipitaram-se num conflito grave que degenerou numa segunda guerra civil americana. A série, à medida que vai decorrendo, irá explicar estas nuances políticas, descrevendo também as movimentações bélicas de ambos os exércitos envolvidos (por vezes com inconsistência, típico da desinformação existente num palco de guerra). Tudo isto culminará num impasse, onde ambas as forças antagonistas já não conseguem se sobrepor. Divididas pela ilha de Manhattan, as duas forças aguardam um respectivo desenlace favorável. Manhattan é a DMZ.

Em Manhattan apenas ficaram os pobres, os vagabundos e os remediados que não tinham possibilidades para onde ir; de uma população de 1,5 milhões ficaram 400.000. O autor assume paralelismos aos acontecimentos vividos pela população da cidade de New Orleans após o furacão Katrina, dos acontecimentos vividos pelas tropas sitiadas no Iraque em Fallujah e no filme do John Carpenter “Escape from New York”.
O protagonista é um jovem fotógrafo estagiário, Matthew Roth, que, vitima das circunstancias, vê-se preso na DMZ após a equipa que acompanhava ter sido massacrada por snipers. Embora inexperiente como profissional e ingénuo por ser ainda jovem, torna-se de facto no único jornalista dentro da DMZ e começa a reportar o quotidiano duro e arriscado dos remanescentes habitantes de Manhattan acompanhado por um deles, Zee Hernandez, uma jovem estudante de medicina.