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sábado, 18 de abril de 2009

UM MERECIDO E AGRADECIDO RECONHECIMENTO

No último post abordei, muito, muito levemente o que o Brasil tem para oferecer na arte sequencial. Foi apenas um arranhar da superfície do enorme, gigantesco, maná que o Brasil tem sido e é. Houve um comentário que referia o meu gosto pelos “quadrinhos” Brasileiros. Curiosamente, aquele foi o único post (Ed Mort) que eu até agora escrevi abordando os “quadrinhos” genuinamente Brasileiros. É certo que poderia inundar este bloguezito com material genuinamente Brasileiro, como também referi num dos meus comentários: “Gosto muito do que é feito no Brasil. Tem lá gente, muita gente, com imenso talento. Depois há estes gigantes, sem ordem especial: Mauricio de Sousa, Luís Fernando Veríssimo, Miguel Paiva, Edgar Vasques, Laerte, Glauco, Fernando Gonsales, Angeli, Ziraldo, Henfil, Mozart Couto, Nilson, Jô Oliveira, Watson Portela, Luís Gê, Lourenço Mutarelli e velhinhos como Armond e Renato Silva, ou mesmo Ângelo Agostini, J. Carlos e Luíz Sá.”. Como se pode ler, teria muito tema por onde escolher, e mais.

As referências que eu usualmente recordo são, quase invariavelmente, Brasileiras. Na década de 70, a par com as ainda abundantes publicações periódicas Portuguesas (Tintin, Spirou, Falcão, Guerra, FBI, Cuto, álbuns Bertrand, etc) havia um marasmo de publicações Brasileiras que cá chegavam (com cerca de seis meses de atraso). Publicações Brasileiras que raras vezes se repetiam com outras publicações Portuguesas (noutro formato), ora por já terem desaparecido, ora estavam prestes a desaparecer (Mundo de Aventuras, Mosquito, Grilo, Camarada, etc). Personagens Norte americanas como “Luluzinha”, “Bolinha”, “Pernalonga”, “Patolino”, “Zé colmeia”, “Faisca e Fumaça” “Frajola e Piu-Piu”, “Satanésio”, “Gaguinho”, “Alceu e Dentinho”, “Os Monstrinhos”, “Crás”, “Heróis da TV”, “Speed Racer”, “Super Mouse”, “Pimentinha”; “Riquinho”, “Brotoeja”, “O Recruta Biruta”, “O Recruta Zero”, “Fantasma”, “Mandrake”, “O Pato Donald”, “Tio Patinhas”, “Mickey”, “Disney Especial”, “Edição Extra”, “Zé Carioca”, “Almanaque Disney”, “Flintstones”, “Os Jetsons”, “Kamandi”, “Sarg. Rock”, “Super-Homem”, “O Homem Elástico”, “O Arqueiro Verde”, “Jornada nas Estrelas”, “Batman”, “Supermino”, “Fix e Fox”, e muitas outras; também, claro, toda a “parafernália” do universo Marvel e DC que atravessou várias décadas e variadíssimas editoras (já entrando nos anos 90 e séc. XXI).

Editoras como a RGE, a Bloch, a Abril, a Ebal, a Cruzeiro, a Vecchi, a Trieste, enchiam os escaparates com imensa oferta de “quadrinhos”. Era uma fartura! Ser-me-ia completamente impossível escrever sobre muitos dos personagens que já abordei sem fazer justa referência às publicações Brasileiras que primeiro nos deram a conhecê-los. No entanto, nenhum é genuinamente Brasileiro. É certo que alguns tinham produção própria no Brasil (MAD, Zero e Estúdio Disney são exemplos), mas a grande maioria eram importações Norte-Americanas de comics da Harvey, King Features, Disney, Marvel, DC, Warner e Hanna & Barbera, destacando-se como nomes mais sonantes.

Os anos 80 trouxeram-nos mais publicações genuinamente Brasileiras, para além das já existentes “Mônica”, “O Sitio do Pica-Pau Amarelo”, “Cacá e sua Turma”, “O Menino Maluquinho”, “Turma do Pererê”, “Os Trapalhões”, “Pelézinho”, “Chico Bento”, “Cebolinha”, etc.: “Chiclete com Banana”, “Circo”, “Geraldão”, “Níquel Náusea”, “Piratas do Tietê” e outras de uma nova vaga de criadores que elevavam o estilo do típico quadrinho em gibi formatinho para revista e introduzindo um novo género de quadrinho, mais mordaz e “sem-vergonha”, virado para um público mais adulto, ou menos infantil, se preferirem.
Portanto, muito teria eu para escolher dentro do “universo” Brasileiro. Vejam bem que apenas rocei o que se passou a partir dos finais dos anos 60. Existe uma história riquíssima dos quadrinhos Brasileiros anterior a essa década.

Ainda hoje, pese as constantes crises que o Brasil atravessou e atravessa, existem dezenas de publicações periódicas e não periódicas. Infelizmente, Portugal tem vindo a perder, de década para década, de ano para ano, o caminho desbravado desde o início do séc. XX pelos nossos grandes antepassados bedéfilos. Esta tem sido a pior década de sempre na história da BD em Portugal (referindo-me à oferta nos escaparates e livrarias). Nem as edições Brasileiras nos salvam, pois deixaram de cá chegar na variedade que se apresentam no Brasil. Voltam-se as novas gerações, cada vez mais, para as importações Norte-Americanas (devido ao aumento da aprendizagem na língua Inglesa).


*(na imagem de abertura, "A seleção dos quadrinhos brasileiros", em pé, a partir da esquerda: Mônica, Rê Bordosa, Capitão Ninja, Radical Chic, Pererê e Quebra-Queixo. Agachados: Níquel Náusea, Menino Maluquinho, Capitão Rapadura, Senninha e Pirata do Tietê.).
Agradecimentos especiais: Ivo Manuel (Grande Coleccionador Português de Gibis, referenciado no Brasil, que tem vindo a desenvolver um excelente e maravilhoso trabalho na publicação das capas de inúmeras colecções por personagens e Editoras). Universo HQ, pela gentil cedência da imagem de abertura. Todos os que contribuiram com as imagens aqui colocadas, as quais, obviamente, não têm fins lucrativos e servem meramente como informação e divulgação do quadrinho Brasileiro.
Brevemente: Arte sequencial em língua Espanhola (outro maná).

terça-feira, 11 de novembro de 2008

LITTLE LULU: MENINA NÃO ENTRA? (*)

Quem não se lembra do clube dos rapazes da rua de baixo – East Side – que reuniam num barracão, no qual, na fachada, lia-se “menina não entra”? O Bolinha, o Careca, o Juca e o Zeca (Tubby, Iggy, Willy Wilkins e Eddie Stimson, respectivamente, no original) urdiam planos para humilharem as meninas da sua turma; ao mesmo tempo refugiavam-se da turma do Norte (The West Side Boys), eternos arqui-inimigos da parte mais desfavorecida da Cidade. Pese o facto de os rapazes serem maiores fãs do Bolinha França (Thomas “Tubby” Tompkins, no original), a verdadeira heroína desta turma é, de facto, a Luluzinha Palhares (Lulu Moppet, no original). Será uma ironia o aviso expresso na parede do barracão do clube dos rapazes, pois se não fosse pela Lulu nunca teria existido a famosa turma.

Little Lulu é uma criação da já desaparecida Marjorie “Marge” Henderson Buell (1904 – 1993). A Marge foi uma das mulheres pioneiras na profissão de cartunista, profissão amplamente – ainda hoje – dominada pelos homens. Em 1920 publicou o seu primeiro trabalho e em 1925 o seu primeiro trabalho “syndicated”, “The Boy Friend”. Em 1934 foi contratada pelo Saturday Evening Post e em 1935, naquela publicação, surgiu o primeiro desenho da Lulu. Só passados 9 anos é que o personagem começou a ser publicado diariamente nos jornais. O sucesso foi tremendo e tornou-se um fenómeno de marketing. A Marge detinha os direitos sobre o seu personagem (o que, naquele tempo, era raríssimo) e foi a principal beneficiadora do sucesso da sua criação. Em 1947 deixou de desenhar ela própria as histórias do personagem tendo, no entanto, mantido o controlo criativo do mesmo, desenhado desde então por John Stanley. Em 1971, Marge decidiu reformar-se e vendeu os direitos à Western Publishing. Ainda hoje os seus trabalhos originais são muito disputados nos leilões, atingindo consideráveis valores. Comics das editoras Dell e Gold Key são altamente coleccionáveis. A editora Norte Americana Dark Horse, muito recentemente, reeditou cronologicamente em 18 volumes as aventuras da “Little Lulu” (e sua turma) e mais um volume fora-de-colecção a cores pela iniciativa e amor aos personagens de John Stanley. As aventuras do personagem foram exportadas para diversos países (Japão, Grécia, Arábia, Finlândia, Espanha, e, claro, Brasil). A Devir Brasileira tem os livros da Dark Horse traduzidos para Português.

Até nós, Portugueses, chegou-nos do Brasil e também foi um sucesso. Guardo com cuidado esses gibis, pois confesso, ainda hoje gosto de reler as aventuras dessa turma e embora as reedições da DH sejam de grande qualidade, faltam-lhe alguns dos trabalhos que eu mais gosto. Entre essas aventuras que faltam, a minha favorita é sem dúvida “Summer Camp”, publicada nos anos 70 pela “Editora Abril” (originalmente pela Gold Key comics em formato gigante). É uma mega aventura muito ao estilo das férias da pequenada Norte-Americana (campo de férias), muito divertida, extremamente bem escrita, onde se inclui uma das famosas histórias inventadas pela Lulu com o intuito de dar uma lição de moral ao terrível Alvinho (Alvin Jones, no original) onde Meméia e a Alcéia atormentavam a Pobre Menininha.
A editora Abril publicou um total de 227 números (1974 – 1992) com periodicidade mensal. O tamanho inicial era o chamado formatinho (21x13,5) e manteve-se assim até ao número 67. A partir de número 68 e até ao final foi publicado no formato (19x13,5). O número 1 é uma edição especial das Diversões Juvenis (lembram-se do Alceu e Dentinho? Rocky & Bullwinkle, no original); a numeração apenas se iniciou na capa do número 3.
Antes da editora Abril, no Brasil, foram publicados pela editora O Cruzeiro (algumas destas revistas, em formato Comic, aparecem esporadicamente no Miau.pt).
Nos EUA a DELL publicou 268 números (1947 – 1984).

Para além dos já mencionados personagens, podem também lembrar-se do Plínio (Wilbur Van Snobbe), da Glorinha (Glory), da Aninhas (Annie), Dona Marocas (Miss Feeny) do Seu Jorge Palhares (George Moppet) e da D. Marta Palhares (Martha Moppet), do grande detective “O Aranha” (“The Spider”), que não era outro se não o próprio Bolinha e muitos outros inesquecíveis personagens.

As histórias eram aparentemente simples, mas continham nelas todo o quotidiano das normais crianças dos anos 30/40 do século XX, indo adaptando-se aos tempos, mas sem nunca perder o ideal da infância feliz, livre e despreocupada que se tem vindo a perder nas décadas mais recentes. A moral era forte, a escrita, há semelhança dos outros comics, é que não era exemplo para nenhuma criança: maneirismos e contracções próprias da fala reflectiam-se na escrita. Não existiam mensagens políticas, nem existencialismos disfarçados de crianças. Eram e são histórias para crianças que só precisam de ser isso mesmo.
Eu, embora adulto, ainda gosto de revisitar essa ingenuidade, por momentos sentir-me ainda criança. Só tenho conseguido este breve e quase efémero sentimento, enquanto leio, nos personagens da Harvey e nos da Marge. Quando não leio, é fácil: brinco com o meu filho. Nunca hei-de ser velho ao ponto de não tentar sentir-me como uma criança.




(*) Menos a Diabba (estava feito ao bife, se não abrisse a excepção, como podem ver pelo exemplo de cima).