quinta-feira, 25 de março de 2010

E AGORA...MANGÁ!



Vestido à Indiana Jones, de catana em riste a cortar lianas, a afastar as monstruosas teias de aranha e dar pontapés nas imensas Tarântulas que saem dos seus ninhos no chão, entro eu neste blog mais um batalhão de “mulheres-a-dias”. Se ainda houver alguém aí, que vá dando uma olhadela neste cantinho quase apodrecido, cuidado com os ratos!

Konitchua! É assim, rendi-me ao Japonês! Tinha que acontecer, mais tarde do que cedo é verdade, mas já está! E agora?! Se o vício já me custava os olhos da cara, como é que vou suportar os custos destas novelas terrivelmente adictas? A culpa é do Bongop e do Mário Freitas (Kingpin). A minha esposa irá “falar” com vocês em breve.
Passei na Kingpin of Comics, na rua Quirino da Fonseca em Lisboa (junto à Alameda D. Afonso Henriques) e apaixonei-me pelas estatuetas Ikki Tousen (eu sei, eu sei: tarado!)… e lá fui eu ao e-bay gastar uns dólares nas fabulosas Yamato. Mas não saí da Kingpin sem experimentar da “droga”, entre outras, que lá vendem: Mangá (http://en.wikipedia.org/wiki/Manga).


O meu conhecimento de Manga era tão parco que se resumia ao “Akira” e à “Mother Sarah” (este último, apenas li os primeiros três volumes editados pela desaparecida Meribérica), ambos da autoria do grande Katsuhiro Otomo, tendo o segundo arte do magnífico Takumi Nagayaso. Embora tenha já uma considerável colecção de Animé (cinema de animação Japonês), de Mangá praticamente nada conheço. Uma incursão, via Correio da Manhã, no volume 19 da colecção da BD de Ouro, no absorvente e introspectivo Jiro Taniguchi levou-me a considerar ler mais Manga, mas não tinha passado de uma intenção até há bem pouco tempo.
O Mário Freitas (que tem impulsionado a leitura e a divulgação do estilo com recentes certames) aconselhou-me a leitura de um magnífico “20th Century Boys”, um Seinen do celebrado mangaka Naoki Urasawa (muito conhecido pelos aficionados no estilo pelo título “Monster”). É um título considerado de ficção-cientifica (pese o facto que só vou no segundo volume e ainda não vi nada que justifique o género) que referencia abundantemente os anos 60-70 e que se debruça num grupo de amigos de infância e o clube por eles criado. Anos mais tarde, quando já trintões, são confrontados com o símbolo por um deles criado e por todos adoptado enquanto emblema do clube e estranhos acontecimentos associados: o desaparecimento de uma família; a morte de um velho amigo; e o aparecimento de uma seita supostamente religiosa liderada por um estranho e misterioso personagem que se intitula por “Amigo”. Todos estes acontecimentos convergem na trama que se vai desenrolando a um bom e muito bem escalonado ritmo, com uma apaixonante exploração dos imensos personagens envolvidos. Embora só tenha lido os primeiros dois volumes, o até agora verosímil enredo associado a uma excepcional e divertida arte realista trouxeram-me para o mundo da Manga com grande curiosidade para ler mais. Por tal, ter já encomendado os seguintes e já disponíveis quatro volumes em Inglês da Viz Media não será estranho a quem já é um fã e conhecedor de Manga.

Enquanto espero pelos seguintes volumes dos “20th Century Boys”, estou a ler, em simultâneo, “Vagabond” e “Pluto”.

Do dia para a noite, o título Seinen “Vagabond”, publicado também em Inglês pela Viz Media (Vizbig edition – três volumes compilados num só), é um épico Histórico, baseado na obra de Eiji Yoshikawa sobre um fantástico Samurai, “O” Samurai por excelência: Miyamoto Musashi. Este herói da História japonesa simbolizou o auge do Bushido (o caminho do guerreiro), no qual um homem com uma espada na mão representava o máximo da realização individual. Tendo vivido entre o final do séc. XVI e o início do séc, XVII, na era “Tokugawa” (poderosa família “Daimyo” descendente do Imperador Seiwa, no séx. IX), numa época já minada pelo poder da arma de fogo, era um verdadeiro senhor do Bushido. Ao contrário de muitos espadachins da época, que procuravam reconhecimento pelo confronto em duelo, Musashi procurava aprimorar a sua técnica. Fê-lo com distinção, segundo a lenda nunca foi derrotado em combate apesar de ter defrontado mais de sessenta adversários. A sua técnica era infalível e até hoje persiste no Kendo (Kenjutsu), numa disciplina chamada de Niten Ichi Ryu. “Vagabond”, da autoria de Takehiko Inoue, conforme já o escrevi, baseia-se no romance de Yoshikawa e é um belíssimo Manga onde a escrita é fluida entre os pensamentos intimistas do Samurai filósofo e a descrição de uma vida menos gloriosa daquela relatada nas lendas e no próprio romance de Yoshikawa. O desenho é realista, aproximando-se mais do estilo Europeu; é apaixonante e arrebatador nos cenários e não é confuso (se me permitem a falta de experiência na leitura de Manga) nas sequências de luta. Recomendo vivamente a quem goste do género histórico e excelentes cenas de acção.

No género da ficção-cientifica pura e dura cheguei a um “confronto” de gigantes: “Pluto: Urasawa X Tezuka”. Sendo um já antigo fã de Animé, obviamente já conhecia Osamu Tezuka (na imagem, num selo comemorativo com os seus mais famosos personagens), o criador do inesquecível Atomo (Astro Boy) e de Kimba, o leão branco. Uma vez mais Urusawa, já que tenho estado a gostar tanto do “20th Century Boys”, e como sempre gostei do Astro Boy do grande Osamu Tezuka, senti alguma curiosidade em ver qual seria a visão “actualizada” e repensada pelo Urusawa, supervisionada pelo filho do já desaparecido Tezuka. Este só agora o comecei a ler e tem demonstrado ser uma versão interessante da história original “The Greatest Robot on Earth”. Escrevo apenas que está a ser bastante agradável de ler enquanto adulto, o original Astro Boy é mais infantil e já não me acende a faísca de outrora.
Em lista de espera, na prateleira, estão “Nausicaä, of the valley of the wind” e “Gantz”. O primeiro é um trabalho em sete volumes de um dos gigantes de Animé, Hayao Miyazaki, que eu também faço intenções de trazer aqui…veremos se passará disso! O segundo poderão ler os magníficos posts em http://bongop-leituras-bd.blogspot.com/ do meu caro e ilustre amigo Bongop.


Sayonara (, Zetsubou-Sensei)…que é outra já na calha, hehehe! Alguém que me pare...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

"HALL OF FAME" da BANDA DESENHADA

São desenhos de um autor que nunca viu o seu trabalho publicado em Portugal no formato de álbum: Philippe Druillet. Simplesmente inacreditável! Claro que o nosso mercado hoje é senão uma sombra daquilo que já foi. Mesmo nos tempos idos de uma maior penetração da BD mais, escrevamos assim, elucidada, era complicado trazer determinado tipo de autores, pelo estilo mais arrojado e mais dedicado a um connesseur de BD. Mesmo assim houve exemplos de arrojo por parte dos editores do género em Portugal, mais pelo comboio do dinheiro que chegava às editoras estrangeiras do que pelo verdadeiro arrojo artístico, mas tudo bem. Hoje o cenário é um marasmo de reedições de “heróis” mais ou menos vendáveis, mesmo assim sem eira nem beira na lógica de edição (para mim, pelo menos). O futuro não se apresenta risonho, infelizmente. Obviamente entendo a cautela em editar autores mais difíceis de captar a atenção e aceitação por parte do público em geral; quem me dera que os fáceis de captar essa atenção e que já tem fieis seguidores vissem a já muito desejada continuação publicada ou em vias de publicação. De qualquer maneira, valho-me dos meus fracos conhecimentos da língua Francesa (que vai dando para o gasto) e dos melhores conhecimentos da língua Espanhola e Inglesa para cultivar o meu gosto e a minha educação nesta arte.


Assim, este autor incontornável de renome Mundial terá que fazer parte da educação bedéfila de quem se quiser bem formar na apreciação do género artístico. Quem já não ouviu falar da Métal Hurlant ou da Humanoïdes Associés? Os que agora enveredaram nos caminhos da BD talvez não, mas os iniciados sem dúvidas que já, estou seguro. São nomes quase míticos quando referenciamos a 9ª arte a um dos países que sobremaneira ajudaram a divulgá-la: a França; ou mesmo no plano mundial, não arrisco muito em o escrever. A Banda-Desenhada não seria a mesma sem certas publicações e a Métal Hurlant enquanto publicação periódica (primeiro bi-mensal, ao fim de oito números passou a mensal) levou a BD a um outro nível e a H.A. idem enquanto editora, obviamente. Na génese de ambas estiveram os nomes de Philippe Druillet, assim como os dos já entre nós publicados Jean Giraud e Jean-Pierre Dionnet (Bernard Farkas também é um dos seus criadores e exercia o cargo de Director Financeiro). A Métal Hurlant foi publicada entre 1974 e 1987 e para além das suas fantásticas histórias desenhadas continha artigos vários sobre vídeo-jogos, cinema, música, etc. Em 2002 teve direito a uma segunda vida, noutros moldes e formato, publicada pela Humanoids Publishing com versões em Francês, Inglês, Espanhol e em Português (como muito bem sabem, embora na altura tenha sido um espanto). Esta segunda vida não teve fôlego para além dos 14 números; em Portugal creio que não passou dos quatro ”), o que eu lamentei imenso(corrijam-me se estiver errado, pois não encontrei os meus números aqui na “grande confusão”).

A casa Humanoïdes Associés (grande responsável pela magnifica publicação da primeira edição da Métal Hurlant), a título de curiosidade, deve o seu nome à alcunha dada aos seus criadores: os quatro acima referidos eram denominados pelos seus pares como “Os humanóides associados” ou, talvez, como “Os sócios humanóides”. Seja lá como for, são estes os “culpados” pela transposição dedicada da Banda-Desenhada a um público maioritariamente adulto . Não escolho a palavra “elevação” porque não considero que a Banda-Desenhada infanto-juvenil seja merecedora de menor consideração do que a BD adulta.

Se o nome de Jean Giraud diz muito, bastante, a todos nós, mesmo aos mais tenrinhos, seja como tal ou na forma dos seus pseudónimos (Giraud ou apenas Gir) ou mesmo heterónimo (Moëbius), também o nome de Dionnet faz tocar algumas campainhas entre nós, nem que seja pelo seu trabalho ilustrado por Enki Bilal (“Exterminador 17”, originalmente publicado na Métal Hurlant). Mas, e o trabalho de Druillet?! Será que apenas o nome faz soar campainhas, ou conseguem associar o nome aos seus magníficos negros e pessimistas delírios na ficção científica desenhada? Se sim, então são uns sortudos (eu considero-me um). Em Portugal não mereceu um álbum sequer (!), algo que considero uma heresia por ser um nome ao qual a BD é indissociável. Ainda mais quando temos no nosso panorama um artista que foi influenciado por Druillet: Victor Mesquita no registo do seu absolutamente fantástico “Eternus 9”. Dirão alguns que foi de facto o Moëbius a verdadeira influência de Victor Mesquita, eu não discordo, mas ressalvo que tanto Moëbius como Druillet se influenciavam um ao outro, a mescla é notória, por tal até os próprios se "confundem"; também estou certo que o Victor Mesquita teria tido uma certa influência nesses autores caso pertencesse à eclética "associação" de amigos (não tenho conhecimento factual para afirmar o que afirmo, são apenas suposições, pelo que alguém que de facto o saiba, por favor não se iniba de me ensinar); da minha parte aproximo mais o Victor Mesquita ao estilo de Druillet, portanto façam a leitura que quiserem. Faço aqui um à parte para dar os meus parabéns à iniciativa de terem reeditado o “Eternus 9” deste nosso grande artista, fica a pena e a incompreensão de o álbum ter sido lançado com um preço absurdo; fico à espera da prometida continuação (também seria de louvar a reedição de outros trabalhos deste artista, muito mais difíceis de encontrar nos alfarrabistas do que o “Eternus 9”, como exemplo: “Babel”, aqui num registo mais "Moëbiano").

Druillet brindou os bedéfilos com duas séries magníficas: “Lone Sloane” e “Salammbô”. Para além destas séries publicou “Mirages”, “La Nuit”, “Gail” e “Nosferatu”, entre mais alguns álbuns. Curiosamente o meu primeiro álbum do Druillet foi exactamente o último que publicou (“Nosferatu” Dargaud 1989), e estranhamente atraiu-me imediatamente. Escrevo estranhamente porque é (talvez) um álbum atípico e sem dúvida é estranho no conteúdo e na própria fluidez da narração (por não ser fluído). A preto e branco e com o texto dos balões desenhado pelo mesmo torna-o uma leitura complicada. Primeiro porque é necessário conhecer as diversas obras de Nosferatu, em especial as de Murnau (1922) e Werner Hertzog (1979), depois é preciso entender, a dada altura, que a de Druillet não é uma adaptação mas antes mais considerações ou meditações sobre a vida e a morte. Na obra de Druillet é normal encontrar estas e outras considerações sempre num registo fatalista do ponto de vista de um pessimista crónico.

A série “Lone Sloane” (4 álbuns) narra as aventuras de um Pirata, ou antes, um Flibusteiro (aqui está um nome que ouvia o meu Pai dizer quando me contava histórias de piratas!) renegado, que juntamente com os seus dois companheiros, Yearl e Kurt Kurtsteiner, singra no espaço sideral a bordo da sua nave O Siddarta. Numa atmosfera totalmente “Lovecraftiana” (H. P. Lovecraft) e “Vogtiana” (A. E. van Vogt) estes “heróis” debatem-se com Deuses obscuros, monstros e, claro, um opressivo Império galáctico. Imperdível. Na senda de Impérios opressivos, chamo a atenção para a ilustração que o Druillet fez aludindo ao filme de George Lucas, “Star Wars”.

A série “Salammbô” pega na novela de Gustave Flaubert que conta uma história passada na antiga Cartago com a filha do General Amílcar, Salambô, e do amor condenado desta pelo líder dos mercenários que montaram cerco à cidade nação, de acordo com as crónicas de Polybius. Druillet dá-lhe a dimensão própria deste autor. Épica.

Faço aqui um convite a todos para conhecerem um dos “Hall of Fame” da BD e se o Francês for um inconveniente procurem álbuns da NBM Publishing (em Inglês) e da Heavy Metal (em Inglês) deste expoente da arte sequencial que não se arrependerão.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O HOMEM É BOM?

Na Amadora BD deste ano tive a oportunidade de trocar umas ideias com o David Loyd acerca do seu último trabalho (“Kickback”), o qual expressa a faceta humana que o mais disturba: a propensão inata do Homem para o crime e a facilidade com que este se distancia face ao mesmo. Comecei por concordar com ele e afirmei que o homem mais pacato e sereno se confrontado, por exemplo, com um filho em perigo nas mãos de um meliante não se abnegaria de matar este último, sem grandes dramas. Depois evidenciei que estas seriam circunstâncias extremas e altamente improváveis, logo não se poderia analisar o Homem por um acto improvável. É certo que é apenas um exemplo, e não faltarão oportunidades ao Homem para cometer um qualquer crime, com ou sem filho à mistura, como é facilmente verificável. Parti, sem sucesso, para uma abordagem mais filosófica: “L'Homme, est-il bon?”, em referência à rapsódia de Moebius. Talvez não conhecesse, talvez seja “burro velho” ou talvez seja “raposa velha” e não quisesse entrar em tão etérea conversação enquanto fazia uma dedicatória no meu “V for Vendetta”. Prefiro acreditar nesta última. Afinal reconheço que não seria uma conversa fácil de ter em cinco minutos, por outro lado também não seria divertida, e com um ou dois copos a mais então não valeria mesmo o esforço. Mais, não sendo eu filósofo, as profícuas bases necessárias para abordar tal existencialismo poderiam faltar-me e então passaria por um metido a intelectual, o que não seria de todo agradável. Embora não seja um filósofo e não tenha as profícuas bases, tenho algumas para não me espalhar ao comprido caso a conversa fosse para a frente e até ter maneiras e alguma humildade para não dar uma de metido a arrogante e douto intelectual. Reconheço algumas das minhas limitações…outras, ainda não! Mas arrepiando caminho, provavelmente cairia na velha questão da moral, ou melhor, da falta dela. A capacidade de alguém cometer um determinado crime advirá (mas nem sempre) da sua moral perante si e a sociedade. Ressalvo os paradoxos e as circunstâncias extraordinárias.

Nos álbuns do Escorpião (Marini), As Nove Famílias recriam a sociedade assentando-a numa amálgama de regras definidas por uma moral Católica, e que se não fossem acatadas culminariam em danação eterna (na vida, pela consciência; na morte, por suposta vontade divina) a quem as infringir. Estes illuminatti (As Nove Famílias) por não se regerem pelas regras que criaram, logo, dominam o mundo.

Numa outra ocasião, numa conversa, havia alguém que defendia que o mundo é dos “espertos” (por sinal alguém que tinha um negócio de vendas agressivas!), eu argumentei que o mundo ainda é dos inteligentes, os “espertos” é que têm a mania que é deles. As Nove Famílias foram inteligentes em moldar uma sociedade na qual não teriam que viver segundo as regras por eles implantadas. Os “espertos” são imorais não por terem a inteligência necessária para perceber a cabala, mas conhecendo a leis morais preferirem não as seguir para proveito próprio: existe aqui a diferença entre o “esperto” pura e simplesmente não saber que não há crime algum e em consciência saber que está a cometer um crime, respectivamente.

Tanto melhor a regra, mais fácil será aceitá-la como meritória. Daí eu acreditar que o Homem é bom, por acatar com facilidade um conjunto de regras que o refreiam; daí eu acreditar que o Homem não tem moral, apenas vive de acordo com as regras de quem era inteligente e que conseguiu trazer ordem ao caos de uma sociedade que sem regras seria extremamente difícil de subjugar. Confundo “bom” com “ingénuo”? Enquanto adjectivos, quantas vezes não andam eles de mãos dadas? Obviamente é uma visão monocromática. Livros, compêndios, extensas obras de uma vida foram escritos sobre o assunto. Leiam algumas, se tiverem paciência (estou certo que já o fizeram num dado momento).

Em tudo que nos rodeia, Banda Desenhada incluída, há uma exploração deste pressuposto. Ao longo da História, em sociedades que não a Judaica, Católica, etc., a moral associada não era exactamente a actual, embora convirjam em muitos aspectos. Actos de barbárie são hoje cometidos que outrora seriam deploráveis perante uma outra perspectiva moral, e vice-versa.

Moëbius/Jean Giraud explorou muito bem estes aspectos nos seus realmente ficcionais e improváveis mundos. Desde o título referido supra a outros que nascem desse: “The Long Tomorrow”; “Escala em Pharagonescia”; “O Homem de Ciguri”; “A Garagem Hermética”; “O Mundo d’Edena”. Mesmo os títulos “O Cristal Maior” e “Altor” explora essa faceta do Homem, de maneira mais suave, escrevamos assim.

Marini cria uma série (Escorpião) baseada no pressuposto da (falsa) moral (onde é que estão os álbuns em Português? A série já vai no oitavo volume!).

Os Comics Norte-Americanos, seja qual for a época, sejam mainstream, sejam indies, sejam underground, sejam o que forem, são, sem dúvida na sua esmagadora maioria, obcecados pela moral. Cada vez menos “a preto ou branco”, é seguro, mas lá está ela por todo o lado.

A BD Sul-Americana é também profícua no tema, e ao contrário da congénere do Norte é bem menos monocromática e apresentada de forma mais subtil, vitima dos diversos governos despóticos dos seus vários países. Em Portugal também existem alguns exemplos desta BD exploratória da moral, ou falta dela; também apelidada de “pouca-vergonha”.

Cada sociedade se debruça sobre a moral de diversas maneiras. É interessante ler algumas Mangas e dentro desta alguns géneros. Eu não conheço muito, é certo, mas as que li não as vi muito preocupadas com a moral, mas mais com a inevitabilidade da vida e suas convergências e divergências. A fatalidade abunda. Claro que já li algumas em que é o “mal” contra o “bem” e ponto final.

Noutras culturas não há uma lição de moral, antes uma escola que ensina o karma, uma lição de vida, o bem e o mal. Dois termos para a mesma coisa?

A moral é indissociável da condição Humana? O Homem só será Homem enquanto mantiver algum conceito de moral? Será que é a moral que nos diferencia dos animais, ou apenas os polegares oponíveis? Será que tanta moral afoga o Homem, ou será que falta mais moral para “salvar” o Homem? De uma coisa estou seguro, a moral será sempre a principal fonte da qual o Homem beberá, restará saber se por vezes não estará envenenada.

Eu gostei da forma como o Moëbius abordou em última análise esta questão, que ele próprio colocou: o Homem não é Bom nem Mau, é apenas intragável!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

PUNK’S NOT DEAD

Foram para mim os meados dos anos 80. A atitude anarquista, as roupas aparentemente desleixadas mas que seguiam estreito padrão de inclusão, o penteado (ainda tinha cabelo…saudades!), que tinham como objectivo afirmar-me rebelde, diferente, cool, mas que vendo bem as coisas, só me tornavam igual aos outros que também queriam ser diferentes. Os mais saudosistas dirão que não era mania, era mesmo atitude. Tudo bem, na altura até era atitude, ao certo é que não sabemos bem qual! A vida lá nos trouxe aos actuais caminhos, e alguns, embora não se vistam como tal, ainda serão Punks no âmago. Respeito.
A música, que ainda hoje gosto de ouvir (vejam lá!) era indissociável do movimento…a música era o movimento. Exploited, Sex Pistols, The Clash, Dead Kennedys, Ramones, The Damned, U.K. Subs, Black Flag, Crise Total (abraço ao Manolo!), Ku de Judas (Autista: és o último da lista :P ), Grito Final, Mata Ratos, Velvet Underground, New York Dolls, Pil, Bad Religion, LCD Soundsystem, etc. Sem ordem específica atrás alguns enumerados, vão desde o ProtoPunk até ao mais recente DancePunk (!), passando obviamente pelo PunkRock e pelo Hardcore. Milhares de horas de música de power chords e três tempos ouvi eu, até gastei os meus vinis “Punk and Disordarly” que comprei na Feira-da-Ladra ao Tó. Concertos no Rock Rendevouz (abraço ao Cascão!) e no inesquecível Bar Oceano, incontáveis escolas e algumas garagens. De dia, na Senófila a fazer barulho (no meu caso, confesso) ou na Harpa (Olivais); de noite, cerveja no Marão, moche no Gingão e no Juke Box, submarinos nas Couves e sandes de queijo e torresmos à mistura com flippers à antiga no Ribas (abraço ao Fernandez!), mais cerveja no Tacão (abraços ao Max e ao Agostinho, e porque não, ao velho Veludo), matraquilhos no Apolo, quando ainda os tinha (abraço ao Jaime…ainda te devo 500 paus!). Foi um fartote!

Depois veio uma atitude mais serena e mais em conformidade com as miúdas, o Underground: The Cure, Bauhaus, The Smiths, The Felt, Sonic Youth, Joy Division, Sisters of Mercy etc.; Peel Sessions; O Som da Frente; Doc Martens (Gibsons); Gabardines; Curtinho dos lados e atrás, aparar em cima; Arroz Doce (Grande Julinho e Pedro Punk), Ocarina, Três Pastorinhos (abraço ao Hernâni), Lábios de Vinho, Noites Longas, Incógnito (beijinho à Rute, abraços ao René e ao Fernando), Perfil (abraço ao Alexandre Barbosa), Alfama e Castelo…mas esta é outra história.

Os mais impregnados no Punk chamar-me-ão de intruso e um “puto das ondas”… têm razão, na parte que me toca sei que nunca fui um Punk, se calhar gostava de ter sido, mas nunca fui. Não tive muitas “ondas”, o Punk e o Underground chegaram-me. Depois comecei a trabalhar e lá se foram as “ondas” (as dos cabelo incluídas), não tinha pedal para tudo.

Mas tudo isto para vos apresentar um rebelde dos anos 80 que alguns reconhecerão de revistas como El Víbora e Animal: Peter Pank.
Para mim foi um retornar aos comics, pois foi com este álbum que eu tornei a entrar nos meandros da “nerdice”. Já havia algum tempo que tinha abandonado os comics, pela falta de qualidade dos mesmos e pelos intermináveis crossovers que me comiam a mesada e depois os primeiros ordenados. Anos depois, uma amiga pelo meu aniversário ofereceu-me o Peter Pank, comprado na Mongorhead (em Lisboa na Rua da Alegria nº32/34, acima da Praça com o mesmo nome…abraços ao Tiago e à Cristina!) quando esta ainda era no Centro Comercial Portugália. Fui lá e desgracei-me outra vez no vício.

O Peter Pank foi desenhado e escrito pelo Max (pseudónimo do Catalão Francesc Capdevila). Em 1984 estreou a primeira aventura em álbum com o título “Peter Pank”. Peter Pank é uma paródia hardcore ao já muito adaptado personagem de J. M. Barrie. Enquanto o original é a história de um rapazinho inocente que recusava em se tornar adulto (muito basicamente), o de Max é a de um obnóxio rebelde e beligerante rapagão com uma atitude “No Future”. O enredo do Peter Pank segue, mais ou menos, as etapas da mais conhecida adaptação de Peter Pan, a de Walt Disney. Totalmente impregnado de cultura Punk e anarquista, a caracterização dos personagens está deliciosamente, ou antes, maliciosamente bem atingida: Os Meninos Perdidos são Punks; O Índios são Hippies, que levam porrada a valer dos Meninos Perdidos; Os Piratas são Rockabillies; As Sereias são ninfomaníacas BDSM (Bondage/Descilpinadoras/Sado-Maso) dominatrix. O sexo é explícito e a linguagem é extremamente colorida. Tudo isto alinhado com um desenho muito bom, cheio de pormenores e surpreendentes textos para o género. Acção é coisa que não falta, assim como inúmeras referências estéticas, politicas, sociais e, obviamente, culturais. Também não falta droga, claro. Todos os atributos de um verdadeiro comic underground.

Esta primeira história do Peter Pank começa com a viagem de uma adolescente e seus irmãos, oriundos de um subúrbio de uma cidade Espanhola, à ilha da Punkilandia (no texto original). A acção desenrola-se durante o rapto da princesa Hippie pelo Capitão dos Rockabillies…e que acção! Lutas, perseguições, sexo, drogas, mais sexo e lutas. Tudo acaba com todas as tribos a lincharem o protagonista!

Embora aparentemente tenha sido linchado no final, o epílogo sugere que a história continuará. De facto continuou, Peter Pank é ressuscitado por um sinistro personagem em 1987 no álbum “El Licantropunk”, para gáudio dos fãs. Com este álbum o autor continua a explorar os diferentes grupos ou “tribos” normalmente abraçados maioritariamente pelos adolescentes, neste caso, os Skins e os Góticos. As referências literárias e cinematográficas são amplamente exploradas com os inevitáveis pastiches para as pranchas, desde “Drácula” a um “An American Werewolf in London”, a pormenores onde, por exemplo, aparece o Capitão Haddock e uma paródia ao mapa que inicializa todas as aventuras do Astérix. Mas, neste álbum a vertente mais underground esvaia-se quando o autor tende a abandonar os segmentos de sexo explícito e consumo de drogas. A técnica, a meu ver, melhora com uma aproximação mais evidente à “Ligne Claire”. Este álbum ganha o prémio de melhor obra no salão de BD de Barcelona de 1987.

Em 1990 a veia política do autor sobressai no que seria o último álbum deste irreverente personagem: “Pankdinista!”. O já anteriormente subjacente anarquismo torna-se aqui o elemento principal do enredo. A referência ao álbum dos The Clash, “Sandinista”, é flagrante. O autor repete a exploração das “tribos”, desta feita são os Yuppies, os Heavy Metals (ou Metaleiros, se preferirem) e o pessoal do Hip-Hop. Peter Pank retorna à Pankilandia e encontra-a ocupada por um grupo, os Yuppies, que criaram um Estado, um exército, introduziram corrência monetária e defendem acerrimamente a propriedade privada. O Peter Pank, perante tamanho atentado à sua ideologia, reúne todas as tribos rebeldes debaixo do seu comando e começa uma luta sangrenta contra o poder capitalista que se instalou, que também responde na mesma moeda. Os paralelismos com a revolução Sandinista na Nicarágua são notórios.

Surpreendentemente foi, dos três, o pior álbum. Não sei se terá ditado o fim das aventuras deste Punk, se sim, foi uma pena. Mas não acredito!

Todos estes álbuns foram publicados pela Ediciones La Cúpula, o primeiro pode-se ler em Português na revista Brasileira “Animal”, e em Inglês publicado pela Knokabout/Crack Editions.O autor embora tenha abandonado este personagem continuou a sua carreira na BD e na Ilustração com bastante sucesso, pese o facto que para nós Portugueses continue, infelizmente, um quase desconhecido.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

VIRTUAL SELF: LIFE...ONLY BETTER.

De tempos a tempos aparece uma obra no panorama dos comics que lá me surpreende sem ser no seu todo uma obra ora original ora assombrosamente desenhada. É preciso ser honesto e reconhecer que reunir esses dois predicados numa só obra é raríssimo, um dos dois já não é tanto. Ainda bem. Este livro que aqui me trás, no meu entender, é mais uma aproximação à velha questão da vontade Divina, do livre arbítrio, da condição humana, mas basicamente da polémica. Nada atrai mais um ser humano do que uma velha discussão. Já velhas a discutir, não duvido que tenha o seu share, mas não é a mesma coisa! A polémica, seja ela qual for, é a mãe de todas as discussões em que vale mesmo a pena perder tempo a assistir ou fazer parte, todos têm uma opinião. Seja o aborto sejam os chips nas matriculas, seja o Saramago e as suas inconsequentes e verborreicas afirmações, seja o casamento gay, seja o homem substituir-se na vida pessoal, profissional e social por um andróide que lhe transmite remotamente todas as sensações como se o operador humano estivesse realmente presente. Pois é disto mesmo que se trata! Desde o aparecimento do robot o mesmo da “máquina”, ou mais recentemente (1968) do livro “Do Androids Dream of Electric Sheap?” (n.a.: brevemente a adaptação em comics neste blog) que a questão não é assim tão original. O desenho, escreveram uns críticos, faz lembrar “Fell” (Warren Ellis/Ben Templesmith; com post neste blog) mas mais soft e tosco (como é que é?). Enfim…apesar de não ser original e tão pouco assombrosamente desenhado, existe nesta obra uma construção e exploração de personagens e época que faz inveja a outras que reúnem os tais dois predicados.

“Owner’s Manual For Your New Surrogate Unit. Virtual Self: Life…only better”. Li, devorei, esta magnifica edição especial em formato comics, hardcover, editado pela Top Shelf Productions. A Top Shelf é daquelas editoras à qual eu não consigo tirar o boneco quanto ao género (passo a expressão)! Mas já vi que numa coisa é fácil qualificar esta Editora: Qualidade. Cinco comics e uma graphic-novel (“The Surrogates: Flesh and Bone”) estão compilados neste fabuloso volume. Os comics foram publicados entre 2005 e 2006 e a prequela foi publicada já no corrente ano de 2009.

Os seus autores são Robert Venditti e Brett Weldele. O primeiro escreveu este fantástico mundo habitado por andróides, o segundo, obviamente, desenhou-o.
Venditti não é o habitual autor de comics que normalmente aqui vos trago, ele é apenas (que é como quem diz!) conhecido por este trabalho. Venditti era daqueles que considerava que os comics eram uma coisa de miúdos. Foram os clientes da loja onde ele trabalhava, uma livraria, que o convenceram a ler comics, tendo escolhido “Astro City” do Kurt Busiek para começar. Em boa hora o fez, pois vislumbrou um novo mundo, o que o levou à Top Shelf e depressa a esta obra de se lhe tirar o chapéu.

Também praticamente um desconhecido, Brett Weldele já tem trabalhado na indústria dos comics, mas discretamente. Destaco, dos poucos trabalhos que lhe conheço, “Couscous Express” com o Brian Wood (“DMZ”) e a mini-série da Marvel, “B Sides”.

Portanto a surpresa de ler este livro de tão ilustres desconhecidos foi melhor do que poderia desejar ou imaginar, sem ser um poço de originalidade e de art-exquisite. Claro que Hollywood ajudou bastante a torná-los mais conhecidos. A “Meca” do cinema Norte-Americano tem feito muito por si, ultimamente, com a preciosa ajuda dos comics. É notório o número crescente de argumentos adaptados ao cinema que provêm da indústria dos comics, sejam mainstream, sejam indies. Era de prever, com o crescimento da indústria dos comics e com a sua tendência em se tornar mais adulta, que autores de talento fossem apanhados pela oportunista indústria cinematográfica. Até onde seria possível a Hollywood reciclar os velhos filmes? Acredito que eternamente! Obviamente que adaptações literárias ao cinema não são inéditas, mas o maná que os comics proporcionam é “ouro-sobre-azul” para os grandes estúdios. Nos comics têm a vantagem do story-board já estar previamente executado e o cálculo do orçamento necessário ser sempre mais fácil de pré-elaborar, a aceitação dos argumentos pelo público, entre muitas outras razões que beneficiam os estúdios produtores.

Esta história é polémica apenas pela ideia. O principal mote da narrativa é a polémica, pois é através desta que o autor tenta nos atingir. Envolta num caso de mistério policial que alguns viram como “noir” mas eu não (desculpem-me!) é, no fundo, a polémica que alimenta todo o enredo que se desenvolve e não o caso de polícia de per si.

O autor explora um bem que seria bastante desejável na actual sociedade Norte-Americana cada vez mais acossada pelo medo. Desde o medo de ter que sair à rua, o medo das doenças, o medo dos fumadores, o medo da poluição, o medo de interagir com outras pessoas, o medo de ser assaltado, o medo de se ser violada, o medo do terrorismo, o medo, sempre o medo que é sobejamente explorado por quem nele veja proveito em relação aos seus próximos. Este medo não necessita de ser patológico, basta uma centelha, um frémito, para que a paranóia depressa se instale, e nem precisa de ser bem vendido.

Num ambiente assim, o autor imagina um mundo, o nosso mundo, que se vê com a oportunidade dada (leia-se vendida) por grandes empresas em torná-lo mais seguro para os seus habitantes. Qualquer Ser Humano que tiver dinheiro ou apenas capacidade de endividamento poderá adquirir uma unidade autónoma de realidade virtual que, na vez do seu dono, enfrentará o Mundo face a face.

Fantástico, não? Obviamente. É como o plástico: “É Fantástico!”, e o DDT e o que é radioactivo! Em pouco tempo metade da população adquire uma unidade enquanto a outra metade prefere levantar-se e gritar “blasfémia”. Dão-se motins e blá-blá-blá…a velha história do costume. Esta informação histórica dá-se nas primeiras páginas do livro e serve para localizar o leitor neste atípico e quase admirável mundo novo.
Um artigo interessante no imaginário Journal of Applied Cybernetics, que também aparece logo nas primeiras páginas do livro, vende-nos a excelente ideia que é possuir, todos possuírem, uma unidade Surrogate. Tem o título de “Paradise Found”, em contraponto, creio eu, com o “Paradise Lost” de Milton e todos os seus pensamentos inerentes adaptados ao séc. XXI, em vez dos mais, digamos, simples ou monocromáticos mas bastante equivalentes conceitos do séc. XVII. Possibilidades e realizações na era do Surrogate, começa o artigo, dissertando depois nas inúmeras mudanças dramáticas que rearranjaram a vida de todos que abraçaram a tecnologia, apontando apenas o aspecto positivo, ou por ignorar ainda os pontos negativos ou por preferir ignorá-los. É um facto que o Surrogate não foi uma ideia pacífica e a sua utilização pela esmagadora maioria da população (95% de penetração no mercado) foi uma conquista absoluta de enorme sucesso em tão pouco tempo. Aponta o artigo que existem três grandes vertentes sociais que tornam Surrogate um indiscutível sucesso: Género e Raça; Políticas de Segurança, e Crime; Saúde Pública e Individual.

Género e Raça: A vantagem de quem é de uma qualquer raça poder escolher um Surrogate que melhor o insira num qualquer grupo ou profissão para poder aceder a um nível de vida melhor ou em conformidade com os seus desejos, sejam eles de que natureza for. O mesmo se aplica ao Género; existem empregos que são mais acessíveis a um determinado género, o Surrogate possibilita a qualquer Género adoptar outro para sua conveniência profissional ou outra.

Políticas de Segurança, e Crime: As estatísticas do crime violento desceram abruptamente uma vez que o operador do Surrogate pode desligar-se da sua unidade autónoma assim que seja vítima de um crime violento. Com isto, não sofre fisicamente nem tão pouco emocionalmente pois já não se encontrará no local do crime; também há uma maior colaboração com as forças policiais quanto ao testemunho ocular, gravado pela unidade e guardado num disco remoto. Embora o crime não violento (assalto a residências, fraude, burla, etc.) seja mais comum e assola com maior incidência as estatísticas, não estando este tipo de crime imune ao facto da utilização do Surrogate, não é de minorar o facto do crime violento ter baixado drasticamente. Economicamente as repercussões são de uma também baixa dos gastos no todo do sistema judicial, em especial nas prisões. As forças policiais saem reforçadas enquanto são obrigadas a operar com os Surrogates, baixando as taxas do risco inerente à profissão, tornando-se esta mais aliciante aos potenciais candidatos.

Saúde Pública e Individual: Uma vez que são os Surrogates a interagirem uns com os outros, salvaguardam a população de humanos de doenças infecto-contagiosas, algumas potenciais pandemias; acidentes de trabalho; doenças derivadas de certos vícios, nomeadamente o tabaco. Neste ponto é notório a ênfase que se dá a esta indústria que movimentava biliões e que vinha a definhar (se é que definhar seja o termo mais adequado!), mas de acordo com o artigo, o Surrogate tem a habilidade de fumar e proporcionar a euforia momentânea, o cheiro e o sabor do fumo ao seu utilizador através da sua ligação sensorial a este. Isto trará grandes benefícios aos utilizadores das unidades Surrogate, ao evitarem todas as maleitas derivadas de certos hábitos, sem perderem o prazer proporcionado pelos mesmos. O Sistema Nacional de Saúde também será um dos grandes beneficiários desta simbiose, uma vez que o orçamento anual dispendido no combate às patologias associadas a certos prazeres seja canalizado para outras áreas. Patologias sexualmente transmitidas serão também praticamente inexistentes, acabando com o pesadelo do Síndrome da Imunodeficiência Adquirida nas sociedades que adoptem a tecnologia Surrogate, como exemplo mais flagrante.


Tudo isto se encaixa num cenário de resto muito pouco futurista, onde as intolerâncias do costume pululam na sociedade. Acompanhamos dois detectives a quem lhes calha um caso raro de ataques a unidades Surrogates e que têm por finalidade aparente ou óbvia criar a desordem e forçar o colapso do actual status quo social dominado pelo mundo das unidades virtuais autónomas, que segundo alguns inibem a verdadeira vida que Deus desejaria para o Homem, na vez da também aceitável visão de que Deus nos deu livre arbítrio para escolher a forma de vida que pretendemos levar (novamente Milton e seu poema). Não vou adiantar mais nada sobre o enredo, pois este merece ser lido e não contado.


Aconselho com veemência a leitura desta obra intrínseca de conceitos divinos e humanos, logo morais, desenhada a traços simples e crus, pintados ora a tons de sépia ora a tons de azul ou cinzento.