sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ŌOKU: THE INNER CHAMBERS


“Ōoku” é uma série que me deixou um bocado reticente em começar, pela sua inerente característica alcoviteira e, também, pela já gasta fórmula que a autora escolheu para lhe “trocar as voltas” (já lá irei). Mas, depois de pesquisar o que era o Ōoku fiquei bastante curioso quanto à forma em que a autora se propôs abordá-lo.

O que era o Ōoku? No ano de 1607, no início da era do período Edo (24-03-1603 até 03-05-1868), também chamado período Tokugawa, em que o Japão foi dominado por este Shogunato, o Shógun Tokugawa Hidetada, segundo Shógun deste período, filho terceiro do primeiro Shógun (Tokugawa Leyaso), decidiu criar uma ala em que residissem todas as mulheres ligadas ao Shógun. Nesta ala, embora conotada como um harém, residiam também a mãe e a esposa do Shógun. No Ōoku era proibida a entrada de homens adultos que não fossem a acompanhar o Shógun; este entrava no Ōoku por um corredor com o nome de Osuzu Rōka (“passagem dos sinos”), conhecido assim devido ao som dos pequenos sinos tocados que assinalavam a passagem do senhor, e todos tinham que se prostrar perante a sua passagem e olhá-lo era crime capital. As influências sobre o Shógun pela proximidade a este daquelas que no Ōoku residiam instituíam-no como um local de Poder. A intriga era uma constante. A responsável pelo Ōoku tinha um cargo com importância e consequente influência no nível da de um Alto Conselheiro (Rōjū), um dos mais altos cargos governamentais no período Tokugawa; durante este período o maior número simultâneo de Rōjū foi de cinco. O Ōoku estava desligado do resto do mundo japonês por decreto do Shógun, tinha leis e regras próprias e quem nele entrava só poderia sair, temporária ou permanentemente, com autorização expressa do próprio Shógun. O Sistema Ōoku durou por aproximadamente 200 anos.

 Depois de ler os cinco volumes que até agora estão disponíveis pela Viz Media, posso escrever que a série tem-me agradado no geral, e em alguns pontos é bastante interessante. A troca de favores sexuais seja pela prostituição seja pelo próprio casamento, ausente de amor e pleno de interesses, até à pornografia, são uma constante Histórica na sociedade. As mulheres, invariavelmente carregam a inexorável brutalidade consequencial desta verdade. Esta série, “Ōoku, The Inner Chambers” de Fumi Yoshinaga, inverte o objecto dessa verdade. A troca de posições dos géneros e respectivos papéis na então sociedade feudal japonesa é curiosa, mas com alguns mal explicados ou mal justificados acontecimentos, segundo algumas críticas que li. Presumo que essas criticas por sua vez pressupõem que tais mudanças de regime teriam que acompanhar uma mudança substancial da percepção da sociedade por parte da população masculina, para que de facto tornasse verosímil e mesmo possível tal “revolução” social, o que não acontece. Neste período Edo alternativo, a autora cria uma situação de flagelo que afecta apenas os homens, uma doença a que chama Varíola Vermelha matando 75% da população masculina ao longo de 80 anos. É uma fórmula gasta, já utilizada por várias vezes por outras autoras no passado e recentemente revisitada noutra série de comics, se bem que pela pena de um homem, Brian Vaughan em Y:The Last Man (é desenhado por uma mulher, Pia Guerra), mas totalmente assente nos textos originais de uma mulher, Mary Shelley (ver post neste blog em http://refensdabd.blogspot.com/2008/11/y-last-man-deluxe-edition-book-1.html). Esta, não escreverei obsessão, mas mania de certas autoras em matarem os homens todos, ou grande parte deles, incomoda-me um bocadinho…só um bocadinho. Transformar o mundo num matriarcado. Tudo bem, admito ser plausível e até dou à palmatória o desejo que têm nisso. Fumi Yoshinaga não se preocupa muito em explicar concretamente como é que, pese a redução drástica do número de homens, as mulheres mantêm o poder de facto na vez dos primeiros, quando estes ao fim de 80 anos ainda não assumem essa mudança de regime. Isto porque, segundo a minha leitura, não existiu nenhuma alteração de “regime” de facto, apenas uma necessidade de ajustar a sociedade ao flagelo. Assume-se um segredo dentro do Shogunato (seria um spoiler dissertar mais sobre este). De tal maneira, que o ajuste é ele também um segredo na figura do seu expoente máximo, o Shogunato, que não pode transpirar para o estrangeiro e seus representantes, para não enfraquecer a posição do Japão perante o resto do mundo patriarcal.

Acredito que Fumi Yoshinaga propositadamente não quis saber em solidamente assentar o pressuposto, mas não é consistente na sua aparente escolha à medida que os enredos se deslindam (cá está, seria um spoiler).
 Se ela não o quis fazer eu admito, num salto de fé, que as coisas neste mundo alternativo são assim com uma razão credível para o serem, apreciando apenas o mundo criado pela autora sem questionar a verosimilidade da sua existência, por vezes assumida e por vezes turva. Assim, os enredos tornam-se muito interessantes e bastante curiosos, tornando a leitura despreocupada, fácil e diferente daquilo que estamos habituados na Manga ou BD em geral. A linguagem formal e “à antiga”, na versão inglesa traduzindo o Nihongo feudal por um Inglês Vitoriano falso, assumem um papel importante que serve o propósito de melhor nos transportar à época, e, mesmo assim, a leitura é fácil, fluída.

 O enredo tem uma história de fundo que tem sido transversal a todos o volumes, acompanhando o segredo do Shogunato, o como e o porquê desse segredo, assim como várias pequenas grandes histórias que enriquecem, substanciam, e acima de tudo revelam o mundo alternativo deste Ōoku.
O desenho é muito seguro, alterna o estilo “realista” com algumas expressões faciais exageradas bem colocadas.

Em suma, é uma leitura interessante, adulta, que nos prende à narrativa. Não sei se não cairia na tentação de a classificar como um Shoju invertido (esta inventei agora!). Merece bem as críticas muito positivas que tem tido. Eu recomendo-a a todos que gostem de temas mais adultos, mais literários. 






Na senda de outras transposições ao grande ecrã, também esta série terá a sua.

3 comentários:

verbal disse...

Estás mergulhado na profunda cultura manga. Não sei não se os teus textos já não constituiriam um belo livro sobre manga. E para quando um mergulho em profundidade na bd franco-belga??

refemdabd disse...

Fosga-se...um comentário. Já fui largar um foguete. É a paga por deixar este blog às moscas por tanto tempo.

Ando a prometer-me comprar uma impressora com scaner faz imenso tempo. Assim que o fizer, optarei por pequenissimos posts com as capas da minha pequena colecção. Aí terei muita BD F/B.

Abraço e muito obrigado por comentares ;)

verbal disse...

O Natal está aí... venha de lá essa impressora e os consequentes posts sobre bd-fb! :)

PS Em Janeiro combinamos um lanche/ajantarado cá em casa.

Abraço