sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

BABY BLUES


Afastado deste blog há já dois meses, por motivos de força menor, confesso, decidi voltar à carga. Desta vez com mais uma série estilo “tirinhas”, ou mais adequadamente, “strip-comics”. Esta série é, muito provavelmente, a minha favorita. É certo que o humor é algo de muito pessoal, ainda mais sou Pai, o que é também algo que influenciará o ainda maior gosto pela série. Mas o facto é que me tornei um grande fã desta série muito antes de ser Pai, ou mesmo antes de termos decidido dar o passo para nos tornarmos pessoas diferentes (eu e a minha esposa, claro – ainda não cheguei ao ponto de me referir na terceira pessoa do plural). As “strip-comics” são por mim muito apreciadas; especialmente quando não me apetece ler algo que me faça pensar muito, ou que exija uma atenção aos pormenores quando estou cansado e me apeteça apenas descontrair e dar uma gargalhada ou apenas sorrir. São muitas e variadas as séries que se perfilam nas minhas prateleiras: “Calvin&Hobbes”; “Beetle Bailey”; “Hägar”; “Garfield”; “Mafalda”; “Peanuts”; “Hi&Lois”; “Boner’s Arc”; “Rose is Rose”; “Dilbert”; “Citizen Dog”; “Sherman’s Lagoon”; “Foxtrot”; “Zits”; várias Walt Disney; “Muts”; “Adam”; “Blondie”; “Dennis the menace”; “Family circus”; “The Katzenjammer Kids” ; “Mother Goose and Grim”; “Hot Fuzz”; “Pearls before swines”; “B.C.”; “Bartoon”; "Guarda Ricardo"; "Cão Traste" e, entre muitas mais, “Baby Blues”.
Baby Blues é uma famosa e amplamente apreciada strip-comic desde praticamente a sua criação em 1990. Foi criada pela dupla, já galardoada, Rick Kirkman e Jerry Scott (também co-criador da strip-comic “Zits”). Publicada na língua original – Inglês – em livro pela Andrews McMeel Publishing, nos jornais é “syndicated” pela King Features e em Portugal é editada pela Bizâncio, conta já com 24 “scratchbooks” (todos já em Português) publicados e oito “treasurys” (três em Português, sendo o último, em formato “scratchbook”, uma colecção das melhores tiras em que a escola é o assunto).
A série conta, em formato de tira, as peripécias quotidianas de uma família Norte-Americana em tempo quase real. Os criadores indicam que o rácio de tempo será de 3 para 1. Começou em 1990 com o nascimento da filha do casal MacPherson, Darryl e Wanda, seu crescimento e tudo o que advém de criar um filho. Para além de hilariante é, ao mesmo tempo, assustador. Comecei a ler estas tiras já a série ia no 18º livro editado em Português, por tal e dando o benefício da dúvida a quem me dizia que ir-me-ia divertir imenso a lê-las, decidi comprar o primeiro livro”treasury”. Nunca tinha por ela mostrado grande interesse, pese o facto de a ver há muito nas livrarias; o desenho não me agradava muito, à primeira vista, e pré concebi a série como sendo para mamãs e papás que gostavam de rever os seus rebentos numa qualquer série de formato tira cómica. A surpresa foi muita quando dei por mim a ler esse “treasury” (condensado das melhores tiras até então, com explicações e curiosidades contadas pelos autores) e a rir, por vezes à gargalhada. Antes eles que eu, pensava. Até que, mais tarde e já depois de ter lido a colecção quase toda, dei também por mim a perguntar-me: “será que é mesmo assim, ou isto está exagerado?!”. Esta pergunta surgia do então facto de ter recentemente casado e estarmos a pensar em ter filhos. Embora fosse uma série cómica, certos títulos e tiras, como por exemplo, “O Regresso dos Mortos de Sono”("Night of the Living Dad"), preocupavam-me e faziam-me perguntar se teria estofo para uma vida que até então tinha sido de um egoísmo estóico e, claro, de descanso absoluto. Os testemunhos dos fãs da série, expressos nesse “treasury”, eram assustadores…e isto é dizer pouco! A experiência de amigos pessoais, que tinham sido pais há pouco tempo, ainda era mais assustadora. Mas rematavam sempre com “ – …mas vale a pena, amigo. Não há nada melhor e não trocava esta experiência por nada, absolutamente nada, deste Mundo.”. Eu, não conhecendo outro Mundo senão este, e não havendo no panorama hipóteses de virmos a descobrir outro, pensei que estava realmente mais do que na hora para viver a (de facto maravilhosa) experiência que é “ter” e criar um filho. A minha esposa já tinha o seu relógio biológico acertado e lá fomos à aventura (e ainda bem, pois sem ela eu não o conseguiria “ter”).
Posso afirmar que após ter lido o “treasury”, e ainda durante aquela fase do “vamos-não-vamos”, fiquei viciado na série. Gastei uma pipa de massa a adquirir, em tempo recorde, os livros todos da série até então (18), pois lia-os a um ritmo frenético e sempre cheio de boa disposição (tirando aquelas fases introspectivamente assustadoras do “Uí! O que me espera!” e “Será que terei estofo?!”). A minha esposa tornou-se uma fã incondicional da série também.
Obviamente, não decidimos ter um filho por causa desta série, nem seria esta série que nos faria decidir o contrário, caso haja alguém a perguntar-se se eu seria cretino ao ponto de tal. Consigo ser cretino em muitas coisas e até com uma certa facilidade, mas nesta não fui.
A série acompanha o crescimento dos filhos do casal MacPherson, primeiro o da filha Zoe, dois anos depois o do filho Hammie e finalmente, 9 anos depois da Zoe, da filha mais nova, Wren.
Darryl MacPherson é o Pai trabalhador, formado em “letras” e empregado num escritório para onde tem que comutar todos os dias para poder providenciar para toda a família, que é uma família tradicional moradora nos subúrbios. É um Pai carinhoso, que não grita com os filhos e regra geral um tipo às direitas, segundo a sua filha Zoe. É também dono de um nariz incrivelmente grande, pelo que todo o seu prol dá graças a Deus por não terem saído ao seu lado da família.
Wanda Wizowki MacPherson é Mãe que teve que decidir em deixar de trabalhar para cuidar dos filhos, ou continuar a trabalhar para entregar todo o seu ordenado a quem o fizesse por ela. É a Mãe coragem de todos nós, que não tem um minuto para si e quando o tem é logo interrompido ao fim de 10 segundos. Também comuta, mas para levar os filhos à escola, às festas de aniversário, ao médico, ir às compras, etc. Dona de um sentido de humor muito peculiar e de uma paciência infinita. Aproveita as idas ao cinema (quando há orçamento para a ama) para dormir convenientemente.

Zoe Madison MacPherson, a primeira estrela da série, é uma faladora nata, tipo matraca, cheia de si e que acompanhamos desde os seus primeiros dias como gente. Ao longo da série vai crescendo, gatinhando, caminhando, aprendendo a falar, o primeiro dentinho e a ida para a pré-escola e escola. Tem actualmente 9 anos. É uma espertinha sem ser uma verdadeira peste, não é nenhuma Mafalda, nem nada que se pareça, é apenas uma criança como as outras. É uma queixinhas e tem a relação que qualquer irmã mais velha tem com o seu irmão mais novo. Negociadora nata à mesa do jantar.

Hamish MacPherson, assim chamado em memória do avô da Wanda, é alvo de algumas graçolas devido ao diminutivo pelo qual é chamado: Ham ou Hammie (Presuntinho). As suas primeiras palavras foram “Buldozer” (Buh-dozer) e “Bazuka”, para mal dos pecados da sua Mãe. Tem um conhecimento profundo de tudo o que é marcas e especificações técnicas de camiões de dezoito rodas. É um destemido. A sua Mãe diz: “É possível tirar a criança do perigo, mas é impossível tirar o perigo da criança”. Também é um queixinhas, claro. Adora infernizar a irmã mais velha, mas falta-lhe a experiência dos anos para levar a melhor. Tem actualmente 6 anos, mas também acompanhamos o crescimento desde o seu nascimento.

Wren MacPherson, a mais nova, tem actualmente um ano e ainda se encontra a descobrir o seu lugar na série. Sendo a última e não querendo os autores repetirem-se é mais modesta nos préstimos à série, que obrigatoriamente partilha com os manos mais velhos. É, no entanto, a esperança para novas e melhores tiras que escaparam aos autores aquando do crescimento dos outros dois petizes.

Depois ainda temos a panóplia de “artistas convidados”: a irmã da Wanda, Rhonda, uma jovem solteira e bem sucedida profissionalmente, mas que é inferiorizada pela sua Mãe por ainda não lhe ter dado netos. Os vizinhos Afro-Americanos, Yolanda e Mike, que também têm filhos que acompanham o crescimento dos do casal MacPherson. Os outros vizinhos, que gozam de um nível superior de vida, Bunny e Butch, onde a mulher, é um tanto ao quanto peculiar: perfeita de figura, embora Mãe de três, tem tempo para tudo e para mais alguma coisa e parece que tudo faz sem esforço, o que irrita as vizinhas, embora não se aperceba disso. Mãe de três: Bogart, o mais velho, e um casal de gémeos idênticos que vestem de igual e que se chamam Wendell John e Wendell Jon (!). O Bogart come pratos rebuscados de fusão e comida intercontinental, porque, segundo a Mãe, “ele é muito exigente”, mas quando é deixado na casa dos MacPherson come “Mac & Cheese” de pacote e pede a receita, com os olhos arregalados de prazer, para dar à sua Mãe.
Os Sogros, pois claro, que têm um catálogo de brinquedos irritantes e barulhentos.

Trent, o amigo terrível do Hammie, também é um figurão.

Sorrisos e gargalhadas garantidas. Para quem ainda não teve a sorte de ser Pai ou Mãe, será sem dúvida um deslumbre do que aí poderá vir, para o bem e para o mal; para quem não quer absolutamente ser Pai ou Mãe, será também um deslumbre na proporção inversa. Mas as gargalhadas estão garantidas.
PS: Ainda “strip-comics”, eu gostaria de ver publicadas as aventuras e desventuras do inigualável “Van Dog”; e vocês? Será que o António Pilar não está interessado?!

sábado, 15 de novembro de 2008

Y: THE LAST MAN, The Deluxe Edition, Book 1.


No Verão do ano 2002, uma praga de origem desconhecida destruiu todo o esperma, fetos e todos os mamíferos possuidores do cromossoma Y – com a aparente excepção de um jovem homem e de um animal que o acompanha, um macaco Capuchinho.
Este “Génerocidio” exterminou instantaneamente 48% da população mundial humana, aproximadamente 2.9 biliões de homens. Quatrocentos e noventa e cinco dos Presidentes dos Concelhos de Administração das quinhentas maiores empresas mundiais, segundo a revista Fortune, estão agora mortos, assim como 99% dos proprietários de terra ao nível Mundial.
Apenas nos Estados Unidos da América, mais de 95% de todos os pilotos de aviação comercial, camionistas, capitães de navios…também 92% de todos os criminosos violentos. Internacionalmente, 99% de todos os mecânicos, electricistas e trabalhadores da construção civil estão agora mortos…embora 51% da força de trabalho agrícola mundial estar ainda viva.
Catorze Nações, incluindo a Espanha e a Alemanha, têm mulheres soldados que serviram em unidades de combate operacionais. Nenhuma das cerca de 200.000 tropas femininas Norte-Americanas alguma vez participaram num palco de guerra debaixo de fogo real (“engaging combat”). A Austrália, a Noruega e a Suécia são os únicos países que têm mulheres a servirem as respectivas forças-armadas embarcadas em submarinos.
Em Israel, todas as mulheres entre a idade dos 18 aos 26 anos já compulsoriamente serviram, ou servem, o seu país nas forças de defesa por um período nunca inferior a 1 ano e 9 meses. Antes da praga, pelo menos 3 dos suicidas bombistas que se martirizaram eram mulheres Palestinianas.
Mundialmente, 85% de todos os representantes governamentais estão agora mortos…assim como 100% de todos os padres católicos, imãs muçulmanos, Rabis Ortodoxos e outros de muitas outras religiões.
BEM-VINDOS AO MUNDO SEM HOMENS.

Após umas páginas introdutórias que antecedem a praga, em que, desde logo, desabrocha o mistério da origem da mesma, o autor, Brian K. Vaughan, assombra-nos com o texto supra.

Yorick, o jovem sobrevivente deste “Génerocidio”, não deverá o seu nome ao seu Pai, um professor de drama, mas antes ao autor e ao seu sentido de drama. Quem nunca ouviu a frase “to be, or not to be”(Hamlet, Acto 3, cena1)?! Frase célebre da mais longa tragédia escrita pelo Bardo. No quinto acto, cena um, da tragédia, o coveiro exuma o crânio de Yorick. A visão macabra evoca em Hamlet um monólogo sobre os vis efeitos da morte:

Alas, poor Yorick! I knew him, Horatio; a fellow of infinite jest, of most excellent fancy; he hath borne me on his back a thousand times; and now, how abhorred in my imagination it is! My gorge rises at it. Here hung those lips that I have kissed I know not how oft. Where be your gibes now?” (no texto).

Em suma, mesmo perante a vaidade terrena, a morte é inevitável e as coisas desta vida são inconsequentes.

A sensibilidade do autor pode não passar despercebida aos jovens Anglo-Saxónicos, que, por imposição do sistema educacional dos mesmos, não se conseguem esquivar ao paralelismo ou à ironia (em vez de analisarem o que se passou em dada novela das 21h00m ou num qualquer “reality-show”).

Estará apenas no nome do personagem principal desta série a analogia propositada (julgo eu) do autor? Será um memento mori (lembra-te que morrerás) a quem a lê? E se for, é sem dúvida brutal. É o “bobo-da-corte” de serviço, disto não há dúvidas, mas não no propósito dos originais. É o herói da série (pese o facto de esse ser o nome de sua irmã, “Hero”), ao contrário do "Jester" original. Incumbido de ser a salvação da humanidade, ao mesmo tempo que tenta alcançar a sua namorada que se encontra na Austrália, seguimos o périplo aventuroso do personagem e do seu macaco Capuchinho (Ampersand – que é nome Inglês para “&”) e suas constantes e consequentes peripécias. O contexto socio-político, assim como económico, nunca é descurado. As eventuais ligações científicas e também místicas e ou míticas são partes indissociáveis da intriga.
Talvez mais despercebida a esses jovens estará a referência quase escandalosa, se não fosse apanágio do autor em pavoneá-la, à obra de uma das principais responsáveis pela introdução do terror e da ficção científica no género literário, a escritora Mary Shelley. De 1826, “The Last Man” não é basicamente aquilo que este “Y: The Last Man” é; ou vice-versa, será mais correcto. A praga que dizimou todo o género masculino não despoletou e logo de uma assentada matou todos os portadores do cromossoma Y. Foi um processo gradual e dramático (não é que o pressuposto pelo Vaughan não seja também dramático, claro). Não quero deixar aqui “spoilers”, por achar que o “The Last Man” da Shelley deveria ser lido por todos os que gostem de ficção científica, em especial que apreciem dentro do género o tema apocalíptico. A Mary Shelley afirma ter encontrado em 1818 uns escritos proféticos, pintados numa folhas pela Cumaen Sibylla, na caverna de Sibéle em Nápoles (Antro della Sibilla). Os escritos profetizariam o fim do Mundo no final do séc. XXI e foram editados pela escritora e narrados na primeira pessoa pelo personagem principal da sua obra, Lionel Verney. Mais estranho será o facto de esta caverna só ter, de facto, sido descoberta em 1932 (!). De qualquer maneira, para quem é crente nestas andanças, este oráculo era de longe o mais respeitado de todos os oráculos e vale a pena (mesmo para quem não acredite, ou queira acreditar) ler a história: Cumaean Sibyl.


Anteriormente, num outro post neste blog, fiz um pequeno apanhado biográfico e bibliográfico do autor desta excelente série, pelo que é desadequado fazê-lo novamente. Quanto a Pia Guerra, a artista encarregue de dar vida aos textos, nunca o fiz. Só agora comecei a ler esta série por algumas razões que passo a descrever: a Vertigo não oferece qualidade nas suas publicações e faz com que isso afecte a arte original; Peguei por várias vezes nos TPB e a arte da Pia Guerra não me convenceu. Pensei que fosse só por ela, mas afinal era também da qualidade do papel que a Vertigo utiliza nos seus TPB. Adquiri a edição especial em hardcover (“The Deluxe Edition Book One”), e pese o facto da dust-cover não ser das melhores, o papel de impressão é substancialmente melhor do que os das edições “trade” (mas não consegue atingir a qualidade dos da Marvel). A arte, embora não capte muito bem o movimento e a velocidade, acaba por me convencer sem me deslumbrar. Esta série foi a grande oportunidade desta artista Canadiana, pois já trabalhando desde meados dos anos 90 em vários títulos independentes, foi com esta série que se afirmou na Industria ao ganhar os conceituados prémios Eisner e Shuster.

Esta edição “deluxe”, livro um, compila os primeiros 10 comics da série em 246 páginas mais 8 páginas de skecthes da Pia Guerra. Assombrosamente (ou não), os sketches da Pia são muito, muito bons. Talvez preferisse muito mais ler esta série sem as colaborações do José Marzan, Jr.(inker) e da Pamela Rambo (colorist). As capas originais também marcam a presença do grande J.G. Jones (já referido no post “Wanted”). A série é composta por 60 comics, por isso poderemos contar (eu espero que sim) com mais cinco edições de luxo.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

LITTLE LULU: MENINA NÃO ENTRA? (*)

Quem não se lembra do clube dos rapazes da rua de baixo – East Side – que reuniam num barracão, no qual, na fachada, lia-se “menina não entra”? O Bolinha, o Careca, o Juca e o Zeca (Tubby, Iggy, Willy Wilkins e Eddie Stimson, respectivamente, no original) urdiam planos para humilharem as meninas da sua turma; ao mesmo tempo refugiavam-se da turma do Norte (The West Side Boys), eternos arqui-inimigos da parte mais desfavorecida da Cidade. Pese o facto de os rapazes serem maiores fãs do Bolinha França (Thomas “Tubby” Tompkins, no original), a verdadeira heroína desta turma é, de facto, a Luluzinha Palhares (Lulu Moppet, no original). Será uma ironia o aviso expresso na parede do barracão do clube dos rapazes, pois se não fosse pela Lulu nunca teria existido a famosa turma.

Little Lulu é uma criação da já desaparecida Marjorie “Marge” Henderson Buell (1904 – 1993). A Marge foi uma das mulheres pioneiras na profissão de cartunista, profissão amplamente – ainda hoje – dominada pelos homens. Em 1920 publicou o seu primeiro trabalho e em 1925 o seu primeiro trabalho “syndicated”, “The Boy Friend”. Em 1934 foi contratada pelo Saturday Evening Post e em 1935, naquela publicação, surgiu o primeiro desenho da Lulu. Só passados 9 anos é que o personagem começou a ser publicado diariamente nos jornais. O sucesso foi tremendo e tornou-se um fenómeno de marketing. A Marge detinha os direitos sobre o seu personagem (o que, naquele tempo, era raríssimo) e foi a principal beneficiadora do sucesso da sua criação. Em 1947 deixou de desenhar ela própria as histórias do personagem tendo, no entanto, mantido o controlo criativo do mesmo, desenhado desde então por John Stanley. Em 1971, Marge decidiu reformar-se e vendeu os direitos à Western Publishing. Ainda hoje os seus trabalhos originais são muito disputados nos leilões, atingindo consideráveis valores. Comics das editoras Dell e Gold Key são altamente coleccionáveis. A editora Norte Americana Dark Horse, muito recentemente, reeditou cronologicamente em 18 volumes as aventuras da “Little Lulu” (e sua turma) e mais um volume fora-de-colecção a cores pela iniciativa e amor aos personagens de John Stanley. As aventuras do personagem foram exportadas para diversos países (Japão, Grécia, Arábia, Finlândia, Espanha, e, claro, Brasil). A Devir Brasileira tem os livros da Dark Horse traduzidos para Português.

Até nós, Portugueses, chegou-nos do Brasil e também foi um sucesso. Guardo com cuidado esses gibis, pois confesso, ainda hoje gosto de reler as aventuras dessa turma e embora as reedições da DH sejam de grande qualidade, faltam-lhe alguns dos trabalhos que eu mais gosto. Entre essas aventuras que faltam, a minha favorita é sem dúvida “Summer Camp”, publicada nos anos 70 pela “Editora Abril” (originalmente pela Gold Key comics em formato gigante). É uma mega aventura muito ao estilo das férias da pequenada Norte-Americana (campo de férias), muito divertida, extremamente bem escrita, onde se inclui uma das famosas histórias inventadas pela Lulu com o intuito de dar uma lição de moral ao terrível Alvinho (Alvin Jones, no original) onde Meméia e a Alcéia atormentavam a Pobre Menininha.
A editora Abril publicou um total de 227 números (1974 – 1992) com periodicidade mensal. O tamanho inicial era o chamado formatinho (21x13,5) e manteve-se assim até ao número 67. A partir de número 68 e até ao final foi publicado no formato (19x13,5). O número 1 é uma edição especial das Diversões Juvenis (lembram-se do Alceu e Dentinho? Rocky & Bullwinkle, no original); a numeração apenas se iniciou na capa do número 3.
Antes da editora Abril, no Brasil, foram publicados pela editora O Cruzeiro (algumas destas revistas, em formato Comic, aparecem esporadicamente no Miau.pt).
Nos EUA a DELL publicou 268 números (1947 – 1984).

Para além dos já mencionados personagens, podem também lembrar-se do Plínio (Wilbur Van Snobbe), da Glorinha (Glory), da Aninhas (Annie), Dona Marocas (Miss Feeny) do Seu Jorge Palhares (George Moppet) e da D. Marta Palhares (Martha Moppet), do grande detective “O Aranha” (“The Spider”), que não era outro se não o próprio Bolinha e muitos outros inesquecíveis personagens.

As histórias eram aparentemente simples, mas continham nelas todo o quotidiano das normais crianças dos anos 30/40 do século XX, indo adaptando-se aos tempos, mas sem nunca perder o ideal da infância feliz, livre e despreocupada que se tem vindo a perder nas décadas mais recentes. A moral era forte, a escrita, há semelhança dos outros comics, é que não era exemplo para nenhuma criança: maneirismos e contracções próprias da fala reflectiam-se na escrita. Não existiam mensagens políticas, nem existencialismos disfarçados de crianças. Eram e são histórias para crianças que só precisam de ser isso mesmo.
Eu, embora adulto, ainda gosto de revisitar essa ingenuidade, por momentos sentir-me ainda criança. Só tenho conseguido este breve e quase efémero sentimento, enquanto leio, nos personagens da Harvey e nos da Marge. Quando não leio, é fácil: brinco com o meu filho. Nunca hei-de ser velho ao ponto de não tentar sentir-me como uma criança.




(*) Menos a Diabba (estava feito ao bife, se não abrisse a excepção, como podem ver pelo exemplo de cima).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

SPEED RACER, GO, GO, GO!

Speed Racer! Vi ontem o filme dos irmãos Wachovski e fiquei banzado. Estes irmãos conseguiram, mais uma vez, espantar-me com mais uma grande produção de efeitos visuais vertiginosos e estonteantes (literalmente), também marcadas por uma beleza cénica , um tanto ou quanto kitch (é certo), pouco vulgar, mas bastante vincada e que me agradou imenso. Se forem eventualmente susceptíveis àquelas hipnóticas imagens dos jogos, o melhor é não verem, senão arriscam-se a um ataque epiléptico. É um filme de acção; espirituoso pelas interpretações do “irmãozinho” mais novo do Speed Racer e seu chimpanzé maravilha; repleto de vilões extremamente bem caracterizados; com uma história muito bem escalonada e coerente; com interpretações a um muito bom nível; fantásticos bólides com OH! SO NERDY e detalhadas especificações técnicas de cada um; muitas corridas completamente, absolutamente, fabulosas e arrepiantes. Como podem ver, adorei. O mesmo não posso dizer do resto do Mundo, pois o filme foi um enorme flop de bilheteira: custou mais de 120 milhões de Dólares e rendeu cerca de 90 milhões!

Mas este é um blog sobre BD, Comics e afins, por isso poderão (alguns) estar-se a perguntar: E então, o que é que isto tem a ver?! Bem, tudo. Este personagem (Speed Racer) nasceu como uma Manga, em 1966, onde originalmente o personagem dá pelo nome de Mifuno. A Manga (estilo Shuisha Shonen, em formato tankobon) chamava-se Mach GOGOGO (マッハGoGoGo, Mahha GōGōGō?) e foi criada por Tatsuo Yoshida. Em 1967 foi adaptada para Anime pelas Produções Tatsunoko pela mão do mesmo Tatsuo. Chegou ao Ocidente (Inglaterra) e foi traduzido para Inglês como “Speed Racer, Mach GoGoGo”. Mais tarde, os Norte-Americanos adquiriram os direitos.

As aventuras rodam à volta de um jovem que é apaixonado por corridas e que corre o Mundo dedicando-se à sua paixão. Cada história traz um enredo novo, de mistério e acção, onde toda a família do jovem herói o acompanha, desempenhando papéis relevantes. O outro grande herói destas aventuras é o fantástico e ainda hoje muito actual (futurista mesmo) Mach 5, o carro de corrida desenvolvido pelo Pai (Pops) do Speed Racer. Mach 5 no Ocidente, porque “Go” é a palavra Japonesa para “5”, daí “Mach Go” e depois de traduzido para o Inglês, “Mach 5”. As corridas são marcantes por não terem barreiras nem limites de lealdade e onde os bólides são capazes das mais incríveis acrobacias

Eu conheci este personagem através da Editora Abril, nos anos 70. Tenho alguns destes gibis, decidi ir à procura deles e mais uma vez deleitar-me com a sua leitura. Não foi uma decepção, mas também não me deleitei. O estilo demasiado juvenil já não me conseguiu de novo cativar.
Haveria muito para escrever sobre o Speed Racer, pois há uma legião de fãs que acompanha este herói desde a sua criação. Não vou aqui descarregar toda essa informação, pois não a acho assim tão interessante, vista ao pormenor. Ficam algumas imagens e o conselho de verem o filme. É um filme para toda a família, os miúdos vão adorar. O jogo também não teve as melhores críticas (falta-lhe a velocidade marcada pelo filme).

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

FABULOUS FURRY FREAK BROTHERS


Para além de ter estado de férias, sofri também de “bloqueio de escritor”. Andava às voltas na minha colecção para ver se conseguia estar à altura dos elogios de quem lá vai lendo este blog me tem feito (os quais e às quais, obviamente, agradeço). Conseguir arranjar ideias para aqui colocar banda desenhada ou comics que o pessoal eventualmente conheça pouco, ou não conheça mesmo, não é nada fácil. Daí ter passado os olhos por estes estarolas e ter logo sorrido. Não acredito que não conheçam estes “dop-heads”, nem que seja dos álbuns que a editora Brasileira, L&PM, nos trouxe.
Descobri estes “gandas malucos” nos idos anos 80, onde, segundo o meu perfil, eu era um doudo. É certo que já experimentei fumar charros…e inalei, pois está claro. Também poderão conhecer a substância por besego ou besegol, bobs, xamon, shit, ganza, karate combien, haxixe e eu sei lá mais o quê – aliás, lanço aqui um passatempo: digam nomes para os quais a substância estupefaciente poderá ser conhecida. Também fica a questão: quanto é que é uma dose individual de haxixe?!!! Sempre me perguntei quanto é que seria…meio-conto?! Um pintor?! Será à grama?! Também tem que ficar óbvio que não sou apologista que quem quer que seja experimente tal coisa. Sou hoje muito propenso a aconselhar exactamente que nunca experimentem tais coisas. Foi divertido? Houve vezes que sim; houve outras que não. Compensou o dinheiro e a perda de neurónios, para além de ter me ter arriscado a maleitas de difícil recuperação? Absolutamente NÃO. O mesmo direi e veementemente mais convicto de outras substâncias proibidas “mais pesadas”, embora não tenha experimentado, entre muitas outras, a mais odiosa de todas, a Heroína (vi o que ela fez a alguns dos meus mais próximos amigos para saber que não se olha para o cano de uma arma carregada e extremamente instável!). LSD, PCP, Mescalinas e companhias limitadas também foram por mim sempre banidas de qualquer experiência…sabe-se lá como cada um reage a tais cenas (tive um amigo que ainda hoje, 20 anos depois, não se reconhece ao espelho). A ganza também pode ter esse efeito. Parece mentira, mas é verdade. “Cada um é como cada qual”, diz o povo; também dizem “a mim isso não acontecerá”…pois…mais vale não arriscar, pois pode-se petiscar muitas outras coisas com um risco muito, mas muito mais ponderado. Bisonte Gordo falou.

Tendo feito o que me competia, passo agora aos janados que aqui me trouxeram (onde a Marijuana é rainha): os Fabulous Furry Freak Brothers e seu criador, Gilbert Shelton (e não Sheldon, como muitos o gostam de chamar).
O Gilbert é Texano e é rapazinho para 68 anos, e claro está, viveu o auge da década de 60 e 70, tendo mesmo sido amiguinho da Janis Joplin (pois…não me admira nada) e do Robert Crumb. Tendo jeito para o desenho e tendo, também, um espírito cáustico, não faltou muito para, sobre o efeito de algumas tristemente célebres drogas (ou na ressaca destas; fossem canabinóides psicotrópicos, fossem engenharias farmo-psicadélicas), ter criado a tripla mais mócada da história dos comics. Se os Três Stooges fumassem “charutos” e fossem um bocadinho mais inteligentes (tirando o caso do Fat Freddy) poderiam interpor um processo por plágio. Para além de ser o autor desta imbatível tripla, o Gilbert também é autor do “Fat Freddy’s Cat” (um spin-off da série), “Not Quiet Dead” e da série “Wonder Wart-Hog”. Também foi o artista da capa do álbum “Shakedown Street” (1978) dos Gratful Dead.
O Gilbert nunca foi, talvez surpreendentemente, um alvo preferido da censura Norte-Americana. A explicação prender-se-á pelo facto das suas publicações terem sempre sido muito undergroud. Mas despertou a ira do Joe Shuster (co-criador do Superman) pela criação do personagem “Wonder Wart-Hog”, o suíno de aço. Publicado em 1961 (antes dos FFFB - 1968), o personagem é um tímido repórter que se transforma num machista chauvinista, reaccionário e repressor, dono de um pénis minúsculo e de um apetite sexual neurótico nunca saciado. Pela obnóxia paródia à criação de Shuster, mereceu o descontentamento deste.

Os Freak Brothers apareceram em 1968 nas publicações undergound “Rip of Press”. Quando esta fechou, continuaram a ser publicados pela “Playboy” (não se vê só gajas nuas na Playboy; eu comprava-as pelas BDs que traziam, claro!), “High Times” e “Rip of Comix”; também eram depois editadas em formato comic. Shelton teve a colaboração dos grandes Paul Mavrides e Dave Sheridan (podem-se ver as histórias compiladas destes três fabulosos artistas nos números 6 e 7 da série). A última história dos Freak Brothers foi já há 16 anos. Têm 12 números (mais um número 0) em comics.

Os Freak Brothers são aparentemente uma leitura divertida e desligada. De facto, sempre se preocuparam em atacar a ala mais conservadora da política vigente. Debatendo-se por liberdades que o Estado restringe, foram sempre um bastião na luta pelas liberdades civis (principalmente as mais extravagantes).

Os personagens são do mais dispare que se possa imaginar:
Freewheelin’ Franklin é o espertalhaço, criado num orfanato sem nunca ter conhecido outra casa que não fosse a rua, vestindo-se à cowboy, até poderia ser um biker se não gastasse o guito todo na “tchouza”.

Phineas T. Freakers é o intelectual e o idealista do grupo; criador de novas drogas; activista político e ambiental; guedelhudo convicto. É o estereótipo do radical de extrema-esquerda no seu melhor. Por incrível que possa parecer, o Phineas é Texano (um dos mais conservadores estados do EUA) e apesar de ser filho de uma Mãe (hehehe) mais ou menos liberal, o seu Pai personifica o cúmulo do “conservadorismo”.

Fat Freddy Freekowtsi é que nem um penedo! Burro como uma porta! Consegue estragar o negócio mais fácil, e quando não estraga na altura, mais tarde compensa. Ávido consumidor de MJ (que, aliás, é o que todos eles mais consomem), tem um apetite à altura da sua janadice. Na ressaca, come mais do que um cavalo. Não há frigorifico que resista à desmesurada gula deste mentecapto acéfalo pelas drogas que já consumiu, embora digam que já antes de ter abraçado o vício já assim o era.

O “Fat Freddy’s Cat” não aparece, por hábito, nas aventuras dos mitras que aqui descrevo. Tem o seu lugar no rodapé dos comics ou em páginas só suas. Estão a ver o Garfield ou outros gatinhos mais cutchis? É que não tem nada a ver. É um velhaco que até dói à alma. Refere-se ao seu dono como “o obeso” (“the obese one”).

Dos outros personagens secundários destaco o inesquecível Norbert the Nark, o frustrado némesis dos Freak Brothers. Por si só um tratado.
É bastante fácil encontrar estes comics, mesmo em Português (no Brasil). Mesmo que nunca tenham fumado um joint na vida…e inalado…(e se não, não comecem agora sff), posso-vos garantir que gargalhadas são garantidas.