terça-feira, 23 de setembro de 2008

BÉCASSINE, A MÃE DA "BANDE DESSINÉE"

Nariz de ervilha, carinha redonda, faces rosáceas, tamancos nos pés e guarda-chuva debaixo do braço, lá foi a ingénua e provinciana Bécassine viver, qual Cândido de Voltaire, as suas aventuras no Mundo. Objecto de estudos, como o do Historiador Bernard Lehambre em “Bécassine, une legende du siècle”, este personagem é de facto merecedor de tal, pois ela é a pioneira da mulher activa e moderna, que se multiplica em profissões, pratica desportos, faz fotografia, pilota automóveis, aviões, comboios e milita em programas humanitários como a Cruz-Vermelha (1ª Grande Guerra). Eu, embora seja um grande admirador do personagem, não sou o fã que é a bloguista Sheila Leirner, que assim a descreveu. Portanto não arranjei melhores palavras, daí ter descaradamente e praticamente transcrito as dela.

Bécassine é reconhecidamente a primeira heroína feminina protagonista na história da Banda-Desenhada. Criada quase que à pressa para, em 2 de Fevereiro de 1905, preencher uma página em branco de uma revista que tinha como alvo as moçoilas do início do século XX, “La Semaine de Suzette”, tornou-se num fenómeno de sucesso, pelo que essa página passou a ser obrigatória no semanário. Só em 1913 é que Bécassine teve direito a ser publicada em formato de álbum. Até 1939 foram publicados 25 álbuns, tendo em 1992 sido lançado o vigésimo sexto álbum que não foi publicado anteriormente devido ao início da Segunda Guerra Mundial. Em 1959 reiniciou-se a série, com outros autores (o primeiro escrito por Camille François e desenhado por Trubert; os outros dois escritos e desenhados por Trubert). No entanto, as aventuras vividas pela Bécassine na primeira série (que para além dos 25 álbuns ainda contou com mais dois álbuns “fora da série”) ainda hoje são reeditadas. Teve também direito a adaptação cinematográfica em 1939 e a uma longa-metragem de animação em 2001.

Os seus criadores foram inicialmente Jacqueline Rivière (escritora) e Joseph Porphyre Pinchon (desenhador). A partir de 1913, com a evolução para histórias mais estruturadas, a escrita passou a estar ao cargo de Caumery – pseudónimo de Maurice Languereau – um dos associados da Gautier-Languereau, editora responsável pela edição do semanário “La Semaine de Suzette”. Nessa altura foi revelado o nome do personagem: Annaïk Labornez. Todos os álbuns da série foram desenhados pelo talentoso Pichon, com excepção de dois: “Bécassine Chez les Alliés” (número três, de 1917) e “Bécassine Mobilisée” (número 4, de 1918) que foram desenhados por Edouard Zier. Caumery morre em 1941, mas o seu pseudónimo continuará a ser utilizado por outros escritores. Pinchon morre em 1953 e em 1959 Trubert retoma a série; apesar de talentoso, não logrou desenhar mais do que três álbuns.

Bécassine é, indubitavelmente, a precursora da Banda Desenhada Franco-Belga moderna. Marca profundamente a passagem dos contos ilustrados para a verdadeira Banda Desenhada, ou arte sequencial. O seu estilo de desenho, com linhas vivas, modernas e redondas, definiu a chamada “ligne claire” da qual “As Aventuras de Tintin” são, 25 anos depois de Bécassine, o mais bem conseguido e atingido resultado final (Jacques Martin, Pierre Jacobs, Ted Bennoit, Daniel Torres, entre outros, também são exemplares em empregarem esse estilo).
Bécassine é uma jovem empregadinha Bretã, costumizada no traje tradicional e é desenhada sem boca (embora o traje seja mais associado ao habitantes da província Francesa do Norte, Picardy, ela é descrita como sendo da Finistère, Bretanha). Basicamente é um estereótipo da imagem pela qual os Bretões de então eram vistos (ou imaginados) pelos citadinos. Ela é a rapariguinha humilde e de tratos simples da província, vista pelos olhos dos citadinos mais refinados de Paris (publico alvo da “Semaine de Suzette”). Ao longo da série, fruto do sucesso do personagem, é cada vez mais e mais favoravelmente retratada.

Apenas possuo um álbum desta verdadeira heroína e mãe da Banda Desenhada, o quinto, “Bécassine en Apprentissage” (ed.1919); está em excelente estado de conservação e é uma das jóias na minha colecção. Tenho pena de não ter um scanner de grandes dimensões para poder partilhar com vocês a imagem deste e doutros álbuns de maiores dimensões. Está na minha lista de compras a fazer, para poder trazer uma nova rubrica a este blog: Jóias da minha colecção…se calhar parece um bocado pretensioso, mas garanto-vos que não, tenho lá jóias que são de latão, mas para mim valem como o ouro.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

NOCTURNALS Vol I: BLACK PLANET AND OTHER STORIES.

Não faz muito tempo foi lançada uma edição especial que provavelmente passou despercebida aos leitores habituais de comics do nosso burgo: NOCTURNALS Vol I: BLACK PLANET AND OTHER STORIES. Nocturnals é uma série de enorme qualidade trazida até nós por um dos mais talentosos “one man show” da Industria dos Comics: Daniel Brereton (à esquerda em auto retrato datado de 1989). Escritor, ilustrador, pintor. É um dos últimos e já muito raros artistas completos que subsiste inteiramente pelos comics. Debutou em 1989, acabadinho de sair da Escola de Artes, com a galardoada mini-série “Black Terror” (Eclipse Comics); desde então nunca mais parou. O seu curriculum é invejável e extenso.

O Dan cria, desenha e pinta os seus comics de forma a serem por si só uma obra de arte quase sem paralelo. Cada prancha é transposta para o formato comics com generosas dimensões, o pormenor é meticuloso. É uma mistura de estilos, que por si só, tinha tudo para não funcionar. Ele é pulp, horror, novela Lovecraftiana, western, mistério, crime e eu sei lá mais o quê! Uma plêiade de géneros concatenados numa história que absolutamente nos deixa de boca aberta e olhos arregalados. A cor, o movimento único, os personagens saídos do imaginário colectivo, capturados e depois libertados no aparente caos desta série é só e só incrível. É impossível não concordar que o que parecia impossível de funcionar, afinal funciona…e de que maneira!
Doc Horror e os seus improváveis muchachos são as vedetas desta série. Os personagens habitam a noite do mundo das histórias e existem indetectáveis enquanto as pessoas normais dormem. Neste mundo, os humanos regulares não são expostos ao fantástico. As histórias dão-se ao abrigo da escuridão, fora do alcance da percepção, onde elas de facto pertencem. O autor partilha que o assombrava desde criança tudo o que se passava de noite, fosse algo de tão natural como uma sirene ou um cão a ladrar ao longe. Daí a única excepção ser o elemento criminal que poderá transparecer para o “nosso” mundo, pelo receio da perda do controlo que o herói, Doc Horror, por vezes padece. Mesmo assim, a tenebrosa escuridão é misteriosa e assustadora, e os Nocturnals nestas histórias vivem no mundo deles enquanto nós vivemos no nosso.

Este título limitadíssimo a apenas 23 livros assinados, numerados, em hard leather cover, com a capa pintada à mão pelo autor, é uma das maiores “jóias” dos comics nos últimos anos. Para quem não teve a sorte de conseguir adquirir esta jóia, tem a oportunidade de o adquirir numa outra edição limitada a cerca de 3500 números, também em hardcover e por um muito simpático preço (cerca de $30.00 USD), trazida até nós pela Olympian Publishing. Existes mais duas edições especiais: uma limitada a cerca de 500 números e outra com 1000 números.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

DEUS DEBAIXO DA MÁQUINA

É a tradução ad litteram da expressão Latina “Deus ex machina”. Esta expressão, no entanto, surgiu na antiguidade clássica helénica, muito utilizada no teatro, referindo-se a um improvável, inesperado ou inverosímil objecto, personagem ou situação repentinamente introduzido na tragédia e ou na comédia para deslindar um complicado e já difícil enredo. Foi de facto uma forma um tanto ou quanto fácil, mas ao mesmo tempo inteligente – por acudir aos menos atentos, ou aos menos mentalmente afortunados – de magnanimamente terminar e explicar a peça. Basicamente, no teatro Grego, este dispositivo consistia, no final de cada uma das peças, em fazer baixar um qualquer Deus (normalmente seria o mais adequado à exigência da situação) através de um guindaste até ao palco, onde por sua vez começaria a explicar e a deslindar a trama.
A expressão ainda hoje é utilizada, mas para indicar um qualquer desenvolvimento de uma qualquer história que não leva em consideração a sua desejada lógica e se torna, ou apenas é, tão inverosímil que permite ao autor terminá-la com uma situação improvável porém mais conciliadora. Deus ex machina também pode descrever alguém ou alguma coisa que aparece e resolve uma dificuldade aparentemente insolúvel; poderiam alguns considerar que figuras de proa na utilização deste dispositivo seriam os escritores Agatha Christie e Sir Arthur Conan Doyle, por exemplo, mas realmente não se enquadram, pois fundamentam motivos ao longo de toda a história preparando a apoteose de forma consolidada. Hoje em dia será muito pouco recomendável recorrer a este artifício, por ser demasiado “preguiçoso” e talvez demonstrar incapacidade da parte de quem escandalosamente o utilizar.
Deus ex machina também se caracteriza pela aplicação de uma revelação, dentro de uma história vivida por um personagem, que envolva realizações pessoais complicadas e ou perigosas e ou mundanas e, eventualmente, na sequência de eventos aparentemente não relacionados que acabam por conduzir ao ponto fulcral da trama principal (isto é muito observado na série Lost, através do que se conhece também como flash-back).
Deus ex machina não é exclusivo da ficção. Na vida real, os “heróis” estarão muitas vezes abrangidos pelo conceito, por razões já supra mencionadas.

Entendendo a expressão será provavelmente mais fácil ir de encontro à ideia do não muito original autor. Os conceitos que este autor recria são já muito batidos: o último homem à face de uma terra apenas povoada por mulheres; a guerra por um ponto de vista que não a dos homens; a politica e o providencial e inverosímil super-homem que a mantém limpa, ou menos suja; ou o mais misterioso, aparentemente desconexo ambiente, carregado de inverosímeis situações, personagens e objectos. Mas é na recriação destes conceitos que Brian Keller Vaughan acaba por ser brilhante, um mágico, segundo Brad Meltzer (consultor do FBI, da CIA e do DHS; co-criador de TV; premiado escritor de ficção e comics – "Identity Crisis"). Os seus textos absorvem-nos para a trama, pelos seus textos detalhados, inteligentes, por vezes apenas insinuantes, cheios de corpo, umas vezes acutilantes, outras, um marasmo de dúvidas. Não é realmente à toa que se tornou numa referência da escrita dos Comics e mais recentemente da televisão. Nos Comics colecciona sucessivas nomeações para os mais creditados prémios da Industria, tendo já arrebatado alguns. Títulos como "Y – The Last Man" (prémio Eisner best series 2008), "Ex Machina", "Runaways", "Ultimate X-Men"; “Pride of Bagdad”; e a sua estreita colaboração na escrita dos argumentos da arrebatadora série campeã de audiências “Lost”, fazem dele um dos Homens da actualidade. Vaughan já passou pelas principais editoras e já deixou o seu timbre em imensas e improváveis (pensaríamos nós) séries e personagens; desde a sua estreia com o "Cable" até "Ka-Zar", passando por um “What if?”, também no "Batman" e "JLA", até à "Buffy, the Vampire Slayer", entre muitos outros.

EX MACHINA é que me traz aqui. Já há muito tempo que andava intrigado pela série, quando soube do lançamento da edição especial em hardcover (ou cartonado, se preferirem) que compila os primeiros 11 números, decidi esperar. Longa foi a espera, mas acabou por compensar, pois a edição tem acabamentos muito cuidados e de extrema qualidade. No entanto é muito fraquinha quanto a extras; para quem gosta destes, nesta edição apenas terá a proposta original do autor para esta série, com alguns desenhos e estudos de personagens.
A história, para quem (como eu até há pouco tempo) desconhece (ia), passa-se no período consequente à tragédia do 9/11 e debruça-se no personagem Mitchel Hundred, o novo e independente Mayor de Nova York. Vaughan começa esta série não pelo princípio. Nós somos apresentados ao personagem principal pelo próprio, e já no fim do enredo. Segundo Brad Meltzer, na introdução, EX MACHINA começa com uma confissão – provavelmente uma desculpa – do terrível desastre causado pelo próprio Mitchel Hundred em 2005. Não começa como um Super-Homem, a sorrir e a salvar o mundo envolto na bandeira. Antes, ele lamenta-se tal Rei Lear, contando-nos secamente que “it may looks like a comic, but it’s really a tragedy.” Logo nesta primeira página, o autor, dá-nos logo o fim. Faz-nos uma promessa. Ele diz-nos – promete-nos – que se tivermos dispostos a ouvir, esta vai ser uma das mais devastadoras, horríveis, tragédias que alguma vez o olho Humano testemunhou. Ele garante-nos que o personagem por quem nós vibramos irá miseravelmente falhar. Irá ser uma carnificina. Este é o desafio: será que conseguiremos afastar o nosso olhar?! Afastar o nosso olhar da complexidade do ego do Mitchel Hundred; das nuances dos personagens que também habitam a história, como Kremlin, Bradbury, Mom, Zeller, e os outros? Não há dúvidas que esta é uma história de política. Não apenas politica, mas ciência politica no seu todo, institucional, do aparelho e seus constituintes, suas batalhas sobre as próprias condições e fraquezas. Também é a história de um “super-herói”, o primeiro do Mundo, “The Great Machine”.

Como qualquer leitor de comics (em especial) sabe, tudo descambaria num redondo falhanço se a arte que acompanha qualquer argumento – por mais brilhante ou genial que este possa ser – não estivesse à altura. A esta série, Tony Harris dá-lhe vida. Vida a sério. Tony Harris consegue captar tudo o que existe num ser humano e mesmo na cidade e resto do Mundo que o rodeia. A beleza, a fealdade, a juventude e a velhice são desenhadas sem meias medidas, apenas como as coisas e as pessoas são: imperfeitas, logo com autenticidade. Este artista de 39 anos, mas com cerca de 20 anos de experiência, já passou por todas as grandes casas da indústria dos comics desenhando séries e personagens bastante conhecidos de todos nós. Vencedor de dois prémios Eisner, um pela série STARMAN, outro por EX MACHINA, está agora a trabalhar para lançar uma série sua. Ficam aqui as imagens (fotografias) que serviram de modelo à criação dos personagens Bradbury, Kremlin e Mitchel.

Não menos importantes, embora raramente mencionados, são os responsáveis pela arte-final e pela coloração das obras. Portanto faço questão em mencioná-los aqui.
O responsável pela arte final desta série é o Tom Feister. Feister é já presença habitual na arte final de muitas séries de renome, caso dos Fantastic Four ou Iron Man, entre outras.
O responsável pelas cores é o JD Mettler. O JD também já tinha trabalhado para a Marvel e para a DC (anteriormente) e desde que chegou a esta série ganhou uma nomeação Eisner para melhor colorista e inúmeros convites (que tem aceite) para trabalhar com as maiores empresas nos mais famosos personagens até hoje criados.

EX MACHINA deluxe edition book one, assim como a série, são da responsabilidade da Wildstorm Productions, inprint da DC Comics, a Warner Bros. Entertainment Group.
É uma obra muito séria, mas o humor subtil também não falta. Para quem não gosta de política, talvez não seja a melhor escolha. Para quem gosta de se sentir desafiado a embrenhar-se num argumento complexo, então será muito generosamente recompensado. Em suma, leitores inteligentes precisam-se.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

LANÇAMENTOS BD DA ASA PARA SETEMBRO

Não acredito que tenha sido o único, mas fiquei bastante surpreendido quando fui à caixa de e-mail deste blog e vi que tinha recebido uma mensagem da ASA com a divulgação dos próximos lançamentos desta em BD. Não sou apologista de fazer publicidade (gratuita, isto é), pois todos os posts aqui colocados são de autores, artistas e livros que já li e, na esmagadora maioria, possuo. Mas como neste caso são de manifesto interesse geral, porque serão lançamentos para breve, vou aqui inclui-los.

Claro que não posso deixar de dizer que estou muito desapontado com a ASA. Se pensavam que ir-me-ia limitar a colocar os próximos lançamentos, pois temos pena! Quando me fez acreditar que o panorama da BD em Portugal iria sorrir para todos os bedéfilos, fez exactamente o contrário. Sinto em relação à ASA como alguém se sentiria se tivesse entregue confiança e esperança e acabou traído depois de lhe terem prometido mundos e fundos (mas não sou rancoroso - pelo menos, não muito - portanto ainda se podem redimir). Desde séries que foram adquiridas qual garganeiro que as açambarcou e em cima delas se sentou, a séries que ficaram na prateleira com desculpas muito pouco credíveis quanto a não serem digitalizadas e ser muito difícil encontrar quem trabalhe com fotolitos (sempre pensei que a ASA tivesse uma tipografia!), a edições de qualidade e interesse bedéfilo perfeitamente absurdas e finalmente a outras desculpas relacionadas com contratos pendentes para a publicação do titulo da série Valérian que faltou editar em Português (que estariam pendentes devido à falência da Meribérica…?!). Agora creio que se vão atrever e explorar novas áreas da BD – pelo que vejo – e acredito que não optaram pelos melhores títulos de Manga; mas não me posso pronunciar muito, pois não domino actualmente o imenso universo Manga, deixarei isso para os eventuais comentadores; ao mesmo tempo, espero estar enganado e que tenham muito sucesso, sinceramente. Dois títulos Shouju (para miudinhas) e um Shounen (para miúdos e muito jovens adolescentes). Não percebo como é que chegaram a esta fórmula! Será que fizeram um estudo sério ao mercado Português e suas preferências? Ou será que apenas pensaram que os miúdos vão todos a correr comprar estas mangas porque noutros países (alguns) são um fenómeno? Se se vendem Astérix, Lucky Luke e Marsupilami para os mais jovens é porque são os Pais destas que os compram e porque são uma coisa segura (os Pais já os leram e lembram-se que gostaram muito) que não requer muita imaginação de quem compra e fica relativamente em conta. Não sei se os Pais terão imaginação, ou vontade, para adquirirem mangas para os filhos e também para os filhos dos outros. Faltam Seinen e Josei, já para não falar em Hentai que apesar de mais escabroso teriam de certeza muitos adeptos. Talvez aqui tivessem mais sucesso imediato. Se estão a tentar “educar” uma nova geração, então boa-sorte.
Já agora, quero agradecer (sem qualquer tipo de ironia) a quem me enviou o e-mail, pois evidencia uma preocupação, por parte de quem o fez, em divulgar o trabalho da Editora: o site e respectivas news letters continuam a ser uma bela trapalhada. Um follow-up das séries que começaram a publicar e nunca mais tiveram continuação também era muito bem-vindo, ainda mais quando começam a publicar séries de longa duração (será que têm credibilidade para lhes vermos continuação?!).

Vejamos, então, os próximos lançamentos previstos para o Mês de Setembro, dos quais destaco, pessoalmente, o novo álbum do Miguelanxo Prado, autor que tem uma veia especial para captar mundaneidades e levá-las ao rubro do cúmulo e absurdo (este autor tem, para mim, um dos melhores trabalhos que eu até hoje li: Fragmentos da Enciclopédia Délfica).


WARCRAFT 1 TRILOGIA DO POÇO DO SOL
Warcraft, a Trilogia do Poço do Sol, relata as aventuras de kalec, um dragão azul que assumiu a forma humana para investigar um poder misterioso, e de Anveena, uma bela rapariga que guarda um segredo de encantamento…Recriando o mundo de Azeroth, trata-se de uma aventura inspirada no célebre jogo em que dragões, Orcs, Elfos e Mortos-vivos se enfrentam numa saga original e inédita.
Richard A. Knaak, Argumentista.Chicago 1961. Além do seu trabalho em Warcraft: A Trilogia do Poço do Sol e Ragnarok, Richard A. Knaak é autor de 27 romances fantásticos do NY Times e de mais de uma dúzia de contos, incluindo “The Legend of Huma” e “Night of Blood” para a Dragonlance, e The Demon Soul para Warcraft. Escreveu também a popular série Dragonrealm e várias obras independentes. O seu trabalho foi publicado em várias línguas e, recentemente, em russo, turco, búlgaro, chinês, checo, alemão e espanhol.
Kim Jae-Hwan, Desenhador. Jae-Hwan Kim nasceu na Coreia, em 1971. Os seus mais conhecidos trabalhos de Manga incluem Rainbow, Combat Metal HeMoSoo e King of Hell (cujo título, na Coreia, é Majeh), uma série que continua a ser publicada na TOKYOPOP. Actualmente, Jae-Hwan Kim vive e trabalha na Tailândia.
Autores: Richard A. Knaak e Kim Jae-Hwan
Colecção: Shounen
Páginas: 168
Preço: 7,50 Euros



DRAMACON 1
Quando Christie, uma escritora desconhecida assiste ao seu primeiro festival de anime, vê nisso a oportunidade de promover a Manga que tinha realizado com o seu namorado, desenhador. Mas quando inesperadamente se interessa por um misterioso cosplayer, a história complica-se. O que fazer quando nos apaixonamos por alguém que, em breve, estará a milhas de distância?! Svetlana Chmakova, dá-nos uma perspectiva pitoresca e romântica dos bastidores de um festival de anime – onde, por vezes, duas pessoas podem ser uma multidão!
Svetlana Chmakova nasceu e cresceu na Rússia. Mudou-se para o Canadá quando tinha 16 anos. Sem grande preocupação, frequentou o Sheridan College tendo, mesmo assim, obtido o diploma do curso de Animação Clássica de três anos (Sim, continua à espera de que eles descubram que cometeram um erro e que lho retirem). Actualmente, Svetlana é uma autora independente cujos trabalhos, na sua maioria, nada têm a ver com animação. Ela suspeita que isso se deva ao facto de agora a sua alma pertencer à BD. Svetlana desenhou livros de “como fazer Manga”, manuais de RPG, criou brinquedos, divertimentos, ilustrações e capas para livros. Actualmente, trabalha em dois comics online, do género da Manga: Chasing Rainbows e Night Silver, lançou recentemente na famosa Yen Plus a série Night School, que é do tipo Buffy the Vampire Slayer e Harry Potter, foi recebida com grande efusão por parte dos fans e adivinha-se como um enorme e continuado sucesso. Os passatempos favoritos são: dormir, ler mais BD do que é aconselhável para a carteira e lutar com o gato da família pela ocupação da cadeira. Para descobrir mais, por favor, visite o site: http://www.svetlania.com/.
Autora: Svetlana Chmakova
Colecção: Shoujo
Páginas: 184
Preço: 7,50 Euros



A PRINCESA E O PÊSSEGO
Amanda tem nove anos e é uma menina solitária que deseja desesperadamente um animal de estimação. Quando escolhe um furão e lhe chama Pêssego, Amanda consegue uma coisa que mais ninguém tem na escola! Há apenas duas regras: Amanda tem de cuidar da Pêssego e a Pêssego não pode morder-lhe nunca! Quando a pedante Pêssego vê a mão da Amanda – um monstro de cinco cabeças aos olhos de um minúsculo furão com complexo de princesa – morde para se defender! O que fará Amanda?
Autores: Lindsay Cibos e Jared Hodges
Colecção: Shoujo
Páginas: 160
Preço: 7,50 Euros




DE PROFUNDIS
Era uma vez uma casa no meio do Mar. A casa tinha uma torre voltada a poente, uma escadaria que se estendia pela água adentro e, a Levante, uma árvore que floria entre Março e Abril.
Nessa casa viviam, apaixonados, uma mulher que tocava violoncelo e um pintor fascinado pelo Mar e pelas suas criaturas, pelos segredos que as suas profundezas guardavam, pelos seres magníficos que na sua imaginação o povoavam e pelas margens das terras longínquas do outro lado do mundo às quais, se se descortinasse o rumo, as suas águas podiam conduzir.
Miguelanxo Prado Argumentista, Desenhador. Espanha, 1958.Estudou arquitectura e antes de se votar à BD dedicou-se à pintura e à escrita. Revelação da BD espanhola em 1988 com o seu primeiro álbum Mundo Cão, a sua carreira tem sido recheada de sucessos. Em 1993 publica o álbum Traço de Giz, que recebeu o prémio dos livreiros BD 93, o Alph-art do melhor álbum estrangeiro de Angoulême e o prémio especial do Festival de Sierre em 1994.Em 1995 estreia-se na BD infantil com a adaptação da célebre obra de Prokofiev (1936) “Pedro e o Lobo”.Da sua versátil carreira fazem parte outras obras notáveis como Fragmentos da Enciclopédia Délfica, Stratos, Crónicas Incongruentes, Quotidiano Delirante (3 volumes) e Tangências.
Autor: Miguelanxo Prado
Páginas: 96
Preço: 19 Euros

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

MORT WALKER

É sem dúvida um dos melhores cartunistas de todo o sempre, os seus personagens marcaram e marcam gerações, desde os mais conhecidos da série Beetle Bailey (Recruta Zero) aos menos conhecidos Boner’s Arc (Arca de Noé).
Como quase todos nós, travei conhecimento com este grande nome dos cartoons através dos gibis brasileiros que até nós chegavam com pelo menos seis meses de atraso (e apenas se houvesse sobras no mercado brasileiro). Eram os anos 70 e os gibis da RGE (Rio Gráfica e Editora) rivalizavam com os da Editora Abril. As histórias eram trabalhadas pelos estúdios brasileiros (com aprovação do Mort Walker) que aproveitavam o fenómeno de publicações das famosas tiras nos Jornais, portanto ainda não tinha mesmo tomado contacto absoluto com o trabalho original do autor. Só mais tarde, com as compilações em formato de tiras (comic strip) é que me assombrou (embora ainda fosse demasiado imaturo para o reconhecer) o seu trabalho genial e o seu maravilhoso dom em nos fazer rir e pensar. A RGE foi a pioneira na publicação do Recruta Zero em língua Portuguesa, mas, de facto, é à "Saber SA, Expansão Industrial e Comercial da Cultura" que se deve a expansão e grande volume de vendas no Brasil com um gibi em formato livro (inventado por Savério Fittipaldi) que dava pelo nome "Zé, O Soldado Raso". Ao contrário dos da RGE, só tinha material original, isto é, made by Mort Walker. Vendia entre 40 a 50 mil exemplares, enquanto os da RGE (actual Globo) "só" vendiam cerca de 12000. Figurou nos nossos jornais há já algum tempo: lembro-me de o ver no “A Capital” e no “Correio da Manhã” quando tinham a boa prática de publicarem tiras.
Nascido em 1923 na cidade de El Dorado no estado do Kansas, mal sabiam os Pais que iriam trazer um tesouro que nos faria ir a todos mais além do que a Dorothy foi (sem querer descurar o também genial Lyam Frank Baum). Prestes a completar 85 anos de idade, Addison Morton Walker é ainda hoje um dos mais populares cartunistas em actividade, com os seus personagens a serem vedetas nas funny pages de cerca de 3000 jornais por esse Mundo fora. Mort Walker detém o recorde do cartunista com o maior número de jornais a publicarem os seus desenhos.
Este seria outro post monstruoso se eu me deixasse levar pela minha paixão pelo autor, portanto tentarei ser breve mas conciso.
Mort Walker começou a desenhar desde muito cedo, aos 11 anos de idade conseguiu ver publicado o seu primeiro cartoon, tendo sido remunerado. A sua paixão pelo género surgiu das suas muitas leituras dos agora clássicos. Milton Caniff (Terry e os Piratas) e Frank Willard (Moon Mullins) foram as suas principais influências. Começou aos 12 anos a coleccionar originais, o que o levou a alcançar, anos depois, o maior acervo do género no Mundo. Arrepiando história, em 1942, aos 19 anos, entrou para o exército e aqui a sua caminhada para o sucesso ganhou maior fôlego, pois foi através desta experiência que adquiriu os conhecimentos necessários para dar vida ao seu maior sucesso, Beetle Bailey. Foi em 1950 que criou Spider (imagem à esquerda), um estudante universitário calão, strip adquirida pela King Features Sindycate. Foi um flop pois não conseguiu ser publicado em muitos jornais (para ter sucesso uma tira teria que ser publicada em pelo menos cem jornais). A King Features estava prestes a cancelar o contrato com o artista quando se deu o início do conflito na Coreia. Aí, Mort fez o jovem Spider, já com o nome de Beetle Bailey, ingressar no exército. Foi o início da caminhada para o sucesso. Depressa se fez notar, de tal maneira que o jornal do exército (Stars & Stripes) também adquiriu os direitos de publicar o herói. Foi exactamente com esta passagem pelo Stars & Strips que o Mort Walker e o seu Beetle Bailey foram catapultados para o absoluto sucesso; isto porque o jornal, ao fim de algumas tiras, decidiu cancelar a publicação por achar que denegria e ridicularizava a imagem dos oficiais em geral. Tal foi a cobertura mediática da medida que fez disparar as vendas dos direitos da publicação da tira noutros jornais. A tira e seus personagens geraram sempre muita discórdia em variadíssimos meios da sociedade Norte-Americana: fosse por dar uma imagem estereotipada dos Negros (Tenente Mironga, Lt. Flap no original), fosse pela imagem das mulheres (Dona Tetê, Miss Buxley no original), ou fosse pela imagem estereotipada dos jovens do interior, ou mesmo dos jovens mentalmente retardados (Dentinho, Zero no original), entre muitas outras. Tiras censuradas foram mato (Ex: Miss Buxley em biquini); no entanto fez um trabalho para um editor Sueco onde a própria Miss B. aparecia nua…um editor Norte-americano viu-a e pediu-lhe para a editar nos EUA em edição limitada: esgotou em menos de nada!
Quando a Guerra da Coreia terminou, Mort achou que a imagem do soldado já não se coadunaria com os novos tempos, então trouxe o Beetle Bailey para casa e criou-lhe uma família. Foi uma cartada aparentemente mal jogada, pois os milhões de fans exigiram o regresso do jovem recruta ao quartel (Swampy) comandado pelo inesquecível General Dureza (General Halftrack), o que aconteceu logo ao fim de apenas duas semanas. “Aparentemente mal jogada”, mas apenas aparentemente, de facto a criação da família do Beetle Bailey deu origem a um spin-off de estrondoso sucesso: Hi & Lois (A turma da Zézé - imagem à esquerda). Esta nova série de cariz familiar foi e ainda é uma das tiras de maior publicação no mundo dos periódicos, nas suas páginas dedicadas aos Funnys e aos Comics, sejam diárias ou dominicais (normalmente a cores e de página inteira). Eram os anos 50 e as famílias em geral retratavam-se nas cenas dos seus simpáticos personagens. Personagens que ao longo dos anos evoluíram sempre a par com os tempos. É com Hi & Lois que começou uma parceria de grande sucesso: primeiro entre Mort Walker (textos) e Dik Browne (desenho), depois com os filhos de ambos. Dik Browne posteriormente criaria o famosíssimo Hagar o Horrível, que é, desde a morte de Dik em 1989, continuada pelo seu filho, Chris Browne. A série Hi & Lois é agora criada por Brian Walker, Greg Walker e Chance Browne.
Outra série de algum sucesso (pouco conhecida entre nós, excepção feita ao Brasil que a viu publicada pela Abril) foi “Boner’s Arc”. Contava as desventuras de um capitão de uma arca de Noé que era muito pouco respeitado pela bicharada e pela sua própria mulher (o que era recíproco, por sinal). Fica aqui o cross-over da série com o Beetle Bailey. Mort assinava esta série com o seu primeiro nome, Addison, devido ao facto de o King Features Sindycate ter achado que já assinava demasiadas tiras com o seu usual pseudónimo.
Entre os seus trabalhos mais apreciados pelos próprios cartunistas e todos aqueles que se querem iniciar na arte são as obras “Backstage at the Strips” e “The Lexicon of Comicana”. A primeira reflecte um olhar pessoal do autor pelos bastidores da criação de comic-strips e a segunda faz um apanhado de todos os termos criados pelo Mort e que devem ser usados na elaboração de uma comic-strip.
No inicio da década de 60, em conversa com o seu amigo Dik Browne, surgiu-lhe a dúvida existencial da razão pela qual os cartunistas não terem o respeito merecido pelo seu trabalho. Dik disse-lhe que era por não terem um Museu onde pudessem exibir os seus trabalhos. Walker que era dono de uma fabulosa colecção sobre o tema decidiu criar um. Depois de várias localizações, a última em Boca Raton na Florida, encontra-se agora fundido com a Universidade do Ohio e está localizado em Columbus. Vejam os links: http://drawn.ca/2008/07/17/mort-walkers/ e http://www.cartoon.org/. A imagem é a da Hall of Fame do Museu e tem o nome do famoso mediashark William Randolph Hearst. A título de curiosidade, o magnata fazia questão de ser ele a aprovar todas as tiras que eram publicadas nos seus jornais, a tira do Beetle Bailey foi a última que pessoalmente aprovou.
Outras situações curiosas poderiam aqui ser descritas, mas como não quero me alongar mais deixo apenas mais duas:
Em 1952 ajudou um colega seu que não conseguia ver as suas tiras publicadas, o seu nome e personagens? Charles Schultz e os seus Peanuts!
O private Beetle Bailey só mostrou os olhos uma vez numa tira onde ainda era apenas o universitário calão (esta tira nunca foi publicada num Jornal, apenas é possível vê-la nas edições especiais sobre o personagem e seu autor; a imagem em baixo foi retirada do livro da L&PM "O Melhor do Recruta Zero Vol.1"); na revista MAD de Abril de 1969 tiraram-lhe o chapéu e lia-se na testa “Get out of Vietnam”. Personagens como Hi & Lois Flagstone (com Dik Browne), Sam & Silo (em co-autoria com Jerry Dumas), Sgt. Orville P. Snorkel, Otto, Plato, Zero, Gen. Halftrack, Martha Halftrack, Miss Buxley, Miss Blip, Bunny, Killer, Cookie, Lt. Sonny Fuzz, Rocky, Cosmo, Cpt. Sam Scabard, Major Greenbrass, Lt. Jack Flap, Julios, Dr. Bonkus, assim como as suas participações filantrópicas nas mais variadíssimas lutas contra os mais variados flagelos, farão sempre parte do nosso colectivo. Actualmente a tira é trazida até nós por um dos nove filhos do Mort, Greg Walker, no entanto todo o trabalho do estúdio ainda é supervisionado pelo Mort.
Para quem quiser ler mais, aconselho que adquiram o maravilhoso livro biográfico do Mort Walker: “Mort Walker’s Private Scrapbook”. As comic-strips do Beetle Bailey são normalmente reeditadas todos os dois anos, brevemente sairá uma com os primeiros anos do personagem em hardcover e poderá ser adquirida na Amazon.com; também será possível adquirir no eBay a série limitada editada pela Dark Horse com quatro títulos disponíveis (Miss Buxley, Gen. Amos T. Halftrack, Beetle Bailey e Sgt. Snorkel), cada um traz uma figura de vinil (não confundir com as valiosíssimas Syrocos – ver imagem das reedições Syroco elaboradas pela YOE!Studio). Outras como a Boner’s Arc serão muito mais difíceis de encontrar, tentem o mercadolivre.br. A “Hi & Lois Sunday Pages” também se podem encontrar na Amazon. Vejam o link: http://www.mortwalker.com/ para mais informações.

Com a máxima do inesquecível Beetle Bailey me despeço,

“Never let to tomorrow what you can do the day after.”