quarta-feira, 22 de outubro de 2008

SPEED RACER, GO, GO, GO!

Speed Racer! Vi ontem o filme dos irmãos Wachovski e fiquei banzado. Estes irmãos conseguiram, mais uma vez, espantar-me com mais uma grande produção de efeitos visuais vertiginosos e estonteantes (literalmente), também marcadas por uma beleza cénica , um tanto ou quanto kitch (é certo), pouco vulgar, mas bastante vincada e que me agradou imenso. Se forem eventualmente susceptíveis àquelas hipnóticas imagens dos jogos, o melhor é não verem, senão arriscam-se a um ataque epiléptico. É um filme de acção; espirituoso pelas interpretações do “irmãozinho” mais novo do Speed Racer e seu chimpanzé maravilha; repleto de vilões extremamente bem caracterizados; com uma história muito bem escalonada e coerente; com interpretações a um muito bom nível; fantásticos bólides com OH! SO NERDY e detalhadas especificações técnicas de cada um; muitas corridas completamente, absolutamente, fabulosas e arrepiantes. Como podem ver, adorei. O mesmo não posso dizer do resto do Mundo, pois o filme foi um enorme flop de bilheteira: custou mais de 120 milhões de Dólares e rendeu cerca de 90 milhões!

Mas este é um blog sobre BD, Comics e afins, por isso poderão (alguns) estar-se a perguntar: E então, o que é que isto tem a ver?! Bem, tudo. Este personagem (Speed Racer) nasceu como uma Manga, em 1966, onde originalmente o personagem dá pelo nome de Mifuno. A Manga (estilo Shuisha Shonen, em formato tankobon) chamava-se Mach GOGOGO (マッハGoGoGo, Mahha GōGōGō?) e foi criada por Tatsuo Yoshida. Em 1967 foi adaptada para Anime pelas Produções Tatsunoko pela mão do mesmo Tatsuo. Chegou ao Ocidente (Inglaterra) e foi traduzido para Inglês como “Speed Racer, Mach GoGoGo”. Mais tarde, os Norte-Americanos adquiriram os direitos.

As aventuras rodam à volta de um jovem que é apaixonado por corridas e que corre o Mundo dedicando-se à sua paixão. Cada história traz um enredo novo, de mistério e acção, onde toda a família do jovem herói o acompanha, desempenhando papéis relevantes. O outro grande herói destas aventuras é o fantástico e ainda hoje muito actual (futurista mesmo) Mach 5, o carro de corrida desenvolvido pelo Pai (Pops) do Speed Racer. Mach 5 no Ocidente, porque “Go” é a palavra Japonesa para “5”, daí “Mach Go” e depois de traduzido para o Inglês, “Mach 5”. As corridas são marcantes por não terem barreiras nem limites de lealdade e onde os bólides são capazes das mais incríveis acrobacias

Eu conheci este personagem através da Editora Abril, nos anos 70. Tenho alguns destes gibis, decidi ir à procura deles e mais uma vez deleitar-me com a sua leitura. Não foi uma decepção, mas também não me deleitei. O estilo demasiado juvenil já não me conseguiu de novo cativar.
Haveria muito para escrever sobre o Speed Racer, pois há uma legião de fãs que acompanha este herói desde a sua criação. Não vou aqui descarregar toda essa informação, pois não a acho assim tão interessante, vista ao pormenor. Ficam algumas imagens e o conselho de verem o filme. É um filme para toda a família, os miúdos vão adorar. O jogo também não teve as melhores críticas (falta-lhe a velocidade marcada pelo filme).

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

FABULOUS FURRY FREAK BROTHERS


Para além de ter estado de férias, sofri também de “bloqueio de escritor”. Andava às voltas na minha colecção para ver se conseguia estar à altura dos elogios de quem lá vai lendo este blog me tem feito (os quais e às quais, obviamente, agradeço). Conseguir arranjar ideias para aqui colocar banda desenhada ou comics que o pessoal eventualmente conheça pouco, ou não conheça mesmo, não é nada fácil. Daí ter passado os olhos por estes estarolas e ter logo sorrido. Não acredito que não conheçam estes “dop-heads”, nem que seja dos álbuns que a editora Brasileira, L&PM, nos trouxe.
Descobri estes “gandas malucos” nos idos anos 80, onde, segundo o meu perfil, eu era um doudo. É certo que já experimentei fumar charros…e inalei, pois está claro. Também poderão conhecer a substância por besego ou besegol, bobs, xamon, shit, ganza, karate combien, haxixe e eu sei lá mais o quê – aliás, lanço aqui um passatempo: digam nomes para os quais a substância estupefaciente poderá ser conhecida. Também fica a questão: quanto é que é uma dose individual de haxixe?!!! Sempre me perguntei quanto é que seria…meio-conto?! Um pintor?! Será à grama?! Também tem que ficar óbvio que não sou apologista que quem quer que seja experimente tal coisa. Sou hoje muito propenso a aconselhar exactamente que nunca experimentem tais coisas. Foi divertido? Houve vezes que sim; houve outras que não. Compensou o dinheiro e a perda de neurónios, para além de ter me ter arriscado a maleitas de difícil recuperação? Absolutamente NÃO. O mesmo direi e veementemente mais convicto de outras substâncias proibidas “mais pesadas”, embora não tenha experimentado, entre muitas outras, a mais odiosa de todas, a Heroína (vi o que ela fez a alguns dos meus mais próximos amigos para saber que não se olha para o cano de uma arma carregada e extremamente instável!). LSD, PCP, Mescalinas e companhias limitadas também foram por mim sempre banidas de qualquer experiência…sabe-se lá como cada um reage a tais cenas (tive um amigo que ainda hoje, 20 anos depois, não se reconhece ao espelho). A ganza também pode ter esse efeito. Parece mentira, mas é verdade. “Cada um é como cada qual”, diz o povo; também dizem “a mim isso não acontecerá”…pois…mais vale não arriscar, pois pode-se petiscar muitas outras coisas com um risco muito, mas muito mais ponderado. Bisonte Gordo falou.

Tendo feito o que me competia, passo agora aos janados que aqui me trouxeram (onde a Marijuana é rainha): os Fabulous Furry Freak Brothers e seu criador, Gilbert Shelton (e não Sheldon, como muitos o gostam de chamar).
O Gilbert é Texano e é rapazinho para 68 anos, e claro está, viveu o auge da década de 60 e 70, tendo mesmo sido amiguinho da Janis Joplin (pois…não me admira nada) e do Robert Crumb. Tendo jeito para o desenho e tendo, também, um espírito cáustico, não faltou muito para, sobre o efeito de algumas tristemente célebres drogas (ou na ressaca destas; fossem canabinóides psicotrópicos, fossem engenharias farmo-psicadélicas), ter criado a tripla mais mócada da história dos comics. Se os Três Stooges fumassem “charutos” e fossem um bocadinho mais inteligentes (tirando o caso do Fat Freddy) poderiam interpor um processo por plágio. Para além de ser o autor desta imbatível tripla, o Gilbert também é autor do “Fat Freddy’s Cat” (um spin-off da série), “Not Quiet Dead” e da série “Wonder Wart-Hog”. Também foi o artista da capa do álbum “Shakedown Street” (1978) dos Gratful Dead.
O Gilbert nunca foi, talvez surpreendentemente, um alvo preferido da censura Norte-Americana. A explicação prender-se-á pelo facto das suas publicações terem sempre sido muito undergroud. Mas despertou a ira do Joe Shuster (co-criador do Superman) pela criação do personagem “Wonder Wart-Hog”, o suíno de aço. Publicado em 1961 (antes dos FFFB - 1968), o personagem é um tímido repórter que se transforma num machista chauvinista, reaccionário e repressor, dono de um pénis minúsculo e de um apetite sexual neurótico nunca saciado. Pela obnóxia paródia à criação de Shuster, mereceu o descontentamento deste.

Os Freak Brothers apareceram em 1968 nas publicações undergound “Rip of Press”. Quando esta fechou, continuaram a ser publicados pela “Playboy” (não se vê só gajas nuas na Playboy; eu comprava-as pelas BDs que traziam, claro!), “High Times” e “Rip of Comix”; também eram depois editadas em formato comic. Shelton teve a colaboração dos grandes Paul Mavrides e Dave Sheridan (podem-se ver as histórias compiladas destes três fabulosos artistas nos números 6 e 7 da série). A última história dos Freak Brothers foi já há 16 anos. Têm 12 números (mais um número 0) em comics.

Os Freak Brothers são aparentemente uma leitura divertida e desligada. De facto, sempre se preocuparam em atacar a ala mais conservadora da política vigente. Debatendo-se por liberdades que o Estado restringe, foram sempre um bastião na luta pelas liberdades civis (principalmente as mais extravagantes).

Os personagens são do mais dispare que se possa imaginar:
Freewheelin’ Franklin é o espertalhaço, criado num orfanato sem nunca ter conhecido outra casa que não fosse a rua, vestindo-se à cowboy, até poderia ser um biker se não gastasse o guito todo na “tchouza”.

Phineas T. Freakers é o intelectual e o idealista do grupo; criador de novas drogas; activista político e ambiental; guedelhudo convicto. É o estereótipo do radical de extrema-esquerda no seu melhor. Por incrível que possa parecer, o Phineas é Texano (um dos mais conservadores estados do EUA) e apesar de ser filho de uma Mãe (hehehe) mais ou menos liberal, o seu Pai personifica o cúmulo do “conservadorismo”.

Fat Freddy Freekowtsi é que nem um penedo! Burro como uma porta! Consegue estragar o negócio mais fácil, e quando não estraga na altura, mais tarde compensa. Ávido consumidor de MJ (que, aliás, é o que todos eles mais consomem), tem um apetite à altura da sua janadice. Na ressaca, come mais do que um cavalo. Não há frigorifico que resista à desmesurada gula deste mentecapto acéfalo pelas drogas que já consumiu, embora digam que já antes de ter abraçado o vício já assim o era.

O “Fat Freddy’s Cat” não aparece, por hábito, nas aventuras dos mitras que aqui descrevo. Tem o seu lugar no rodapé dos comics ou em páginas só suas. Estão a ver o Garfield ou outros gatinhos mais cutchis? É que não tem nada a ver. É um velhaco que até dói à alma. Refere-se ao seu dono como “o obeso” (“the obese one”).

Dos outros personagens secundários destaco o inesquecível Norbert the Nark, o frustrado némesis dos Freak Brothers. Por si só um tratado.
É bastante fácil encontrar estes comics, mesmo em Português (no Brasil). Mesmo que nunca tenham fumado um joint na vida…e inalado…(e se não, não comecem agora sff), posso-vos garantir que gargalhadas são garantidas.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

BÉCASSINE, A MÃE DA "BANDE DESSINÉE"

Nariz de ervilha, carinha redonda, faces rosáceas, tamancos nos pés e guarda-chuva debaixo do braço, lá foi a ingénua e provinciana Bécassine viver, qual Cândido de Voltaire, as suas aventuras no Mundo. Objecto de estudos, como o do Historiador Bernard Lehambre em “Bécassine, une legende du siècle”, este personagem é de facto merecedor de tal, pois ela é a pioneira da mulher activa e moderna, que se multiplica em profissões, pratica desportos, faz fotografia, pilota automóveis, aviões, comboios e milita em programas humanitários como a Cruz-Vermelha (1ª Grande Guerra). Eu, embora seja um grande admirador do personagem, não sou o fã que é a bloguista Sheila Leirner, que assim a descreveu. Portanto não arranjei melhores palavras, daí ter descaradamente e praticamente transcrito as dela.

Bécassine é reconhecidamente a primeira heroína feminina protagonista na história da Banda-Desenhada. Criada quase que à pressa para, em 2 de Fevereiro de 1905, preencher uma página em branco de uma revista que tinha como alvo as moçoilas do início do século XX, “La Semaine de Suzette”, tornou-se num fenómeno de sucesso, pelo que essa página passou a ser obrigatória no semanário. Só em 1913 é que Bécassine teve direito a ser publicada em formato de álbum. Até 1939 foram publicados 25 álbuns, tendo em 1992 sido lançado o vigésimo sexto álbum que não foi publicado anteriormente devido ao início da Segunda Guerra Mundial. Em 1959 reiniciou-se a série, com outros autores (o primeiro escrito por Camille François e desenhado por Trubert; os outros dois escritos e desenhados por Trubert). No entanto, as aventuras vividas pela Bécassine na primeira série (que para além dos 25 álbuns ainda contou com mais dois álbuns “fora da série”) ainda hoje são reeditadas. Teve também direito a adaptação cinematográfica em 1939 e a uma longa-metragem de animação em 2001.

Os seus criadores foram inicialmente Jacqueline Rivière (escritora) e Joseph Porphyre Pinchon (desenhador). A partir de 1913, com a evolução para histórias mais estruturadas, a escrita passou a estar ao cargo de Caumery – pseudónimo de Maurice Languereau – um dos associados da Gautier-Languereau, editora responsável pela edição do semanário “La Semaine de Suzette”. Nessa altura foi revelado o nome do personagem: Annaïk Labornez. Todos os álbuns da série foram desenhados pelo talentoso Pichon, com excepção de dois: “Bécassine Chez les Alliés” (número três, de 1917) e “Bécassine Mobilisée” (número 4, de 1918) que foram desenhados por Edouard Zier. Caumery morre em 1941, mas o seu pseudónimo continuará a ser utilizado por outros escritores. Pinchon morre em 1953 e em 1959 Trubert retoma a série; apesar de talentoso, não logrou desenhar mais do que três álbuns.

Bécassine é, indubitavelmente, a precursora da Banda Desenhada Franco-Belga moderna. Marca profundamente a passagem dos contos ilustrados para a verdadeira Banda Desenhada, ou arte sequencial. O seu estilo de desenho, com linhas vivas, modernas e redondas, definiu a chamada “ligne claire” da qual “As Aventuras de Tintin” são, 25 anos depois de Bécassine, o mais bem conseguido e atingido resultado final (Jacques Martin, Pierre Jacobs, Ted Bennoit, Daniel Torres, entre outros, também são exemplares em empregarem esse estilo).
Bécassine é uma jovem empregadinha Bretã, costumizada no traje tradicional e é desenhada sem boca (embora o traje seja mais associado ao habitantes da província Francesa do Norte, Picardy, ela é descrita como sendo da Finistère, Bretanha). Basicamente é um estereótipo da imagem pela qual os Bretões de então eram vistos (ou imaginados) pelos citadinos. Ela é a rapariguinha humilde e de tratos simples da província, vista pelos olhos dos citadinos mais refinados de Paris (publico alvo da “Semaine de Suzette”). Ao longo da série, fruto do sucesso do personagem, é cada vez mais e mais favoravelmente retratada.

Apenas possuo um álbum desta verdadeira heroína e mãe da Banda Desenhada, o quinto, “Bécassine en Apprentissage” (ed.1919); está em excelente estado de conservação e é uma das jóias na minha colecção. Tenho pena de não ter um scanner de grandes dimensões para poder partilhar com vocês a imagem deste e doutros álbuns de maiores dimensões. Está na minha lista de compras a fazer, para poder trazer uma nova rubrica a este blog: Jóias da minha colecção…se calhar parece um bocado pretensioso, mas garanto-vos que não, tenho lá jóias que são de latão, mas para mim valem como o ouro.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

NOCTURNALS Vol I: BLACK PLANET AND OTHER STORIES.

Não faz muito tempo foi lançada uma edição especial que provavelmente passou despercebida aos leitores habituais de comics do nosso burgo: NOCTURNALS Vol I: BLACK PLANET AND OTHER STORIES. Nocturnals é uma série de enorme qualidade trazida até nós por um dos mais talentosos “one man show” da Industria dos Comics: Daniel Brereton (à esquerda em auto retrato datado de 1989). Escritor, ilustrador, pintor. É um dos últimos e já muito raros artistas completos que subsiste inteiramente pelos comics. Debutou em 1989, acabadinho de sair da Escola de Artes, com a galardoada mini-série “Black Terror” (Eclipse Comics); desde então nunca mais parou. O seu curriculum é invejável e extenso.

O Dan cria, desenha e pinta os seus comics de forma a serem por si só uma obra de arte quase sem paralelo. Cada prancha é transposta para o formato comics com generosas dimensões, o pormenor é meticuloso. É uma mistura de estilos, que por si só, tinha tudo para não funcionar. Ele é pulp, horror, novela Lovecraftiana, western, mistério, crime e eu sei lá mais o quê! Uma plêiade de géneros concatenados numa história que absolutamente nos deixa de boca aberta e olhos arregalados. A cor, o movimento único, os personagens saídos do imaginário colectivo, capturados e depois libertados no aparente caos desta série é só e só incrível. É impossível não concordar que o que parecia impossível de funcionar, afinal funciona…e de que maneira!
Doc Horror e os seus improváveis muchachos são as vedetas desta série. Os personagens habitam a noite do mundo das histórias e existem indetectáveis enquanto as pessoas normais dormem. Neste mundo, os humanos regulares não são expostos ao fantástico. As histórias dão-se ao abrigo da escuridão, fora do alcance da percepção, onde elas de facto pertencem. O autor partilha que o assombrava desde criança tudo o que se passava de noite, fosse algo de tão natural como uma sirene ou um cão a ladrar ao longe. Daí a única excepção ser o elemento criminal que poderá transparecer para o “nosso” mundo, pelo receio da perda do controlo que o herói, Doc Horror, por vezes padece. Mesmo assim, a tenebrosa escuridão é misteriosa e assustadora, e os Nocturnals nestas histórias vivem no mundo deles enquanto nós vivemos no nosso.

Este título limitadíssimo a apenas 23 livros assinados, numerados, em hard leather cover, com a capa pintada à mão pelo autor, é uma das maiores “jóias” dos comics nos últimos anos. Para quem não teve a sorte de conseguir adquirir esta jóia, tem a oportunidade de o adquirir numa outra edição limitada a cerca de 3500 números, também em hardcover e por um muito simpático preço (cerca de $30.00 USD), trazida até nós pela Olympian Publishing. Existes mais duas edições especiais: uma limitada a cerca de 500 números e outra com 1000 números.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

DEUS DEBAIXO DA MÁQUINA

É a tradução ad litteram da expressão Latina “Deus ex machina”. Esta expressão, no entanto, surgiu na antiguidade clássica helénica, muito utilizada no teatro, referindo-se a um improvável, inesperado ou inverosímil objecto, personagem ou situação repentinamente introduzido na tragédia e ou na comédia para deslindar um complicado e já difícil enredo. Foi de facto uma forma um tanto ou quanto fácil, mas ao mesmo tempo inteligente – por acudir aos menos atentos, ou aos menos mentalmente afortunados – de magnanimamente terminar e explicar a peça. Basicamente, no teatro Grego, este dispositivo consistia, no final de cada uma das peças, em fazer baixar um qualquer Deus (normalmente seria o mais adequado à exigência da situação) através de um guindaste até ao palco, onde por sua vez começaria a explicar e a deslindar a trama.
A expressão ainda hoje é utilizada, mas para indicar um qualquer desenvolvimento de uma qualquer história que não leva em consideração a sua desejada lógica e se torna, ou apenas é, tão inverosímil que permite ao autor terminá-la com uma situação improvável porém mais conciliadora. Deus ex machina também pode descrever alguém ou alguma coisa que aparece e resolve uma dificuldade aparentemente insolúvel; poderiam alguns considerar que figuras de proa na utilização deste dispositivo seriam os escritores Agatha Christie e Sir Arthur Conan Doyle, por exemplo, mas realmente não se enquadram, pois fundamentam motivos ao longo de toda a história preparando a apoteose de forma consolidada. Hoje em dia será muito pouco recomendável recorrer a este artifício, por ser demasiado “preguiçoso” e talvez demonstrar incapacidade da parte de quem escandalosamente o utilizar.
Deus ex machina também se caracteriza pela aplicação de uma revelação, dentro de uma história vivida por um personagem, que envolva realizações pessoais complicadas e ou perigosas e ou mundanas e, eventualmente, na sequência de eventos aparentemente não relacionados que acabam por conduzir ao ponto fulcral da trama principal (isto é muito observado na série Lost, através do que se conhece também como flash-back).
Deus ex machina não é exclusivo da ficção. Na vida real, os “heróis” estarão muitas vezes abrangidos pelo conceito, por razões já supra mencionadas.

Entendendo a expressão será provavelmente mais fácil ir de encontro à ideia do não muito original autor. Os conceitos que este autor recria são já muito batidos: o último homem à face de uma terra apenas povoada por mulheres; a guerra por um ponto de vista que não a dos homens; a politica e o providencial e inverosímil super-homem que a mantém limpa, ou menos suja; ou o mais misterioso, aparentemente desconexo ambiente, carregado de inverosímeis situações, personagens e objectos. Mas é na recriação destes conceitos que Brian Keller Vaughan acaba por ser brilhante, um mágico, segundo Brad Meltzer (consultor do FBI, da CIA e do DHS; co-criador de TV; premiado escritor de ficção e comics – "Identity Crisis"). Os seus textos absorvem-nos para a trama, pelos seus textos detalhados, inteligentes, por vezes apenas insinuantes, cheios de corpo, umas vezes acutilantes, outras, um marasmo de dúvidas. Não é realmente à toa que se tornou numa referência da escrita dos Comics e mais recentemente da televisão. Nos Comics colecciona sucessivas nomeações para os mais creditados prémios da Industria, tendo já arrebatado alguns. Títulos como "Y – The Last Man" (prémio Eisner best series 2008), "Ex Machina", "Runaways", "Ultimate X-Men"; “Pride of Bagdad”; e a sua estreita colaboração na escrita dos argumentos da arrebatadora série campeã de audiências “Lost”, fazem dele um dos Homens da actualidade. Vaughan já passou pelas principais editoras e já deixou o seu timbre em imensas e improváveis (pensaríamos nós) séries e personagens; desde a sua estreia com o "Cable" até "Ka-Zar", passando por um “What if?”, também no "Batman" e "JLA", até à "Buffy, the Vampire Slayer", entre muitos outros.

EX MACHINA é que me traz aqui. Já há muito tempo que andava intrigado pela série, quando soube do lançamento da edição especial em hardcover (ou cartonado, se preferirem) que compila os primeiros 11 números, decidi esperar. Longa foi a espera, mas acabou por compensar, pois a edição tem acabamentos muito cuidados e de extrema qualidade. No entanto é muito fraquinha quanto a extras; para quem gosta destes, nesta edição apenas terá a proposta original do autor para esta série, com alguns desenhos e estudos de personagens.
A história, para quem (como eu até há pouco tempo) desconhece (ia), passa-se no período consequente à tragédia do 9/11 e debruça-se no personagem Mitchel Hundred, o novo e independente Mayor de Nova York. Vaughan começa esta série não pelo princípio. Nós somos apresentados ao personagem principal pelo próprio, e já no fim do enredo. Segundo Brad Meltzer, na introdução, EX MACHINA começa com uma confissão – provavelmente uma desculpa – do terrível desastre causado pelo próprio Mitchel Hundred em 2005. Não começa como um Super-Homem, a sorrir e a salvar o mundo envolto na bandeira. Antes, ele lamenta-se tal Rei Lear, contando-nos secamente que “it may looks like a comic, but it’s really a tragedy.” Logo nesta primeira página, o autor, dá-nos logo o fim. Faz-nos uma promessa. Ele diz-nos – promete-nos – que se tivermos dispostos a ouvir, esta vai ser uma das mais devastadoras, horríveis, tragédias que alguma vez o olho Humano testemunhou. Ele garante-nos que o personagem por quem nós vibramos irá miseravelmente falhar. Irá ser uma carnificina. Este é o desafio: será que conseguiremos afastar o nosso olhar?! Afastar o nosso olhar da complexidade do ego do Mitchel Hundred; das nuances dos personagens que também habitam a história, como Kremlin, Bradbury, Mom, Zeller, e os outros? Não há dúvidas que esta é uma história de política. Não apenas politica, mas ciência politica no seu todo, institucional, do aparelho e seus constituintes, suas batalhas sobre as próprias condições e fraquezas. Também é a história de um “super-herói”, o primeiro do Mundo, “The Great Machine”.

Como qualquer leitor de comics (em especial) sabe, tudo descambaria num redondo falhanço se a arte que acompanha qualquer argumento – por mais brilhante ou genial que este possa ser – não estivesse à altura. A esta série, Tony Harris dá-lhe vida. Vida a sério. Tony Harris consegue captar tudo o que existe num ser humano e mesmo na cidade e resto do Mundo que o rodeia. A beleza, a fealdade, a juventude e a velhice são desenhadas sem meias medidas, apenas como as coisas e as pessoas são: imperfeitas, logo com autenticidade. Este artista de 39 anos, mas com cerca de 20 anos de experiência, já passou por todas as grandes casas da indústria dos comics desenhando séries e personagens bastante conhecidos de todos nós. Vencedor de dois prémios Eisner, um pela série STARMAN, outro por EX MACHINA, está agora a trabalhar para lançar uma série sua. Ficam aqui as imagens (fotografias) que serviram de modelo à criação dos personagens Bradbury, Kremlin e Mitchel.

Não menos importantes, embora raramente mencionados, são os responsáveis pela arte-final e pela coloração das obras. Portanto faço questão em mencioná-los aqui.
O responsável pela arte final desta série é o Tom Feister. Feister é já presença habitual na arte final de muitas séries de renome, caso dos Fantastic Four ou Iron Man, entre outras.
O responsável pelas cores é o JD Mettler. O JD também já tinha trabalhado para a Marvel e para a DC (anteriormente) e desde que chegou a esta série ganhou uma nomeação Eisner para melhor colorista e inúmeros convites (que tem aceite) para trabalhar com as maiores empresas nos mais famosos personagens até hoje criados.

EX MACHINA deluxe edition book one, assim como a série, são da responsabilidade da Wildstorm Productions, inprint da DC Comics, a Warner Bros. Entertainment Group.
É uma obra muito séria, mas o humor subtil também não falta. Para quem não gosta de política, talvez não seja a melhor escolha. Para quem gosta de se sentir desafiado a embrenhar-se num argumento complexo, então será muito generosamente recompensado. Em suma, leitores inteligentes precisam-se.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

LANÇAMENTOS BD DA ASA PARA SETEMBRO

Não acredito que tenha sido o único, mas fiquei bastante surpreendido quando fui à caixa de e-mail deste blog e vi que tinha recebido uma mensagem da ASA com a divulgação dos próximos lançamentos desta em BD. Não sou apologista de fazer publicidade (gratuita, isto é), pois todos os posts aqui colocados são de autores, artistas e livros que já li e, na esmagadora maioria, possuo. Mas como neste caso são de manifesto interesse geral, porque serão lançamentos para breve, vou aqui inclui-los.

Claro que não posso deixar de dizer que estou muito desapontado com a ASA. Se pensavam que ir-me-ia limitar a colocar os próximos lançamentos, pois temos pena! Quando me fez acreditar que o panorama da BD em Portugal iria sorrir para todos os bedéfilos, fez exactamente o contrário. Sinto em relação à ASA como alguém se sentiria se tivesse entregue confiança e esperança e acabou traído depois de lhe terem prometido mundos e fundos (mas não sou rancoroso - pelo menos, não muito - portanto ainda se podem redimir). Desde séries que foram adquiridas qual garganeiro que as açambarcou e em cima delas se sentou, a séries que ficaram na prateleira com desculpas muito pouco credíveis quanto a não serem digitalizadas e ser muito difícil encontrar quem trabalhe com fotolitos (sempre pensei que a ASA tivesse uma tipografia!), a edições de qualidade e interesse bedéfilo perfeitamente absurdas e finalmente a outras desculpas relacionadas com contratos pendentes para a publicação do titulo da série Valérian que faltou editar em Português (que estariam pendentes devido à falência da Meribérica…?!). Agora creio que se vão atrever e explorar novas áreas da BD – pelo que vejo – e acredito que não optaram pelos melhores títulos de Manga; mas não me posso pronunciar muito, pois não domino actualmente o imenso universo Manga, deixarei isso para os eventuais comentadores; ao mesmo tempo, espero estar enganado e que tenham muito sucesso, sinceramente. Dois títulos Shouju (para miudinhas) e um Shounen (para miúdos e muito jovens adolescentes). Não percebo como é que chegaram a esta fórmula! Será que fizeram um estudo sério ao mercado Português e suas preferências? Ou será que apenas pensaram que os miúdos vão todos a correr comprar estas mangas porque noutros países (alguns) são um fenómeno? Se se vendem Astérix, Lucky Luke e Marsupilami para os mais jovens é porque são os Pais destas que os compram e porque são uma coisa segura (os Pais já os leram e lembram-se que gostaram muito) que não requer muita imaginação de quem compra e fica relativamente em conta. Não sei se os Pais terão imaginação, ou vontade, para adquirirem mangas para os filhos e também para os filhos dos outros. Faltam Seinen e Josei, já para não falar em Hentai que apesar de mais escabroso teriam de certeza muitos adeptos. Talvez aqui tivessem mais sucesso imediato. Se estão a tentar “educar” uma nova geração, então boa-sorte.
Já agora, quero agradecer (sem qualquer tipo de ironia) a quem me enviou o e-mail, pois evidencia uma preocupação, por parte de quem o fez, em divulgar o trabalho da Editora: o site e respectivas news letters continuam a ser uma bela trapalhada. Um follow-up das séries que começaram a publicar e nunca mais tiveram continuação também era muito bem-vindo, ainda mais quando começam a publicar séries de longa duração (será que têm credibilidade para lhes vermos continuação?!).

Vejamos, então, os próximos lançamentos previstos para o Mês de Setembro, dos quais destaco, pessoalmente, o novo álbum do Miguelanxo Prado, autor que tem uma veia especial para captar mundaneidades e levá-las ao rubro do cúmulo e absurdo (este autor tem, para mim, um dos melhores trabalhos que eu até hoje li: Fragmentos da Enciclopédia Délfica).


WARCRAFT 1 TRILOGIA DO POÇO DO SOL
Warcraft, a Trilogia do Poço do Sol, relata as aventuras de kalec, um dragão azul que assumiu a forma humana para investigar um poder misterioso, e de Anveena, uma bela rapariga que guarda um segredo de encantamento…Recriando o mundo de Azeroth, trata-se de uma aventura inspirada no célebre jogo em que dragões, Orcs, Elfos e Mortos-vivos se enfrentam numa saga original e inédita.
Richard A. Knaak, Argumentista.Chicago 1961. Além do seu trabalho em Warcraft: A Trilogia do Poço do Sol e Ragnarok, Richard A. Knaak é autor de 27 romances fantásticos do NY Times e de mais de uma dúzia de contos, incluindo “The Legend of Huma” e “Night of Blood” para a Dragonlance, e The Demon Soul para Warcraft. Escreveu também a popular série Dragonrealm e várias obras independentes. O seu trabalho foi publicado em várias línguas e, recentemente, em russo, turco, búlgaro, chinês, checo, alemão e espanhol.
Kim Jae-Hwan, Desenhador. Jae-Hwan Kim nasceu na Coreia, em 1971. Os seus mais conhecidos trabalhos de Manga incluem Rainbow, Combat Metal HeMoSoo e King of Hell (cujo título, na Coreia, é Majeh), uma série que continua a ser publicada na TOKYOPOP. Actualmente, Jae-Hwan Kim vive e trabalha na Tailândia.
Autores: Richard A. Knaak e Kim Jae-Hwan
Colecção: Shounen
Páginas: 168
Preço: 7,50 Euros



DRAMACON 1
Quando Christie, uma escritora desconhecida assiste ao seu primeiro festival de anime, vê nisso a oportunidade de promover a Manga que tinha realizado com o seu namorado, desenhador. Mas quando inesperadamente se interessa por um misterioso cosplayer, a história complica-se. O que fazer quando nos apaixonamos por alguém que, em breve, estará a milhas de distância?! Svetlana Chmakova, dá-nos uma perspectiva pitoresca e romântica dos bastidores de um festival de anime – onde, por vezes, duas pessoas podem ser uma multidão!
Svetlana Chmakova nasceu e cresceu na Rússia. Mudou-se para o Canadá quando tinha 16 anos. Sem grande preocupação, frequentou o Sheridan College tendo, mesmo assim, obtido o diploma do curso de Animação Clássica de três anos (Sim, continua à espera de que eles descubram que cometeram um erro e que lho retirem). Actualmente, Svetlana é uma autora independente cujos trabalhos, na sua maioria, nada têm a ver com animação. Ela suspeita que isso se deva ao facto de agora a sua alma pertencer à BD. Svetlana desenhou livros de “como fazer Manga”, manuais de RPG, criou brinquedos, divertimentos, ilustrações e capas para livros. Actualmente, trabalha em dois comics online, do género da Manga: Chasing Rainbows e Night Silver, lançou recentemente na famosa Yen Plus a série Night School, que é do tipo Buffy the Vampire Slayer e Harry Potter, foi recebida com grande efusão por parte dos fans e adivinha-se como um enorme e continuado sucesso. Os passatempos favoritos são: dormir, ler mais BD do que é aconselhável para a carteira e lutar com o gato da família pela ocupação da cadeira. Para descobrir mais, por favor, visite o site: http://www.svetlania.com/.
Autora: Svetlana Chmakova
Colecção: Shoujo
Páginas: 184
Preço: 7,50 Euros



A PRINCESA E O PÊSSEGO
Amanda tem nove anos e é uma menina solitária que deseja desesperadamente um animal de estimação. Quando escolhe um furão e lhe chama Pêssego, Amanda consegue uma coisa que mais ninguém tem na escola! Há apenas duas regras: Amanda tem de cuidar da Pêssego e a Pêssego não pode morder-lhe nunca! Quando a pedante Pêssego vê a mão da Amanda – um monstro de cinco cabeças aos olhos de um minúsculo furão com complexo de princesa – morde para se defender! O que fará Amanda?
Autores: Lindsay Cibos e Jared Hodges
Colecção: Shoujo
Páginas: 160
Preço: 7,50 Euros




DE PROFUNDIS
Era uma vez uma casa no meio do Mar. A casa tinha uma torre voltada a poente, uma escadaria que se estendia pela água adentro e, a Levante, uma árvore que floria entre Março e Abril.
Nessa casa viviam, apaixonados, uma mulher que tocava violoncelo e um pintor fascinado pelo Mar e pelas suas criaturas, pelos segredos que as suas profundezas guardavam, pelos seres magníficos que na sua imaginação o povoavam e pelas margens das terras longínquas do outro lado do mundo às quais, se se descortinasse o rumo, as suas águas podiam conduzir.
Miguelanxo Prado Argumentista, Desenhador. Espanha, 1958.Estudou arquitectura e antes de se votar à BD dedicou-se à pintura e à escrita. Revelação da BD espanhola em 1988 com o seu primeiro álbum Mundo Cão, a sua carreira tem sido recheada de sucessos. Em 1993 publica o álbum Traço de Giz, que recebeu o prémio dos livreiros BD 93, o Alph-art do melhor álbum estrangeiro de Angoulême e o prémio especial do Festival de Sierre em 1994.Em 1995 estreia-se na BD infantil com a adaptação da célebre obra de Prokofiev (1936) “Pedro e o Lobo”.Da sua versátil carreira fazem parte outras obras notáveis como Fragmentos da Enciclopédia Délfica, Stratos, Crónicas Incongruentes, Quotidiano Delirante (3 volumes) e Tangências.
Autor: Miguelanxo Prado
Páginas: 96
Preço: 19 Euros