segunda-feira, 16 de novembro de 2009

PUNK’S NOT DEAD

Foram para mim os meados dos anos 80. A atitude anarquista, as roupas aparentemente desleixadas mas que seguiam estreito padrão de inclusão, o penteado (ainda tinha cabelo…saudades!), que tinham como objectivo afirmar-me rebelde, diferente, cool, mas que vendo bem as coisas, só me tornavam igual aos outros que também queriam ser diferentes. Os mais saudosistas dirão que não era mania, era mesmo atitude. Tudo bem, na altura até era atitude, ao certo é que não sabemos bem qual! A vida lá nos trouxe aos actuais caminhos, e alguns, embora não se vistam como tal, ainda serão Punks no âmago. Respeito.
A música, que ainda hoje gosto de ouvir (vejam lá!) era indissociável do movimento…a música era o movimento. Exploited, Sex Pistols, The Clash, Dead Kennedys, Ramones, The Damned, U.K. Subs, Black Flag, Crise Total (abraço ao Manolo!), Ku de Judas (Autista: és o último da lista :P ), Grito Final, Mata Ratos, Velvet Underground, New York Dolls, Pil, Bad Religion, LCD Soundsystem, etc. Sem ordem específica atrás alguns enumerados, vão desde o ProtoPunk até ao mais recente DancePunk (!), passando obviamente pelo PunkRock e pelo Hardcore. Milhares de horas de música de power chords e três tempos ouvi eu, até gastei os meus vinis “Punk and Disordarly” que comprei na Feira-da-Ladra ao Tó. Concertos no Rock Rendevouz (abraço ao Cascão!) e no inesquecível Bar Oceano, incontáveis escolas e algumas garagens. De dia, na Senófila a fazer barulho (no meu caso, confesso) ou na Harpa (Olivais); de noite, cerveja no Marão, moche no Gingão e no Juke Box, submarinos nas Couves e sandes de queijo e torresmos à mistura com flippers à antiga no Ribas (abraço ao Fernandez!), mais cerveja no Tacão (abraços ao Max e ao Agostinho, e porque não, ao velho Veludo), matraquilhos no Apolo, quando ainda os tinha (abraço ao Jaime…ainda te devo 500 paus!). Foi um fartote!

Depois veio uma atitude mais serena e mais em conformidade com as miúdas, o Underground: The Cure, Bauhaus, The Smiths, The Felt, Sonic Youth, Joy Division, Sisters of Mercy etc.; Peel Sessions; O Som da Frente; Doc Martens (Gibsons); Gabardines; Curtinho dos lados e atrás, aparar em cima; Arroz Doce (Grande Julinho e Pedro Punk), Ocarina, Três Pastorinhos (abraço ao Hernâni), Lábios de Vinho, Noites Longas, Incógnito (beijinho à Rute, abraços ao René e ao Fernando), Perfil (abraço ao Alexandre Barbosa), Alfama e Castelo…mas esta é outra história.

Os mais impregnados no Punk chamar-me-ão de intruso e um “puto das ondas”… têm razão, na parte que me toca sei que nunca fui um Punk, se calhar gostava de ter sido, mas nunca fui. Não tive muitas “ondas”, o Punk e o Underground chegaram-me. Depois comecei a trabalhar e lá se foram as “ondas” (as dos cabelo incluídas), não tinha pedal para tudo.

Mas tudo isto para vos apresentar um rebelde dos anos 80 que alguns reconhecerão de revistas como El Víbora e Animal: Peter Pank.
Para mim foi um retornar aos comics, pois foi com este álbum que eu tornei a entrar nos meandros da “nerdice”. Já havia algum tempo que tinha abandonado os comics, pela falta de qualidade dos mesmos e pelos intermináveis crossovers que me comiam a mesada e depois os primeiros ordenados. Anos depois, uma amiga pelo meu aniversário ofereceu-me o Peter Pank, comprado na Mongorhead (em Lisboa na Rua da Alegria nº32/34, acima da Praça com o mesmo nome…abraços ao Tiago e à Cristina!) quando esta ainda era no Centro Comercial Portugália. Fui lá e desgracei-me outra vez no vício.

O Peter Pank foi desenhado e escrito pelo Max (pseudónimo do Catalão Francesc Capdevila). Em 1984 estreou a primeira aventura em álbum com o título “Peter Pank”. Peter Pank é uma paródia hardcore ao já muito adaptado personagem de J. M. Barrie. Enquanto o original é a história de um rapazinho inocente que recusava em se tornar adulto (muito basicamente), o de Max é a de um obnóxio rebelde e beligerante rapagão com uma atitude “No Future”. O enredo do Peter Pank segue, mais ou menos, as etapas da mais conhecida adaptação de Peter Pan, a de Walt Disney. Totalmente impregnado de cultura Punk e anarquista, a caracterização dos personagens está deliciosamente, ou antes, maliciosamente bem atingida: Os Meninos Perdidos são Punks; O Índios são Hippies, que levam porrada a valer dos Meninos Perdidos; Os Piratas são Rockabillies; As Sereias são ninfomaníacas BDSM (Bondage/Descilpinadoras/Sado-Maso) dominatrix. O sexo é explícito e a linguagem é extremamente colorida. Tudo isto alinhado com um desenho muito bom, cheio de pormenores e surpreendentes textos para o género. Acção é coisa que não falta, assim como inúmeras referências estéticas, politicas, sociais e, obviamente, culturais. Também não falta droga, claro. Todos os atributos de um verdadeiro comic underground.

Esta primeira história do Peter Pank começa com a viagem de uma adolescente e seus irmãos, oriundos de um subúrbio de uma cidade Espanhola, à ilha da Punkilandia (no texto original). A acção desenrola-se durante o rapto da princesa Hippie pelo Capitão dos Rockabillies…e que acção! Lutas, perseguições, sexo, drogas, mais sexo e lutas. Tudo acaba com todas as tribos a lincharem o protagonista!

Embora aparentemente tenha sido linchado no final, o epílogo sugere que a história continuará. De facto continuou, Peter Pank é ressuscitado por um sinistro personagem em 1987 no álbum “El Licantropunk”, para gáudio dos fãs. Com este álbum o autor continua a explorar os diferentes grupos ou “tribos” normalmente abraçados maioritariamente pelos adolescentes, neste caso, os Skins e os Góticos. As referências literárias e cinematográficas são amplamente exploradas com os inevitáveis pastiches para as pranchas, desde “Drácula” a um “An American Werewolf in London”, a pormenores onde, por exemplo, aparece o Capitão Haddock e uma paródia ao mapa que inicializa todas as aventuras do Astérix. Mas, neste álbum a vertente mais underground esvaia-se quando o autor tende a abandonar os segmentos de sexo explícito e consumo de drogas. A técnica, a meu ver, melhora com uma aproximação mais evidente à “Ligne Claire”. Este álbum ganha o prémio de melhor obra no salão de BD de Barcelona de 1987.

Em 1990 a veia política do autor sobressai no que seria o último álbum deste irreverente personagem: “Pankdinista!”. O já anteriormente subjacente anarquismo torna-se aqui o elemento principal do enredo. A referência ao álbum dos The Clash, “Sandinista”, é flagrante. O autor repete a exploração das “tribos”, desta feita são os Yuppies, os Heavy Metals (ou Metaleiros, se preferirem) e o pessoal do Hip-Hop. Peter Pank retorna à Pankilandia e encontra-a ocupada por um grupo, os Yuppies, que criaram um Estado, um exército, introduziram corrência monetária e defendem acerrimamente a propriedade privada. O Peter Pank, perante tamanho atentado à sua ideologia, reúne todas as tribos rebeldes debaixo do seu comando e começa uma luta sangrenta contra o poder capitalista que se instalou, que também responde na mesma moeda. Os paralelismos com a revolução Sandinista na Nicarágua são notórios.

Surpreendentemente foi, dos três, o pior álbum. Não sei se terá ditado o fim das aventuras deste Punk, se sim, foi uma pena. Mas não acredito!

Todos estes álbuns foram publicados pela Ediciones La Cúpula, o primeiro pode-se ler em Português na revista Brasileira “Animal”, e em Inglês publicado pela Knokabout/Crack Editions.O autor embora tenha abandonado este personagem continuou a sua carreira na BD e na Ilustração com bastante sucesso, pese o facto que para nós Portugueses continue, infelizmente, um quase desconhecido.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

VIRTUAL SELF: LIFE...ONLY BETTER.

De tempos a tempos aparece uma obra no panorama dos comics que lá me surpreende sem ser no seu todo uma obra ora original ora assombrosamente desenhada. É preciso ser honesto e reconhecer que reunir esses dois predicados numa só obra é raríssimo, um dos dois já não é tanto. Ainda bem. Este livro que aqui me trás, no meu entender, é mais uma aproximação à velha questão da vontade Divina, do livre arbítrio, da condição humana, mas basicamente da polémica. Nada atrai mais um ser humano do que uma velha discussão. Já velhas a discutir, não duvido que tenha o seu share, mas não é a mesma coisa! A polémica, seja ela qual for, é a mãe de todas as discussões em que vale mesmo a pena perder tempo a assistir ou fazer parte, todos têm uma opinião. Seja o aborto sejam os chips nas matriculas, seja o Saramago e as suas inconsequentes e verborreicas afirmações, seja o casamento gay, seja o homem substituir-se na vida pessoal, profissional e social por um andróide que lhe transmite remotamente todas as sensações como se o operador humano estivesse realmente presente. Pois é disto mesmo que se trata! Desde o aparecimento do robot o mesmo da “máquina”, ou mais recentemente (1968) do livro “Do Androids Dream of Electric Sheap?” (n.a.: brevemente a adaptação em comics neste blog) que a questão não é assim tão original. O desenho, escreveram uns críticos, faz lembrar “Fell” (Warren Ellis/Ben Templesmith; com post neste blog) mas mais soft e tosco (como é que é?). Enfim…apesar de não ser original e tão pouco assombrosamente desenhado, existe nesta obra uma construção e exploração de personagens e época que faz inveja a outras que reúnem os tais dois predicados.

“Owner’s Manual For Your New Surrogate Unit. Virtual Self: Life…only better”. Li, devorei, esta magnifica edição especial em formato comics, hardcover, editado pela Top Shelf Productions. A Top Shelf é daquelas editoras à qual eu não consigo tirar o boneco quanto ao género (passo a expressão)! Mas já vi que numa coisa é fácil qualificar esta Editora: Qualidade. Cinco comics e uma graphic-novel (“The Surrogates: Flesh and Bone”) estão compilados neste fabuloso volume. Os comics foram publicados entre 2005 e 2006 e a prequela foi publicada já no corrente ano de 2009.

Os seus autores são Robert Venditti e Brett Weldele. O primeiro escreveu este fantástico mundo habitado por andróides, o segundo, obviamente, desenhou-o.
Venditti não é o habitual autor de comics que normalmente aqui vos trago, ele é apenas (que é como quem diz!) conhecido por este trabalho. Venditti era daqueles que considerava que os comics eram uma coisa de miúdos. Foram os clientes da loja onde ele trabalhava, uma livraria, que o convenceram a ler comics, tendo escolhido “Astro City” do Kurt Busiek para começar. Em boa hora o fez, pois vislumbrou um novo mundo, o que o levou à Top Shelf e depressa a esta obra de se lhe tirar o chapéu.

Também praticamente um desconhecido, Brett Weldele já tem trabalhado na indústria dos comics, mas discretamente. Destaco, dos poucos trabalhos que lhe conheço, “Couscous Express” com o Brian Wood (“DMZ”) e a mini-série da Marvel, “B Sides”.

Portanto a surpresa de ler este livro de tão ilustres desconhecidos foi melhor do que poderia desejar ou imaginar, sem ser um poço de originalidade e de art-exquisite. Claro que Hollywood ajudou bastante a torná-los mais conhecidos. A “Meca” do cinema Norte-Americano tem feito muito por si, ultimamente, com a preciosa ajuda dos comics. É notório o número crescente de argumentos adaptados ao cinema que provêm da indústria dos comics, sejam mainstream, sejam indies. Era de prever, com o crescimento da indústria dos comics e com a sua tendência em se tornar mais adulta, que autores de talento fossem apanhados pela oportunista indústria cinematográfica. Até onde seria possível a Hollywood reciclar os velhos filmes? Acredito que eternamente! Obviamente que adaptações literárias ao cinema não são inéditas, mas o maná que os comics proporcionam é “ouro-sobre-azul” para os grandes estúdios. Nos comics têm a vantagem do story-board já estar previamente executado e o cálculo do orçamento necessário ser sempre mais fácil de pré-elaborar, a aceitação dos argumentos pelo público, entre muitas outras razões que beneficiam os estúdios produtores.

Esta história é polémica apenas pela ideia. O principal mote da narrativa é a polémica, pois é através desta que o autor tenta nos atingir. Envolta num caso de mistério policial que alguns viram como “noir” mas eu não (desculpem-me!) é, no fundo, a polémica que alimenta todo o enredo que se desenvolve e não o caso de polícia de per si.

O autor explora um bem que seria bastante desejável na actual sociedade Norte-Americana cada vez mais acossada pelo medo. Desde o medo de ter que sair à rua, o medo das doenças, o medo dos fumadores, o medo da poluição, o medo de interagir com outras pessoas, o medo de ser assaltado, o medo de se ser violada, o medo do terrorismo, o medo, sempre o medo que é sobejamente explorado por quem nele veja proveito em relação aos seus próximos. Este medo não necessita de ser patológico, basta uma centelha, um frémito, para que a paranóia depressa se instale, e nem precisa de ser bem vendido.

Num ambiente assim, o autor imagina um mundo, o nosso mundo, que se vê com a oportunidade dada (leia-se vendida) por grandes empresas em torná-lo mais seguro para os seus habitantes. Qualquer Ser Humano que tiver dinheiro ou apenas capacidade de endividamento poderá adquirir uma unidade autónoma de realidade virtual que, na vez do seu dono, enfrentará o Mundo face a face.

Fantástico, não? Obviamente. É como o plástico: “É Fantástico!”, e o DDT e o que é radioactivo! Em pouco tempo metade da população adquire uma unidade enquanto a outra metade prefere levantar-se e gritar “blasfémia”. Dão-se motins e blá-blá-blá…a velha história do costume. Esta informação histórica dá-se nas primeiras páginas do livro e serve para localizar o leitor neste atípico e quase admirável mundo novo.
Um artigo interessante no imaginário Journal of Applied Cybernetics, que também aparece logo nas primeiras páginas do livro, vende-nos a excelente ideia que é possuir, todos possuírem, uma unidade Surrogate. Tem o título de “Paradise Found”, em contraponto, creio eu, com o “Paradise Lost” de Milton e todos os seus pensamentos inerentes adaptados ao séc. XXI, em vez dos mais, digamos, simples ou monocromáticos mas bastante equivalentes conceitos do séc. XVII. Possibilidades e realizações na era do Surrogate, começa o artigo, dissertando depois nas inúmeras mudanças dramáticas que rearranjaram a vida de todos que abraçaram a tecnologia, apontando apenas o aspecto positivo, ou por ignorar ainda os pontos negativos ou por preferir ignorá-los. É um facto que o Surrogate não foi uma ideia pacífica e a sua utilização pela esmagadora maioria da população (95% de penetração no mercado) foi uma conquista absoluta de enorme sucesso em tão pouco tempo. Aponta o artigo que existem três grandes vertentes sociais que tornam Surrogate um indiscutível sucesso: Género e Raça; Políticas de Segurança, e Crime; Saúde Pública e Individual.

Género e Raça: A vantagem de quem é de uma qualquer raça poder escolher um Surrogate que melhor o insira num qualquer grupo ou profissão para poder aceder a um nível de vida melhor ou em conformidade com os seus desejos, sejam eles de que natureza for. O mesmo se aplica ao Género; existem empregos que são mais acessíveis a um determinado género, o Surrogate possibilita a qualquer Género adoptar outro para sua conveniência profissional ou outra.

Políticas de Segurança, e Crime: As estatísticas do crime violento desceram abruptamente uma vez que o operador do Surrogate pode desligar-se da sua unidade autónoma assim que seja vítima de um crime violento. Com isto, não sofre fisicamente nem tão pouco emocionalmente pois já não se encontrará no local do crime; também há uma maior colaboração com as forças policiais quanto ao testemunho ocular, gravado pela unidade e guardado num disco remoto. Embora o crime não violento (assalto a residências, fraude, burla, etc.) seja mais comum e assola com maior incidência as estatísticas, não estando este tipo de crime imune ao facto da utilização do Surrogate, não é de minorar o facto do crime violento ter baixado drasticamente. Economicamente as repercussões são de uma também baixa dos gastos no todo do sistema judicial, em especial nas prisões. As forças policiais saem reforçadas enquanto são obrigadas a operar com os Surrogates, baixando as taxas do risco inerente à profissão, tornando-se esta mais aliciante aos potenciais candidatos.

Saúde Pública e Individual: Uma vez que são os Surrogates a interagirem uns com os outros, salvaguardam a população de humanos de doenças infecto-contagiosas, algumas potenciais pandemias; acidentes de trabalho; doenças derivadas de certos vícios, nomeadamente o tabaco. Neste ponto é notório a ênfase que se dá a esta indústria que movimentava biliões e que vinha a definhar (se é que definhar seja o termo mais adequado!), mas de acordo com o artigo, o Surrogate tem a habilidade de fumar e proporcionar a euforia momentânea, o cheiro e o sabor do fumo ao seu utilizador através da sua ligação sensorial a este. Isto trará grandes benefícios aos utilizadores das unidades Surrogate, ao evitarem todas as maleitas derivadas de certos hábitos, sem perderem o prazer proporcionado pelos mesmos. O Sistema Nacional de Saúde também será um dos grandes beneficiários desta simbiose, uma vez que o orçamento anual dispendido no combate às patologias associadas a certos prazeres seja canalizado para outras áreas. Patologias sexualmente transmitidas serão também praticamente inexistentes, acabando com o pesadelo do Síndrome da Imunodeficiência Adquirida nas sociedades que adoptem a tecnologia Surrogate, como exemplo mais flagrante.


Tudo isto se encaixa num cenário de resto muito pouco futurista, onde as intolerâncias do costume pululam na sociedade. Acompanhamos dois detectives a quem lhes calha um caso raro de ataques a unidades Surrogates e que têm por finalidade aparente ou óbvia criar a desordem e forçar o colapso do actual status quo social dominado pelo mundo das unidades virtuais autónomas, que segundo alguns inibem a verdadeira vida que Deus desejaria para o Homem, na vez da também aceitável visão de que Deus nos deu livre arbítrio para escolher a forma de vida que pretendemos levar (novamente Milton e seu poema). Não vou adiantar mais nada sobre o enredo, pois este merece ser lido e não contado.


Aconselho com veemência a leitura desta obra intrínseca de conceitos divinos e humanos, logo morais, desenhada a traços simples e crus, pintados ora a tons de sépia ora a tons de azul ou cinzento.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

AMADORA BD 2009, Considerações pessoais.

Amadora BD, onde eu também estive, muito foi escrito em diversos blogs para eu estar aqui a continuar a malhar no ferro. Mas nas famosas palavras do velho Automatix (ou lá como ele se chama agora!), “deve-se bater no ferro enquanto este está quente…aliás, deve-se bater em tudo enquanto se está quente!”. Pois bem, sendo assim vou malhar um bocadinho também.

Pessoalmente gostei desta edição do Amadora BD, por muitas razões é certo, mas a principal foi por ser um sítio onde se respira BD durante algumas semanas, ou pelo menos tenta-se respirar, literalmente, e onde podemos encontrar de uma vez só todo aquele pessoal que não vemos no resto do ano. Pode parecer uma razão pequenina, mas para mim não é. Obviamente que todas as exposições de conhecidos e alguns desconhecidos autores são por mim muito apreciadas, as sessões de autógrafos/desenhos também, o espaço comercial, as bifanas, e até as pipocas que o meu pequenalho com dois anos e uns trocos adorou foram bem-vindas, os Cosplay são sempre divertidos. Outra coisa que eu também achei excelente ideia (que eu não vi noutros anos, embora possam ter lá estado) foi os salvadores dispensadores de água.


Não gostei do fosso onde estavam os autores/artistas convidados: parecia estar na fila para comprar bilhetes, era escuro, claustrofóbico, e num piso tão cheio que se tornava irrespirável. Respirava-se a transpiração de uns e dos outros; uma orgia de muito mau gosto que atentava à saúde pública. Sou propenso a ataques de pânico e quase tive um! Salvou-me o dispensador de água. Enquanto se fizer um certame num parque de estacionamento, não haverá, da minha parte, qualquer simpatia pela edilidade que o promove; afinal há dinheiro para tanta coisa, porque não investir na fábrica da cultura? Também não gostei da falta de respeito demonstrada por alguns autores convidados, provavelmente paga o justo pelo pecador, mas os atrasos às sessões de autógrafos são inadmissíveis, especialmente quando depois há alguém a impor limites às filas para respeitar a hora do fim dos autógrafos. Não gostei de certos autores armados em vedetas: quando se sentam para dar um autógrafo/desenho não devem desdenhar do papel que as pessoas lhes entregam para o efeito; são mal-educados e não têm respeito pelo próprio trabalho; quem tem unhas, toca guitarra, ponto final. Não gostei do "Grande Vigésimo", apesar de ter gostado do "trocadalho" com o "Petit Vingtième"(suplemento infanto-juvenil semanal do jornal Belga "Le Vingtième Siècle) , pese o facto de já estarmos no Séc. XXI!


Gostei muito dos jovens, mas nada inexperientes, autores portugueses presentes, mostraram todos uma panache e uma dedicação merecedoras de distinção. Certos tipos têm muito a aprender com estes grandes desenhadores e autores nacionais. Gostei do Achdé, é bastante simpático e conversador. Gostei do David Loyd, também simpático e muito comunicativo. Gostei muito do desenho do Boucq. Gostei de ver um dos espaços comerciais entregue a um alfarrabista-que-não-é-bem-um-alfarrabista. Estou solidário com os comerciantes que foram enfiados num buraco e não gostaram, e com aqueles que não se importaram, até preferiram, ficar com um lugar mais pequeno e melhor controlável do que o do ano anterior. Compreendo a desilusão da exposição dos 50 anos do Astérix, parece que se lembraram no último dia que o rapaz fazia 50 anos e até pareceria mal não ter lá uma salinha; também compreendo que um material mais rebuscado só existiria em colecções ou acervos de pessoas e instituições que já os teriam emprestado a outros certames com maior visibilidade. Gostei de encontrar o Geraldes Lino, que era inevitável encontrar pois ora bem e felizmente; lá me tirou uma dúvida bedéfila enquanto a outra permanece um mistério (farei um post sobre ela, quando finalmente comprar um scaner).


Quanto ao resto, não gosto muito de falar do que realmente não sei, embora me sinta extremamente tentado, claro! Não sei o que estará por detrás da organização deste certame; não sei qual é o orçamento; não sei quais foram as ideias originais, se todas vingaram e se não, porquê; não sei dos humores dos convidados ou do eventual preço deles, se é que existe um; não sei se é possível agradar a Gregos e a Troianos (diz-me a até agora experiência pessoal que não é); não sei se o “Manel” prometeu e depois não cumpriu à última da hora; etc. Portanto, não sabendo muita coisa, não será de bom-tom estar a maldizer apenas porque é fácil...que não o é, convenhamos! Somos todos críticos, mas eu penso que deverá haver uma base mínima de conhecimentos para se poder apontar os verdadeiros erros de uma qualquer organização, e eu não os tenho. Todas as opiniões deverão ser bem-vindas, pois é com elas que se encontrará um caminho para melhor corresponder às expectativas…dos Gregos e dos Troianos! Tinha muito mais a dizer, mas entraria toda no facilitismo que é mandar uns “bitaiques” para o ar. Há muitos que defendem a maior divulgação e comercialização do evento, e há outros que, ao contrário, defendem uma entrega do evento a um público mais especializado. Eu estou no meio caminho: creio que há espaço de sobra para as duas tendências. Mas, e atenção a este “mas”, no dia em que o festival se torne pertença dos intelectuais integracionistas do costume, eu deixo de lá ir (“Ainda bem!”, dirão eles.); o mesmo valerá se for entregue apenas à vertente mercantilista. Mesmo que gostemos de nos atribuir maior importância do que aquela que temos - e eu não fujo a esta regra – não devo estar só no meu pensamento. Sendo assim, não me afirmo como um papalvo, mas como um apreciador de BD feliz e que feliz se passeia, como muitos outros, com os seus livrinhos debaixo do braço, com a mulher e o filho a comerem pipocas alegremente e que lá vai aprendendo alguma coisa mais sobre o que é a BD…só não manuseio livros e pergunto o preço! Isso é que não, não vá eu ofender alguém…hehehehe!
Amanhã: Life...only better!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O VERDADEIRO ANIMAL FEROZ

Este blog não é um blog político, nem o pretende ser, obviamente. Mas, não podia deixar escapar o lançamento de mais um livro do meu autor favorito. É verdade, o Augusto Cid (na foto à esquerda) é O meu autor favorito de sempre. É um ilustrador brilhante e o melhor cartunista que Portugal já viu (para mim é, aguentem-se!). Compará-lo, como já o fiz noutro post, ao Raphael Bordallo Pinheiro não será de todo exagerado, mas talvez injusto para ambos. Cada um é e foi brilhante à sua maneira. Cada um deu o seu excelso contributo para chamar o “boi pelo nome”, deixando imagens que comprometem as estórias mal contadas, deixando espaço à História escrita ou inscrita pelo sarcasmo e pela ironia acutilante que, no entanto, denota mais a verdade ou a percepção desta pelo Povo. Bordallo personificou-o na figura do Zé, que é aproveitada (muito bem e ainda bem) pelo Cid. Manguitos…manguitos são o que mais falta fazem e infelizmente o Povo tem sido parco neles (a abstenção não é um manguito!). Pois cada cartoon do Cid é, por si, um manguito em nome de todos aqueles que desconfiam e que têm meio-palmo-de-testa. É um aviso à ”classe” política (que cada vez mais vai tendo menos "classe"), um aviso de atenção que ainda há pessoas inteligentes e cultas, que conseguem discernir a propaganda da verdadeira intervenção e do trabalho concreto com sólidos resultados. Por muito que a “classe” queira um País de licenciados (talvez a um Domingo) em ignorância e apatia política, ainda vão andando por aí alguns que não se deixam comer com tanta facilidade.

Infelizmente já observei, por algumas vezes que já foram demais, pessoas a lerem os cartoons deste e de outros artistas e dizerem “Não estou a ver qual é a piada disto.” (!!!) Pela primeira vez, pensei julgar ser uma exclamação de desabafo e desconsolo de alguém que já não acha graça nem à caricatura da situação politica retratada, por serem já tantas as situações que nos infernizam a vida e comprometem o futuro deste País. Mas não era, de facto era mesmo a incapacidade de compreender e de enquadrar o cartoon na situação real. Ignorância total. Fiquei abismado e tive que explicar ao mentecapto o ponto da situação actual, pelo que obtive a resposta que qualquer político carreirista gosta de ouvir (mesmo que nunca o confesse ou discirna): “Deixa estar, não quero saber; eu estou a borrifar para esses gajos”. Ora que bem! Penso eu. Desde que fui adolescente que ouvi muitas vezes aquela interjeição muito própria da idade: “Estou-me a cagar para os outros” (peço desculpa pelo vernáculo, mas é mesmo assim). O que esta gente não percebe (ora porque não quer, ora porque não tem capacidades para tal) é que de facto se estão a cagar para elas próprias. Mas vamos lá nós tentar fazer perceber a esse pessoal que é importante andarmos informados das acções e dos movimentos da chusma, mesmo dos mais honestos e ímpios que nela habitam.

A Democracia foi uma invenção da aristocracia. Vejamos, da aristocracia inteligente e verdadeiramente iluminada. Na antiguidade clássica, observando a História, a aristocracia percebeu, por experiência passada (“Conhece a tua História”), que faziam mal em hostilizar as massas. Deram-lhes então uma ilusão: a ilusão que teriam de facto intervenção nos desígnios da governação, logo, nos seus próprios desígnios. De facto tinham representatividade, mas quem decidia era a já há muito instalada Aristocracia. Governadores, Senadores, Cônsules, etc., eram todos membros da elite instalada, o nepotismo era corriqueiro, as famílias dominavam na governação por gerações e gerações. Também, no seu tempo, os exércitos eram assim. Hoje não será tanto assim, pois o dinheiro já não se encontra com tanta facilidade nas “velhas famílias”, mais se encontrará nas grandes empresas que movem os seus interesses nas malhas da política, criando “animais ferozes” por todo o lado, por todos os partidos, desde que ferozmente defendam os interesses maiores da economia empresarial e se tivermos sorte, lá pelo meio, o País. No caso Português ainda o cortejo vai no adro, mas havemos de chegar ao “lóbiismo” descarado em que o Povo é de tal forma fácil de estatisticamente ser manipulado que quantos menos se importarem melhor.
Claro que a “classe” não estaria livre, mesmo assim, de se verem a malhas com a populaça. Partidos que regozijam na demagogia inconsequente e completamente desfasada da realidade do mundo em que vivemos poderão vingar, pela mão da populaça que tem o dom para se perder nas suas decisões (atenção ao verbo perder). É um mundo cheio de perigos políticos. Ainda bem que existem pessoas, “Cavaleiros do cartoon”, como o Augusto Cid. Obviamente para mim, Cid é o “Condestável” de todos eles. Aonde quer que encontre uma estória mal contada, uma situação duvidosa, uma “Chico-espertalhice” que nos queira comer por otários, lá estará ele a brandir a sua pena e com esta a avisar a “classe” que se ele viu a marosca, outros também verão com a sua ajuda ou sem ela. Não poupa “Laranjas”, “Rosas”, “Vermelhos”, “Azuis” ou “Vermelhos às bolinhas pretas e cor-de-rosa”. Nesta “classe” é tudo a eito e esta é a virtude principal de um bom cartunista e é a que mais me agrada: “Doa a quem doer” estaria escrito no brasão acompanhado de uma moca de Rio-Maior, um Manguito, uma pena e um tinteiro. Só tenho pena que não doa mais.
Décadas a malhar neles, oposição ou não. Livros como: “O PREC”, “O PREC II”, “O Fim do PREC”; “O Último Tarzan”; “O Superman”; “Eanito El Estático”; "Agarra mas não abuses"; “Bicas e Bocas”; "DEMITO-ME...uma ova!"; “Cão Traste”; “Alto Cão Traste”; “Soares é Fish”; “O Produto Interno Brito”; “O Fenómeno” (com António); "Desculpe o Mau Jeito"; "Viva a Liberdade de Expres..."; "Seguros Cartoon Book". Outros livros como “O que se passa na Frente?”(1ª e 2ª Edição alargada), que testemunham a Guerra Colonial do ponto de vista do combatente, ou “Os cartoons do ano…” (de 1999 a 2008, com excepção do ano 2001 que não teve edição, em parceria com outros autores), são um “must”. Não é só na política que o Augusto Cid mostra o seu talento: ilustrações publicitárias várias, escultura e investigação. Os livros “Camarate” e “Camarate: Como, Porquê e Quem” são imagem da incrível luta do autor para não deixar morrer o muito mal contado (por alguns) caso da trágica morte do Primeiro-Ministro Francisco Sá Carneiro e outros que com ele iriam viajar até ao Porto naquela fatídica noite. Imperdíveis. Alguns destes livros foram apreendidos pelo desconforto que causaram aos visados…coitadinhos!
“Porreiro Pá” custa cerca de 22 Euros, o que é um escândalo, diga-se. O papel é fraquinho, não me venham com a estória que tem 100 gramas e coisa e tal…é fraco e mau. Por este preço, só quem como eu o compra e é por ser um verdadeiro fã do trabalho do homem e que faço questão em guardar um registo que será histórico para uma futura geração que quiser, como eu o fiz, realmente perceber as maroscas e maningâncias da história política relativamente recente. Merecia mais e por menos dinheiro, o que é bem possível nos actuais tempos de Europeização e Globalização. De qualquer forma, eu aconselho com veemência este livro que nos fará sorrir, com azedume, é certo.





Edit: Os pouquissimos cartoons que aqui foram utilizados para ilustrar o imenso trabalho do Augusto Cid pertencem a várias obras dele, tendo todos sido publicados previamente em jornais e revistas portuguesas. Servem apenas para divulgar o autor e não têm qualquer fim lucrativo beneficiando este blog e o seu utilizador. Os meus agradecimentos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

LEITURAS ESTIVAIS



Foram umas belas férias…são sempre belas, mesmo quando não são melhores que as anteriores. Não apanhei nenhuma daquelas à antiga, como os nossos conhecidos mutantes na capa deste comic dos anos 80, que pertence a uma das mais estranhas edições da Marvel onde os mais conhecidos heróis eram caricaturizados, debochados, arrastados pela lama, etc. (farei um post sobre esta fantástica e inesquecível série que maravilhou e irritou fãs por todo o mundo). Mas as minhas férias foram especiais, à semelhança das do ano passado: o meu rebento desabrochou e começou a falar, a brincadeira abunda, é um nadador inato, e todos os dias são uma novidade.

Dito isto, que interessará muito pouco ou mesmo nada a todos que lêem este blog (isto é que é presunção da minha parte: pensar que alguém ainda lê isto!), nas próximas linhas farei um apanhado das minhas leituras de Verão. Aproveitei para reler alguns livros que já estavam enevoados na minha memória e levei uma catrapiscada de outros que ainda estavam por ler, apesar de alguns estarem na estante há muito tempo.

Comecei as minhas leituras pelo “The Stand – Captain Trips”. Já sabia da existência desta novela da autoria do Stephen King, mas nunca a tinha lido. Aproveitei o facto do famoso autor ser um fervoroso fã de comics e ter autorizado e supervisionado neste formato esta sua novela. Por ser um fã do seu trabalho e já ter lido algumas entrevistas suas (em particular uma, creio na revista Fangória, há uns anos valentes), foi com pouca surpresa que fiquei a saber que ele gostaria de ver os seus títulos adaptados aos comics. Por convite da Marvel, o autor começou por supervisionar uma prequela da série “Dark Tower”, até agora com três títulos já disponíveis no mercado, escritos por Peter David e ilustrados por Jae Lee e Richard Isanov. O sucesso desta série abriu portas para outra adaptação: “The Stand” é uma adaptação da novela publicada pela primeira vez em 1978 (actualizada em 1990). Não podia ser mais actual, de facto. É uma série do género Apocalíptico onde o principal vilão aparenta ser um vírus da gripe manipulado pelos militares, com o nome de código “Project Blue” e que se torna popularmente conhecido por “Captain Trips”. Este primeiro número, de cinco hardcovers, tem exactamente o título “Captain Trips” e descreve os primeiros dias após o desencadear da pandemia, provocado por uma fuga de um militar das instalações onde o vírus era desenvolvido. É escrito pelo Roberto Aguirre-Sacasa e ilustrado pelo Mike Perkins, dupla que funciona muito bem. Gostei bastante de ler este primeiro número e, devido ao actual cenário de gripe H1N1, consegue aumentar o seu efeito de horror/terror pretendido. Foi uma coincidência esta situação e não um aproveitamento descarado do H1N1 (talvez do H5N1!), pois este primeiro volume foi editado em Setembro de 2008. De qualquer forma, a devastação provocada pelo “Captain Trips” (99,5% da população Mundial é infectada e morre) envergonha (e ainda bem) o real H1N1. O segundo volume tarda, mas para quem não quer ler o original ou esta adaptação para comics, sempre pode ver a série televisionada de 1994, com o Gary Sinise como protagonista. Talvez na senda da grande escritora Mary Shelley com a sua novela profética e aterradora “The Last Man” (que já neste blog foi abordada em “Y: The Last Man” - Brian K. Vaughan e Pia Guerra) esteja outra visão associada do armagedão da humanidade.


Depois deste começo passei para o último livro do Ben Templesmith. “Welcome to Hoxford” (sim, com “H”) é uma paródia, muito ao jeito do autor, à licantropia e ao sistema prisional Norte-Americano que nos últimos tempos tem vindo a interditar (leia-se censurar) os seus livros. A história é simples e retorcida, assim como os seus personagens: desde violadores, pedófilos, necrófagos a canibais, temos de tudo! A licantropia é abordada ao estilo vampiresco, o que não é nada original, mas sempre um pouco diferente do que é costumeiro. A arte, essa é irrepreensível. O enredo, sem spoilers, resume-se a uma instituição privada que recebe os piores e mais hediondos perpetradores dos mais condenáveis crimes na sociedade e reserva-lhes, secretamente (claro!), um destino que não o combinado com as autoridades, que se estão a borrifar, diga-se. Pelo meio, um fantástico personagem que faria o Hannibal Lecter parecer um betinho, uma psiquiatra que devia era ter juízo, um bando de tipos que não fossem os seus crimes seriam patéticos e, para acompanhar, uma matilha de avantajados Lobisomens. Enfim…a arte é irrepreensível.

Adivinhando que necessitaria de algo que me deixasse garantidamente satisfeito, muni-me com vários títulos do Warren Ellis, esse Deus escriba dos comics (Conforme muitos o apelidam. Será exagero?). Então, coloquei no saco: “Orbiter”, “Ocean”, “Crecy” e “Ministry of Space”.
“Ocean” para mim é o melhor, e por isso vou começar por este. Embora os mais fanáticos digam que seria digno de uma adaptação cinematográfica de grande orçamento, eu não vou tão longe: provavelmente um episódio de uma série ao estilo “Limiares da Realidade” (por exemplo). Todos eles seriam de boa adaptação televisiva. “Crecy”, por razões óbvias já teve inúmeras adaptações, pois trata-se da batalha considerada como a maior vitória Inglesa na sua História bélica (a tal com um gostinho especial, hehehe). O “Ministry of Space” mereceria, esse sim, um filme de grande orçamento ou uma série com 10 episódios, embora este seja, paradoxalmente, o que tem menos páginas.
De qualquer forma, Ocean foi o que despertou maior curiosidade no enredo e que conseguiu criar os melhores e mais tridimensionais personagens possíveis em tão poucas páginas. A arte de Chris Sprouse e as cores de Karl Story convencem, sem deslumbrar. O enredo, esse sim, deslumbra e vislumbra. Num futuro não muito distante, um inspector especial embarca num estranho veículo enquanto lê um livro (objecto praticamente extinto na produção) sobre as primeiras conquistas espaciais da segunda metade do séc. XX, comentando com admiração e incredulidade os feitos com os desconhecidos que com ele viajam. O seu trabalho levá-lo-á ao grande planeta gasoso do nosso sistema, a uma remota estação orbital científica que tem por função monitorar e estudar um dos seus planetas satélites. Uma espantosa descoberta foi feita e existe perigo de apropriação para fins menos católicos. O fim é de certa maneira um tanto ou quanto forçado, mas se o autor tomasse outro rumo provavelmente teria ganho vida própria para se tornar numa série de grandes dimensões. Pena é que não o tenha feito.

“Ministry of Space”, aqui está um livro que me dividiu. A arte é fenomenal, basta referir o nome de Chris Weston para estar tudo dito. As cores de Laura DePuy são de grande mais-valia. O enredo também é bom, mas com reservas. Logo após a 2ª Guerra Mundial, com a preciosa e indissociável ajuda dos cientistas Alemães “resgatados”, os Norte-Americanos e os Soviéticos empreenderam a conquista do espaço, como é sabido. O Warren Ellis reinventou a aventura, desta feita empreendida pelos Britânicos e pelos sonhos da velha Albion Imperialista e irredutível. Parece-me um tanto ou quanto presunçoso. Mas, porque não? O homem é Inglês, é o autor, por isso pode fazer e imaginar o que quiser. A comparação ao Dan Dare é impossível de desconsiderar e o próprio autor faz questão em referi-la como forte fonte de inspiração. É contada em tom de memórias, contém óbvias provocações e no final faz cair por terra o sonho com uma revelação tida como bombástica mas afinal muito fraquinha de previsível. O autor, que persegue a hegemonia Britânica durante toda a sua novela, termina com desconsolo e desilusão o inspirado sonho.

Orbiter é uma novela gráfica sobre as viagens espaciais, em especial um mistério que retorna ao planeta Terra na forma de um Space Shuttle que se julgava perdido. Começou muito bem, o desenho é bom, mas depois descamba e termina de uma maneira tipo Deus Ex-Machina, o que das duas uma: ou perdeu o fio à meada, ou não esteve para se cansar com um fim à altura. Embora eu tenha o Warren Ellis na maior consideração enquanto escritor que é, por vezes (e não são poucas) presenteia-nos com coisas destas. Se eu tivesse um tomate maduro à mão o Jogral tinha levado com um!


Terminado este, encetei numa viagem com o puritano imaginado por Robert E. Howard, Solomon Kane. O título “Solomon Kane, volume 1: The Castle of the Devil”, escrito por Scott Allie e com arte do Mario Guevara com o Dave Stewart, é fraquinho. Chegando a um dos reinos que constituem a actual Alemanha, faz-se companheiro de um personagem alegre e bonacheirão mas, no fundo, pilantra. Um barão amaldiçoado, uma esposa das arábias e demónios…sempre, claro. Não gostei da adaptação, talvez por ter lido o conto original que nos deixa mais envolvido no tenebroso mistério. Estou à espera que chegue o Solomon Kane escrito pelo Roy Thomas, este ir-me-á fazer apagar a má memória do anterior, sem dúvidas, e reavivar outras memórias, pois este último são reedições a preto e branco no mesmo formato das reedições da Espada Selvagem; o papel espera-se fraquinho, tipo jornal com forte cheiro a tinta…há quem goste!


“Waltz with Bashir”, ainda não vi o filme mas em BD é fenomenal, porque parece mesmo que estamos a ver um filme de animação, devido ao estilo de impressão utilizado, entre o “gloss” e o “mat”, assemelhando-se a película. As colagens estão igualmente fantásticas. A história centra-se num homem que persegue a sua memória, ou a falta dela. Tendo tomado parte na primeira guerra entre Israel e o Líbano, não se recorda do seu maior e mais aterrador acontecimento: o massacre dos Palestinianos em Beirute em 1982. Depois de uma conversa com um amigo que é assolado por pesadelos, percebe que apenas tem memórias muito vagas sobre esses tempos. Começa então a tentar lembrar-se recorrendo às memórias de outros camaradas de armas e também à ajuda médica. É mais um caso de síndrome pós-traumático, de quem se viu incluído num conflito que passe onde se passar e com quem for, deixa sequelas inultrapassáveis. É um recordar de uma guerra, com um certo mas curto distanciamento, que abre velhas feridas e alerta para os horrores momentâneos e duradouros de qualquer conflito.

Outro livro com o qual me distraí nestas férias foi com a introdução à “War of Kings” da Marvel. Optei pelo Tradepaperback (TPB) por não querer esperar por uma eventual edição Hardcover. “Road to War of Kings” abre uma nova saga, que vai buscar recentes acontecimentos no universo Marvel. Desde os destinos de Havok e Polaris, da anterior Majestrix, Lilandra Neramani, e dos Starjammers ao do actual Imperador do imenso e poderoso império Shi’ar, Vulcan. O que desencadeia esta “War of Kings” é a revolta, levantamento (embora eu prefiro o termo em Inglês: Upraising) dos poderosíssimos Inhumans. Criados pelos Kree para serem uma poderosa arma, cansados de serem acossados quer pelos Humanos, quer pelos seus criadores, quer por outra qualquer espécie alienígena (em especial pelos últimos acontecimentos narrados na saga “Secret Invasion” onde os Skrull tiveram o papel principal), o Rei dos Inhumans, Black Bolt, com toda a sua família (incluindo o seu genial e insano irmão) e súbditos pegam em armas e bagagens e abandonam a Lua (último repouso da sua magnífica cidade refugio, Attilan) e decidem uma incursão ao Império Kree, dizimando pelo caminho todos os que encontram: o remanescente em fuga da frota Skrull, patrulhas Shi’ar e claro Krees. É verdade! Aqui se vai ver os Inhumans como nunca foram vistos: a dar porradinha que até dói! Também já chegava de os ver a levar de todo lado e sempre a quererem ser os (des)equilibrados pacifistas cristãos que davam a outra face constantemente! Os últimos acontecimentos foram a gota de água: o ataque ao seu último reduto na Lua por Marines Norte-Americanos (no seguimento do roubo dos cristais de terragénese pelo Quicksilver) e, claro, do plano Skrull para a invasão da Terra. A guerra dos Reis adensa-se com a expansão desenfreada do império Shi’ar, derivada de um enfraquecimento geral de todos os reinos, impérios, guildas, repúblicas, etc., provocado pelo mega acontecimento Annihilation. Portanto, para quem delirou com a fantástica Annihilation e Annihilation Conquest, vai poder continuar a delirar com essa parte remota do Universo. Títulos como “Guardians of the Galaxy”, “Nova”, “Darkhawk” e outros farão parte desta nova aventura que culmina os títulos “Annihilation” e “A. Conquest”, “Uncanny X-Men/ X-Men: Deadly Genesis/ Rise and Fall of the Shi’ar Empire/ Emperor Vulcan”, “Secret Invasion: Inhumans” e outros.
Possas… nunca é fácil escrever sobre estas sagas da Marvel, tamanha e longínquas são as suas ligações. Não foi fácil, tive que pegar em alguns dos livros que aqui refiro para fazer um pequeno apanhado, sem spoillers (de maior).


Noutras leituras, continuei a ler a colecção B.P.R.D., com o décimo título TPB publicado, “ The Warning”. Não há muito a acrescentar ao número anterior: continua a busca pelo líder transformado em monstro; a Liz continua a ter as visões perturbadoras e desvenda-se um pouco do mistério sobre a identidade do personagem que visita Liz nos seus sonhos, cada vez mais reais. Basicamente, é uma série de sólidos créditos firmados, que conseguiu afastar-se do personagem que a lançou: Hellboy. Pessoalmente, acredito que deverá libertar-se deste ciclo onde se encontra o mais brevemente possível, pois arrisca-se a arrastar e a perder esses créditos tão brilhantemente ganhos e merecidos. Acredito que exista uma meta preestabelecida pelo autor, que sempre se demonstrou coerente. Aqui está uma pergunta para lhe colocar em Beja, no próximo ano.

Nestas férias outros livros houve, uns por acreditar que não mereçam mais do que uma referência, outros que vou guardar para outro post. Os que mereceram apenas uma referência, não será por serem fracos, mas mais por não se destacarem dentro das obras dos seus respectivos autores, ou na cronologia e história que seguem. “Red”, um “old school” do Ellis (imagem à direita); “New Avengers: vol. X”; “X-Factor: vol. I”; “Iron Man: vol. II” são alguns. Os outros que guardo para outros posts são: “Freakangels: vol.II”; “Seven Brothers”; “Mouse Guard: Fall, 1152” (estou à espera do “Winter 1152” – vol.II); “Dark Avengers” (pela curiosidade que possa eventualmente suscitar); “Foxtrot: Wrapped” (por trazer as últimas tiras diárias; daqui para a frente o autor só fará as tiras dominicais).Foram umas férias ricas em leitura. Agora aguardo o mês de Outubro e pelo lançamento de vários Absoluts e Omnibus que irão enriquecer ainda mais as prateleiras, ao contrário de mim.