sábado, 1 de maio de 2010

MÜ, A CIDADE PERDIDA

Poderia ser um post referenciado como um Hall of Fame da BD Mundial (da qual faz parte pela Will Eisner Award Hall of Fame), mas não será porque neste específico post debruçar-me-ei apenas no álbum agora lançado pela Editora ASA e no mistério nele abordado . Este novo álbum que se encontra disponível apenas na cadeia de lojas FNAC é uma reedição, pois em parceria com o jornal O Público já tinha sido editado em Portugal. Mas esta é uma edição mais composta e que merece brilhar numa qualquer colecção. Ao contrário da primeira edição, esta é a cores (não será isto que a destaca) e traz-nos uma maravilhosa introdução de Marco Steiner com fotos de Marco D’Anna, que nos remete para alguns dos mistérios que ensombram ainda hoje a aparentemente recente História da humanidade. Todo o arranjo do álbum é bastante cuidado na edição cartonada e limitada a mil exemplares com um mini-poster de oferta por 33,5 euros; será em breve lançada a edição brochada.

Para quem conhece Hugo Eugenio Pratt no registo do seu mais famoso personagem, Corto Maltese, sabe da predilecção do autor em delinear para o seu anti-herói argumentos intrínsecos entre lugares, mistérios, fábulas, cultos, seitas, religiões, organizações menos claras, magia e a própria História. Desde a primeira história de Corto Maltese, que embora fosse uma balada lacónica entre a saudade, nostalgia, lealdade e amor, já a História ocupava um lugar cimeiro e o autor demonstrava uma atracção irresistível pelo esoterismo e pelos mistérios associados. Seja numa maravilhosa e espectacular “As Célticas” em tom “Shakesperiano” de um sonho de uma noite de verão a uma melindrada descrição revolucionária; seja numa “Fábula de Veneza” e seus misteriosos pátios repletos de símbolos cabalísticos, dos ofícios e das respectivas lojas que só os iniciados saberão interpretar e que estão ligados ao próprio nome de Corto Maltese (corto, pátio em italiano, do Maltês agora denominado pátio Contarini del Bovolo, em Veneza); seja “Sob o Signo do Capricórnio” e de uma magia milenar provida da sabedoria de quem será, eventualmente, secular, associada às crenças negras que floresceram nas cândidas terras e praias Sul-Americanas, em busca do passado e de um tesouro e à descoberta do amor; seja uma miríade de outras situações descritas nas fantásticas aventuras do lacónico marinheiro o esoterismo está sempre presente acompanhado de figuras, personagens, que acentuam ainda mais o tom que o autor transmite de uma realidade que parece ser sonhada, ou de um sonho que se assemelha à realidade. Destaco, de todos os personagens, o mais evidente, recorrente e constante: Rasputine (Raspa, para os amigos). Foi uma figura da História Russa, influente junto da corte no período final da Rússia Czarista, odiado por aristocratas e povo o monge era protegido da Czarina Alexandra Fedorovna, o que, ultimamente, não o salvou de ser assassinado; a mística e o comportamento devasso a ele associados valeu-lhe fama até aos dias de hoje. Hugo Pratt cria o seu Rasputine com semblantes, mística e vilanagem afamada muito parecidos ao real Grigori Rasputine, fazendo dele um improvável “comic relief” e um paradoxo enquanto personagem sendo uma das mais bem-amadas pelos leitores que acompanham as viagens do romântico e bem-intencionado marinheiro das argolas. Muitos outros personagens, mesmo os mais efémeros são também assim baseados em figuras da vida real e de outras obras literárias ou cinematográficas que o autor via como fundamentais e fascinantes para uma melhor construção do enredo, muito há semelhança da sua maior e assumida influência, Milton Cannif. Neste álbum, “Mu”, já no final, Corto Maltese encontra um velho chinês já moribundo de nome Soong; este é pai de um dos personagens da aventura de Corto na Sibéria (Xangai-lil) e, como esse personagem feminino, o pai também é baseado numa figura da História real (Charlie Soong, multimilionário Dragon Head da Triad).

“Mü, a cidade perdida” é o último título das viagens, aventuras de Corto Maltese. Serializada de 1988 a 1989 na revista de viagens Corto Maltese foi sem dúvidas a mais sonhadora de todas as aventuras de Corto; O autor, na narração: “E com este “até à vista”, começa a mais estranha das aventuras de Corto Maltese”. Reúne alguns personagens que já tinham acompanhado Corto em outras aventuras, se bem que a cronologia das suas aventuras seja sempre difícil de seguir, e outros personagens que aludem a figuras históricas como é apanágio do autor introduzir. Ligada aos mistérios que o mundo ainda nos oferece, existe um em particular que acende tanto o folclore popular como a sociedade científica e, dizem, até os departamentos estatais de informação privilegiada. Desde o fenómeno do Triangulo das Bermudas e os relatos a este associados, que até hoje carecem de alguma explicação científica, mas não de grande cepticismo, até ao desaparecimento da mítica civilização Atlante, já há muito referenciada por Platão, os fenómenos e as crenças abundam no imaginário colectivo. Umas com mais força do que outras pelos textos, contos, crenças e estranhos relatos (que teimam em desaparecer em situações que dificilmente se podem atribuir a acidentes) que ainda hoje perduram. Um desses mistérios é o de uma civilização muito antiga, anterior ou contemporânea à mítica Atlântida, que terá desaparecido há aproximadamente 12.000 anos atrás. Referencias a essa civilização encontram-se nas crenças populares e religiosas de muitas civilizações mais recentes, no entanto dispersas quando ainda o mundo era habitado por pessoas que desconheciam a existência de terras para além do mar que delimitava as suas. Mesmo na comunidade científica, embora não passando de teorias por enquanto impossíveis de serem de facto comprovadas, reúnem interesse e são consideradas como hipóteses com algum valor no contexto da arqueologia e da própria História da humanidade. O continente perdido de Mu ou também conhecido por Lemuria é um dos grandes mistérios da humanidade, sem dúvida, e não poderia ter deixado de ser objecto da enorme paixão de Pratt pelos mistérios, logo, de exploração para mais uma aventura do Corto Maltese. http://ilhadeatlantida.vilabol.uol.com.br/mapas/mupg.html (para terem uma ideia do mistério). http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Mu para melhor aprofundarem a questão do mistério. A paixão por este mistério está bem expressa na história deste maravilhoso álbum pleno de referências (chamo a atenção para os livros que estão nas prateleiras do barco do personagem Levi Colombia).

Não é certo se os mistérios de Mu e da Atlântida não serão o mesmo; se Mu desapareceu há 25000 ou se há 12000 anos atrás; se existiu (o que ajudaria a explicar muitas “buracos” na evolução e migrações do Homem) no Pacifico ou se no Indico ou (a mais provável) abrangeria os dois Oceanos: Lemuria, o outro nome porque era conhecida, deve-se aos Lémures de Madagáscar, ilha que possui uma fauna e uma flora que a distancia em termos evolutivos em dezenas de milhões de anos do continente Africano, mas onde se podem encontrar as mesmas espécies ou primos muito próximos na Malásia. A actividade vulcânica dos arquipélagos do Indico/Pacifico e a destruição de Krakatoa poderão apontar que o mesmo possa ter acontecido numa escala muito maior anteriormente e que o fenómeno tenha levado a um tsunami de proporções bíblicas, um dilúvio. Muitos dirão que se realmente tivesse existido um continente assim tão grande, com 65 milhões de pessoas, hoje já se teriam descoberto algumas provas disso. De facto já se descobriu muitas coisas que serviram apenas para adensar o mistério: as placas de Naacal; as ruínas de uma cidade afundada ao largo de Cuba; outra ao lado do Cambodja com cerca de 6000 anos e já conhecedores da escrita; o enganador código de Truano e o Popol Vuh Maia; o suposto “povo” Toltek, que terá sido uma má tradução e apenas quererá dizer o equivalente a “Construtor” em Maia, ou “Tekton” no Grego; as estruturas de Yonaguni ao largo do Japão; o mistério da ilha de Páscoa e as linhas de convergência geometricamente perfeitas entre as quatro hipotéticas cidades da passagem (Chichen Itzá, Posseidónis, Ur, Angkor) e a ilha de Páscoa e seus Moais a olharem para um céu de há 12000 anos atrás; os naturais de Páscoa, descobertos em 1722 eram polinésios de tez branca e cabelos ruivos, conforme as lendas de Mu; as crenças Khmer, Tamil, Hindu e Egípcia do Delta, assim como as pré-colombianas e algumas Maori convergem todas neste ponto, embora os membros das suas civilizações nunca se tivessem cruzado; as crónicas da antiguidade Grega, que se assumiam interessadas e já conhecedoras das lendas, ou histórias sobre a Atlântida e Mu, assim como a criação do mar Mediterrânico e as colunas de Hércules, pelo colapso do istmo mediterrânico; os contactos dos Fenícios com o dito muito antigo povo de Tartessos, descritos por Estrabão na sua “Geographia” e o conhecido cataclismo vulcânico nas Cíclades que varreram a civilização Minóica em 1500 A.C..

Hugo Pratt desde as primeiras páginas explora algumas destas particularidades da lenda e junta-lhe mais algumas, como o mistério do desaparecimento da aviadora solitária Amelia Earhart. Esta é uma história que para ser apreciada na sua plenitude deverá ser acompanhado de um particular gosto pelos mistérios da humanidade ou então de uns cogumelos mágicos. A forma como cada um as encara, caberá a cada um. É certo que Pratt era um sonhador e um viajante, seja em que sentido for e, mais uma vez, conseguiu traduzir com grande inspiração a lenda ou o mito num sonho digno de ser sonhado, neste caso lido. Que pena que este homem nos tenha deixado com apenas 65 anos, mas viveu mais do que muitos homens se tivessem vivido até aos 100 anos, estou seguro. Que sonhos, que lendas, mitos e mistérios teria ele ainda traduzido? Perdoem-me a saudade. Leiam este livro e queiram perceber para além do que está lá escrito e desenhado, o Hugo Pratt apela-nos em todas as suas aventuras para que façamos as malas e partamos por nós à procura do que ele também viu. Como qualquer grande viajante, Pratt gostava de partilhar as suas experiências, que o tinham enriquecido. As revistas que ostentavam o nome do seu personagem estandarte eram revistas de viagens e não de BD.

(As imagens aqui colocadas foram retiradas da internet, por eu não ter (ainda!) um scaner. A capa da edição Portuguesa é igual à colocada no cabeçalho deste post).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

MIGUELANXO PRADO

Já por algumas vezes alguns amigos que vão a minha casa, e que lá vão dando uma olhadela neste espaço, me têm perguntado porque é que eu, neste espaço, dou tanta ênfase aos comics quando o que eles vêm mais nas prateleiras de minha casa é BD Franco-Belga? Pois, realmente o que está mais visível, por estarem nas prateleiras, são os álbuns de BD Franco-Belga; os comics estão todos encaixotados e por serem menos volumosos não parecem ser mais (mas são), e as caixas, por sua vez, estão guardadas nos armários. Por outro lado, os hardcovers Norte-Americanos e TPBs, apesar de serem já alguns, são relativamente recentes no mercado editorial comparado com as edições Europeias em formato de álbum. Mas não sei se têm razões ao apontarem que dou pouca visibilidade aos álbuns de BD ditos Franco-Belga que lá estão expostos, pois tenho tido o cuidado de variar o conteúdo deste blog. Uma vez que não sigo um padrão de anunciar neste espaço novas publicações ou novidades no mercado editorial na generalidade (mesmo nos comics), comprometo-me a dar mais visibilidade a esses álbuns e aos seus magníficos autores (tenho que comprar um scaner!).

De seu nome Miguelanxo Prado, é um dos expoentes da BD mundial e um dos melhores, mais consagrado e reconhecido autor de BD da nossa vizinha Galiza. Natural de A Coruña, nascido em 1958, com formação em arquitectura, escreveu novelas e foi artista plástico antes de se iniciar na BD. Com variadíssimos prémios e nomeações internacionais, dos quais se destacam o Alph’Art para o melhor álbum estrangeiro em Angoulême por duas vezes, o Eisner para melhor antologia e a nomeação para o Harvey.

É um autor muito atento ao mundo, seja na sua beleza bucólica seja na espécie inteligente (?) que nele habita. Em 1988, pela Humanöides Associés publica o seu primeiro trabalho na BD: “Chienne de Vie”(“Quotidiano Delirante”), onde retrata de forma mordaz e plena de sarcasmo o comportamento social Humano. O sucesso foi imediato e logo se seguiram outras obras onde pôde abordar outras formas de se observar o comportamento Humano. Ainda em 1988 publica um magnífico trabalho onde vislumbra uma hipotética História do comportamento Humano enquanto ser social, com cenários verdadeiramente visionários que culminam num optimístico mas atribulado processo evolutivo para a espécie Humana, onde os Simios e os Cetáceos Delphinidae (vulgo Golfinhos) ocupam um lugar especial; é um trabalho humanista de grande profundidade e que para mim será um dos seus melhores registos: “Fragmentos das Enciclopédia Délfica”. Em 1989 retorna ao registo do seu primeiro álbum com o título “C’est du Sport” (“Crónicas Incongruentes”). Em Portugal, não se seguindo a cronologia de publicação dos títulos em Francês, não é por isso que o trabalho do autor se perde numa lógica de afrontamento com a sociedade civil. Desde a observância de situações que poderão parecer serem levadas ao extremo pelo autor, como também no caso da “Mansão dos Pimpões”, a verdade é que não existe extremismo algum e que as coisas se processam, ou pelo menos se sentem, exactamente dessa forma, deixando o bom cidadão, aquele que é honesto, cumpridor, civilizado, bem-educado ou simplesmente com “vergonha na cara” completamente desarmado pela súcia de FDPs (que não merecem outro nome) que cada vez mais se vão semeando por este mundo fora! Aquela campanha televisiva Portuguesa que aludia à necessidade de criar consciência cívica encontrava exemplos que apenas roçam o que o “Chico-esperto” é capaz de fazer (“Portugal não é só teu”, lembram-se?). Miguelanxo Prado consegue chafurdar no “Chico-espertismo” abundante na nossa sociedade e sempre levados em conta com orgulho pelos que o encaram como modo de vida.

Não é só o escarnecimento da sociedade civil que Miguelanxo Prado explora. A exploração do Homem também é seu apanágio e fá-lo com absoluta distinção na obra “Traço de Giz”, onde se debruça sobre a capacidade de sonhar do Homem e pela sua, por vezes, incapacidade de distinguir o sonho da realidade. Com este álbum ganhou o seu segundo prémio em Angoulême. O primeiro foi com uma fantástica história aludindo ao género policial-noir à Americana mas com um tom marcadamente Ibérico (Português também, pois então!): “Manuel Montano: O Manancial da Noite”. Neste álbum trabalhou com o argumento de Fernando Luna e conta a história de um detective privado Português praticamente acabado, Manuel Montano, a quem lhe é dada a missão de encontrar o manancial da noite: no livro, o autor: “- Não queremos que sejas um detective falhado como o Bogart. Por isso preparámos-te na escola de detectives de Lisboa, ao som das navalhas e do fado”. Embora Montano não esteja certo do que procura, não se pode dar ao luxo de rejeitar um trabalho e dedica toda a sua determinação a não deixar que este trabalho termine com muitos outros: sem dinheiro! É um livro com alguns personagens bem poéticos e interessantes (destaco o personagem "Pescas"), que aludem brilhantemente ao bas-fond pejado de figuras malandras acompanhadas de pratinhos de salada de orelha de porco (que parecem salada de polvo) nas tascas e fado.

Um título que merecerá o seu destaque é a adaptação da história infantil “Pedro e o Lobo”, originalmente concebida para educar musicalmente as crianças e ao mesmo tempo demonstrar-lhes os perigos da mentira. Todos os personagens na obra original de Sergei Prokofiev são representados por um instrumento diferente (ou secção do mesmo género de instrumentos, por exemplo: as Cordas representam o Pedro), onde a sonoridade desses instrumentos é por sua vez representativa da personalidade de cada personagem. A adaptação do Miguelanxo Prado, segundo ele, não é uma versão dedicadamente infantil, mas antes uma versão honesta.

Outro título que nos toca particularmente é “Carta de Lisboa”, escrito por Eric Sarner e maravilhosamente ilustrado por Prado. Perguntaram-lhe como é que tinha sido para um Espanhol a honra de ilustrar esse título, ao que Prado respondeu: “Para um Espanhol eu não sei, mas para mim…a relação dos Galegos com Portugal é muito particular, não tem nada a ver com o resto de Espanha. Devido à fronteira, a gente passa de um lado para o outro e, mesmo economicamente, a relação da Galiza é muito mais forte com Portugal do que com a própria Espanha. (…)”.

A sua técnica é fabulosa e faz-nos crer que utiliza diversos materiais nas suas ilustrações; refere, numa entrevista que deu ao Universo HQ, que utiliza tudo o que ajude, mas que praticamente todas as suas obras são em acrílico, “Traço de Giz” e “Pedro e o Lobo” também. Desde a sumptuosa cor ao preto e branco (“Stratos” e “Fragmentos da Enciclopédia Délfica”) ou mesmo à sépia (“Tangências”) o seu estilo é marcado e inconfundível.

O álbum “Tangências” leva-nos novamente às relações humanas. É um álbum que traduz a superficialidade com que muitas vezes nos dedicamos às relações com outros, traduzindo-se tangenciais, num dado momento na vida de cada um. É um álbum negativista, ou apenas sincero, que reflecte as relações pessoais superficiais. O tom sépia impresso adensa a emoção sentida por quem lê esta obra, da qual não consegue fugir sem introspectiva reflexão.

Sem dúvidas, o álbum que levou o Miguelanxo Prado ao estrelato do firmamento mundial foi “Traço de Giz”. Este álbum, conforme já o escrevi acima, alude à ténue fronteira entre o sonho e a realidade e à capacidade, ou falta dela, de discernir entre ambas. As relações humanas são esmiuçadas de forma sublime, o que nos leva a acreditar piamente que o autor tem uma grande veia de sociólogo e ou psicólogo. Uma vez mais, Portugal (os Açores, mais concretamente) está presente no autor.

O último álbum lançado no mercado foi “De Profundis”. Este álbum não é BD, antes uma transposição de algumas imagens criadas por Prado para o seu filme de animação com o mesmo nome, acompanhadas por uma narrativa poética. Enquanto o filme é uma sucessão organizada de vinhetas acompanhadas apenas por música, não seguindo o normal padrão do cinema de animação, assumindo-se como pouco convencional ou alternativo no género, o álbum recebe o argumento escrito. No entanto, o livro funciona autonomamente do filme. A história debate-se num amor pouco convencional entre um homem que se aventura num barco para pintar o habitat marítimo e uma violoncelista que mora numa casa no meio da água, onde o sonho se mescla com a realidade. O filme foi premiado com o “Goya” de melhor filme de animação.

Não poderia acabar este post sem referir que este autor também já deu o seu contributo, enquanto artista, no mercado Norte-Americano dos comics e não só. Foi responsável pela arte na história “Dream: The Heart of a Star” no maravilhoso “Endless Nights” da série Sandman do conceituado Neil Gaiman, que contou com a colaboração de inúmeros grandes vultos da BD; talvez não tenha sido um acidente ter sido escolhido para uma das mais importantes histórias nesta obra, que alude a muitos acontecimentos que irão ter lugar no futuro dentro da série. Também no cinema de animação deu o seu enorme contributo para a série MIB (Men in Black) ao ser o character designer”.

Em Portugal temos publicada toda a obra deste autor, praticamente. O autor encontra-se a trabalhar numa novela gráfica que, segundo desejos já manifestados, deverá ser publicada também em Portugal ainda durante este ano (veremos!).
De resto, é um autor incontornável na BD dita Franco-Belga, que nos diverte e assombra ao mesmo tempo, com os seus delírios e suas introspecções mundanas, assim como com a sua maravilhosa técnica. Recomendo vivamente.

quinta-feira, 25 de março de 2010

E AGORA...MANGÁ!



Vestido à Indiana Jones, de catana em riste a cortar lianas, a afastar as monstruosas teias de aranha e dar pontapés nas imensas Tarântulas que saem dos seus ninhos no chão, entro eu neste blog mais um batalhão de “mulheres-a-dias”. Se ainda houver alguém aí, que vá dando uma olhadela neste cantinho quase apodrecido, cuidado com os ratos!

Konitchua! É assim, rendi-me ao Japonês! Tinha que acontecer, mais tarde do que cedo é verdade, mas já está! E agora?! Se o vício já me custava os olhos da cara, como é que vou suportar os custos destas novelas terrivelmente adictas? A culpa é do Bongop e do Mário Freitas (Kingpin). A minha esposa irá “falar” com vocês em breve.
Passei na Kingpin of Comics, na rua Quirino da Fonseca em Lisboa (junto à Alameda D. Afonso Henriques) e apaixonei-me pelas estatuetas Ikki Tousen (eu sei, eu sei: tarado!)… e lá fui eu ao e-bay gastar uns dólares nas fabulosas Yamato. Mas não saí da Kingpin sem experimentar da “droga”, entre outras, que lá vendem: Mangá (http://en.wikipedia.org/wiki/Manga).


O meu conhecimento de Manga era tão parco que se resumia ao “Akira” e à “Mother Sarah” (este último, apenas li os primeiros três volumes editados pela desaparecida Meribérica), ambos da autoria do grande Katsuhiro Otomo, tendo o segundo arte do magnífico Takumi Nagayaso. Embora tenha já uma considerável colecção de Animé (cinema de animação Japonês), de Mangá praticamente nada conheço. Uma incursão, via Correio da Manhã, no volume 19 da colecção da BD de Ouro, no absorvente e introspectivo Jiro Taniguchi levou-me a considerar ler mais Manga, mas não tinha passado de uma intenção até há bem pouco tempo.
O Mário Freitas (que tem impulsionado a leitura e a divulgação do estilo com recentes certames) aconselhou-me a leitura de um magnífico “20th Century Boys”, um Seinen do celebrado mangaka Naoki Urasawa (muito conhecido pelos aficionados no estilo pelo título “Monster”). É um título considerado de ficção-cientifica (pese o facto que só vou no segundo volume e ainda não vi nada que justifique o género) que referencia abundantemente os anos 60-70 e que se debruça num grupo de amigos de infância e o clube por eles criado. Anos mais tarde, quando já trintões, são confrontados com o símbolo por um deles criado e por todos adoptado enquanto emblema do clube e estranhos acontecimentos associados: o desaparecimento de uma família; a morte de um velho amigo; e o aparecimento de uma seita supostamente religiosa liderada por um estranho e misterioso personagem que se intitula por “Amigo”. Todos estes acontecimentos convergem na trama que se vai desenrolando a um bom e muito bem escalonado ritmo, com uma apaixonante exploração dos imensos personagens envolvidos. Embora só tenha lido os primeiros dois volumes, o até agora verosímil enredo associado a uma excepcional e divertida arte realista trouxeram-me para o mundo da Manga com grande curiosidade para ler mais. Por tal, ter já encomendado os seguintes e já disponíveis quatro volumes em Inglês da Viz Media não será estranho a quem já é um fã e conhecedor de Manga.

Enquanto espero pelos seguintes volumes dos “20th Century Boys”, estou a ler, em simultâneo, “Vagabond” e “Pluto”.

Do dia para a noite, o título Seinen “Vagabond”, publicado também em Inglês pela Viz Media (Vizbig edition – três volumes compilados num só), é um épico Histórico, baseado na obra de Eiji Yoshikawa sobre um fantástico Samurai, “O” Samurai por excelência: Miyamoto Musashi. Este herói da História japonesa simbolizou o auge do Bushido (o caminho do guerreiro), no qual um homem com uma espada na mão representava o máximo da realização individual. Tendo vivido entre o final do séc. XVI e o início do séc, XVII, na era “Tokugawa” (poderosa família “Daimyo” descendente do Imperador Seiwa, no séx. IX), numa época já minada pelo poder da arma de fogo, era um verdadeiro senhor do Bushido. Ao contrário de muitos espadachins da época, que procuravam reconhecimento pelo confronto em duelo, Musashi procurava aprimorar a sua técnica. Fê-lo com distinção, segundo a lenda nunca foi derrotado em combate apesar de ter defrontado mais de sessenta adversários. A sua técnica era infalível e até hoje persiste no Kendo (Kenjutsu), numa disciplina chamada de Niten Ichi Ryu. “Vagabond”, da autoria de Takehiko Inoue, conforme já o escrevi, baseia-se no romance de Yoshikawa e é um belíssimo Manga onde a escrita é fluida entre os pensamentos intimistas do Samurai filósofo e a descrição de uma vida menos gloriosa daquela relatada nas lendas e no próprio romance de Yoshikawa. O desenho é realista, aproximando-se mais do estilo Europeu; é apaixonante e arrebatador nos cenários e não é confuso (se me permitem a falta de experiência na leitura de Manga) nas sequências de luta. Recomendo vivamente a quem goste do género histórico e excelentes cenas de acção.

No género da ficção-cientifica pura e dura cheguei a um “confronto” de gigantes: “Pluto: Urasawa X Tezuka”. Sendo um já antigo fã de Animé, obviamente já conhecia Osamu Tezuka (na imagem, num selo comemorativo com os seus mais famosos personagens), o criador do inesquecível Atomo (Astro Boy) e de Kimba, o leão branco. Uma vez mais Urusawa, já que tenho estado a gostar tanto do “20th Century Boys”, e como sempre gostei do Astro Boy do grande Osamu Tezuka, senti alguma curiosidade em ver qual seria a visão “actualizada” e repensada pelo Urusawa, supervisionada pelo filho do já desaparecido Tezuka. Este só agora o comecei a ler e tem demonstrado ser uma versão interessante da história original “The Greatest Robot on Earth”. Escrevo apenas que está a ser bastante agradável de ler enquanto adulto, o original Astro Boy é mais infantil e já não me acende a faísca de outrora.
Em lista de espera, na prateleira, estão “Nausicaä, of the valley of the wind” e “Gantz”. O primeiro é um trabalho em sete volumes de um dos gigantes de Animé, Hayao Miyazaki, que eu também faço intenções de trazer aqui…veremos se passará disso! O segundo poderão ler os magníficos posts em http://bongop-leituras-bd.blogspot.com/ do meu caro e ilustre amigo Bongop.


Sayonara (, Zetsubou-Sensei)…que é outra já na calha, hehehe! Alguém que me pare...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

"HALL OF FAME" da BANDA DESENHADA

São desenhos de um autor que nunca viu o seu trabalho publicado em Portugal no formato de álbum: Philippe Druillet. Simplesmente inacreditável! Claro que o nosso mercado hoje é senão uma sombra daquilo que já foi. Mesmo nos tempos idos de uma maior penetração da BD mais, escrevamos assim, elucidada, era complicado trazer determinado tipo de autores, pelo estilo mais arrojado e mais dedicado a um connesseur de BD. Mesmo assim houve exemplos de arrojo por parte dos editores do género em Portugal, mais pelo comboio do dinheiro que chegava às editoras estrangeiras do que pelo verdadeiro arrojo artístico, mas tudo bem. Hoje o cenário é um marasmo de reedições de “heróis” mais ou menos vendáveis, mesmo assim sem eira nem beira na lógica de edição (para mim, pelo menos). O futuro não se apresenta risonho, infelizmente. Obviamente entendo a cautela em editar autores mais difíceis de captar a atenção e aceitação por parte do público em geral; quem me dera que os fáceis de captar essa atenção e que já tem fieis seguidores vissem a já muito desejada continuação publicada ou em vias de publicação. De qualquer maneira, valho-me dos meus fracos conhecimentos da língua Francesa (que vai dando para o gasto) e dos melhores conhecimentos da língua Espanhola e Inglesa para cultivar o meu gosto e a minha educação nesta arte.


Assim, este autor incontornável de renome Mundial terá que fazer parte da educação bedéfila de quem se quiser bem formar na apreciação do género artístico. Quem já não ouviu falar da Métal Hurlant ou da Humanoïdes Associés? Os que agora enveredaram nos caminhos da BD talvez não, mas os iniciados sem dúvidas que já, estou seguro. São nomes quase míticos quando referenciamos a 9ª arte a um dos países que sobremaneira ajudaram a divulgá-la: a França; ou mesmo no plano mundial, não arrisco muito em o escrever. A Banda-Desenhada não seria a mesma sem certas publicações e a Métal Hurlant enquanto publicação periódica (primeiro bi-mensal, ao fim de oito números passou a mensal) levou a BD a um outro nível e a H.A. idem enquanto editora, obviamente. Na génese de ambas estiveram os nomes de Philippe Druillet, assim como os dos já entre nós publicados Jean Giraud e Jean-Pierre Dionnet (Bernard Farkas também é um dos seus criadores e exercia o cargo de Director Financeiro). A Métal Hurlant foi publicada entre 1974 e 1987 e para além das suas fantásticas histórias desenhadas continha artigos vários sobre vídeo-jogos, cinema, música, etc. Em 2002 teve direito a uma segunda vida, noutros moldes e formato, publicada pela Humanoids Publishing com versões em Francês, Inglês, Espanhol e em Português (como muito bem sabem, embora na altura tenha sido um espanto). Esta segunda vida não teve fôlego para além dos 14 números; em Portugal creio que não passou dos quatro ”), o que eu lamentei imenso(corrijam-me se estiver errado, pois não encontrei os meus números aqui na “grande confusão”).

A casa Humanoïdes Associés (grande responsável pela magnifica publicação da primeira edição da Métal Hurlant), a título de curiosidade, deve o seu nome à alcunha dada aos seus criadores: os quatro acima referidos eram denominados pelos seus pares como “Os humanóides associados” ou, talvez, como “Os sócios humanóides”. Seja lá como for, são estes os “culpados” pela transposição dedicada da Banda-Desenhada a um público maioritariamente adulto . Não escolho a palavra “elevação” porque não considero que a Banda-Desenhada infanto-juvenil seja merecedora de menor consideração do que a BD adulta.

Se o nome de Jean Giraud diz muito, bastante, a todos nós, mesmo aos mais tenrinhos, seja como tal ou na forma dos seus pseudónimos (Giraud ou apenas Gir) ou mesmo heterónimo (Moëbius), também o nome de Dionnet faz tocar algumas campainhas entre nós, nem que seja pelo seu trabalho ilustrado por Enki Bilal (“Exterminador 17”, originalmente publicado na Métal Hurlant). Mas, e o trabalho de Druillet?! Será que apenas o nome faz soar campainhas, ou conseguem associar o nome aos seus magníficos negros e pessimistas delírios na ficção científica desenhada? Se sim, então são uns sortudos (eu considero-me um). Em Portugal não mereceu um álbum sequer (!), algo que considero uma heresia por ser um nome ao qual a BD é indissociável. Ainda mais quando temos no nosso panorama um artista que foi influenciado por Druillet: Victor Mesquita no registo do seu absolutamente fantástico “Eternus 9”. Dirão alguns que foi de facto o Moëbius a verdadeira influência de Victor Mesquita, eu não discordo, mas ressalvo que tanto Moëbius como Druillet se influenciavam um ao outro, a mescla é notória, por tal até os próprios se "confundem"; também estou certo que o Victor Mesquita teria tido uma certa influência nesses autores caso pertencesse à eclética "associação" de amigos (não tenho conhecimento factual para afirmar o que afirmo, são apenas suposições, pelo que alguém que de facto o saiba, por favor não se iniba de me ensinar); da minha parte aproximo mais o Victor Mesquita ao estilo de Druillet, portanto façam a leitura que quiserem. Faço aqui um à parte para dar os meus parabéns à iniciativa de terem reeditado o “Eternus 9” deste nosso grande artista, fica a pena e a incompreensão de o álbum ter sido lançado com um preço absurdo; fico à espera da prometida continuação (também seria de louvar a reedição de outros trabalhos deste artista, muito mais difíceis de encontrar nos alfarrabistas do que o “Eternus 9”, como exemplo: “Babel”, aqui num registo mais "Moëbiano").

Druillet brindou os bedéfilos com duas séries magníficas: “Lone Sloane” e “Salammbô”. Para além destas séries publicou “Mirages”, “La Nuit”, “Gail” e “Nosferatu”, entre mais alguns álbuns. Curiosamente o meu primeiro álbum do Druillet foi exactamente o último que publicou (“Nosferatu” Dargaud 1989), e estranhamente atraiu-me imediatamente. Escrevo estranhamente porque é (talvez) um álbum atípico e sem dúvida é estranho no conteúdo e na própria fluidez da narração (por não ser fluído). A preto e branco e com o texto dos balões desenhado pelo mesmo torna-o uma leitura complicada. Primeiro porque é necessário conhecer as diversas obras de Nosferatu, em especial as de Murnau (1922) e Werner Hertzog (1979), depois é preciso entender, a dada altura, que a de Druillet não é uma adaptação mas antes mais considerações ou meditações sobre a vida e a morte. Na obra de Druillet é normal encontrar estas e outras considerações sempre num registo fatalista do ponto de vista de um pessimista crónico.

A série “Lone Sloane” (4 álbuns) narra as aventuras de um Pirata, ou antes, um Flibusteiro (aqui está um nome que ouvia o meu Pai dizer quando me contava histórias de piratas!) renegado, que juntamente com os seus dois companheiros, Yearl e Kurt Kurtsteiner, singra no espaço sideral a bordo da sua nave O Siddarta. Numa atmosfera totalmente “Lovecraftiana” (H. P. Lovecraft) e “Vogtiana” (A. E. van Vogt) estes “heróis” debatem-se com Deuses obscuros, monstros e, claro, um opressivo Império galáctico. Imperdível. Na senda de Impérios opressivos, chamo a atenção para a ilustração que o Druillet fez aludindo ao filme de George Lucas, “Star Wars”.

A série “Salammbô” pega na novela de Gustave Flaubert que conta uma história passada na antiga Cartago com a filha do General Amílcar, Salambô, e do amor condenado desta pelo líder dos mercenários que montaram cerco à cidade nação, de acordo com as crónicas de Polybius. Druillet dá-lhe a dimensão própria deste autor. Épica.

Faço aqui um convite a todos para conhecerem um dos “Hall of Fame” da BD e se o Francês for um inconveniente procurem álbuns da NBM Publishing (em Inglês) e da Heavy Metal (em Inglês) deste expoente da arte sequencial que não se arrependerão.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O HOMEM É BOM?

Na Amadora BD deste ano tive a oportunidade de trocar umas ideias com o David Loyd acerca do seu último trabalho (“Kickback”), o qual expressa a faceta humana que o mais disturba: a propensão inata do Homem para o crime e a facilidade com que este se distancia face ao mesmo. Comecei por concordar com ele e afirmei que o homem mais pacato e sereno se confrontado, por exemplo, com um filho em perigo nas mãos de um meliante não se abnegaria de matar este último, sem grandes dramas. Depois evidenciei que estas seriam circunstâncias extremas e altamente improváveis, logo não se poderia analisar o Homem por um acto improvável. É certo que é apenas um exemplo, e não faltarão oportunidades ao Homem para cometer um qualquer crime, com ou sem filho à mistura, como é facilmente verificável. Parti, sem sucesso, para uma abordagem mais filosófica: “L'Homme, est-il bon?”, em referência à rapsódia de Moebius. Talvez não conhecesse, talvez seja “burro velho” ou talvez seja “raposa velha” e não quisesse entrar em tão etérea conversação enquanto fazia uma dedicatória no meu “V for Vendetta”. Prefiro acreditar nesta última. Afinal reconheço que não seria uma conversa fácil de ter em cinco minutos, por outro lado também não seria divertida, e com um ou dois copos a mais então não valeria mesmo o esforço. Mais, não sendo eu filósofo, as profícuas bases necessárias para abordar tal existencialismo poderiam faltar-me e então passaria por um metido a intelectual, o que não seria de todo agradável. Embora não seja um filósofo e não tenha as profícuas bases, tenho algumas para não me espalhar ao comprido caso a conversa fosse para a frente e até ter maneiras e alguma humildade para não dar uma de metido a arrogante e douto intelectual. Reconheço algumas das minhas limitações…outras, ainda não! Mas arrepiando caminho, provavelmente cairia na velha questão da moral, ou melhor, da falta dela. A capacidade de alguém cometer um determinado crime advirá (mas nem sempre) da sua moral perante si e a sociedade. Ressalvo os paradoxos e as circunstâncias extraordinárias.

Nos álbuns do Escorpião (Marini), As Nove Famílias recriam a sociedade assentando-a numa amálgama de regras definidas por uma moral Católica, e que se não fossem acatadas culminariam em danação eterna (na vida, pela consciência; na morte, por suposta vontade divina) a quem as infringir. Estes illuminatti (As Nove Famílias) por não se regerem pelas regras que criaram, logo, dominam o mundo.

Numa outra ocasião, numa conversa, havia alguém que defendia que o mundo é dos “espertos” (por sinal alguém que tinha um negócio de vendas agressivas!), eu argumentei que o mundo ainda é dos inteligentes, os “espertos” é que têm a mania que é deles. As Nove Famílias foram inteligentes em moldar uma sociedade na qual não teriam que viver segundo as regras por eles implantadas. Os “espertos” são imorais não por terem a inteligência necessária para perceber a cabala, mas conhecendo a leis morais preferirem não as seguir para proveito próprio: existe aqui a diferença entre o “esperto” pura e simplesmente não saber que não há crime algum e em consciência saber que está a cometer um crime, respectivamente.

Tanto melhor a regra, mais fácil será aceitá-la como meritória. Daí eu acreditar que o Homem é bom, por acatar com facilidade um conjunto de regras que o refreiam; daí eu acreditar que o Homem não tem moral, apenas vive de acordo com as regras de quem era inteligente e que conseguiu trazer ordem ao caos de uma sociedade que sem regras seria extremamente difícil de subjugar. Confundo “bom” com “ingénuo”? Enquanto adjectivos, quantas vezes não andam eles de mãos dadas? Obviamente é uma visão monocromática. Livros, compêndios, extensas obras de uma vida foram escritos sobre o assunto. Leiam algumas, se tiverem paciência (estou certo que já o fizeram num dado momento).

Em tudo que nos rodeia, Banda Desenhada incluída, há uma exploração deste pressuposto. Ao longo da História, em sociedades que não a Judaica, Católica, etc., a moral associada não era exactamente a actual, embora convirjam em muitos aspectos. Actos de barbárie são hoje cometidos que outrora seriam deploráveis perante uma outra perspectiva moral, e vice-versa.

Moëbius/Jean Giraud explorou muito bem estes aspectos nos seus realmente ficcionais e improváveis mundos. Desde o título referido supra a outros que nascem desse: “The Long Tomorrow”; “Escala em Pharagonescia”; “O Homem de Ciguri”; “A Garagem Hermética”; “O Mundo d’Edena”. Mesmo os títulos “O Cristal Maior” e “Altor” explora essa faceta do Homem, de maneira mais suave, escrevamos assim.

Marini cria uma série (Escorpião) baseada no pressuposto da (falsa) moral (onde é que estão os álbuns em Português? A série já vai no oitavo volume!).

Os Comics Norte-Americanos, seja qual for a época, sejam mainstream, sejam indies, sejam underground, sejam o que forem, são, sem dúvida na sua esmagadora maioria, obcecados pela moral. Cada vez menos “a preto ou branco”, é seguro, mas lá está ela por todo o lado.

A BD Sul-Americana é também profícua no tema, e ao contrário da congénere do Norte é bem menos monocromática e apresentada de forma mais subtil, vitima dos diversos governos despóticos dos seus vários países. Em Portugal também existem alguns exemplos desta BD exploratória da moral, ou falta dela; também apelidada de “pouca-vergonha”.

Cada sociedade se debruça sobre a moral de diversas maneiras. É interessante ler algumas Mangas e dentro desta alguns géneros. Eu não conheço muito, é certo, mas as que li não as vi muito preocupadas com a moral, mas mais com a inevitabilidade da vida e suas convergências e divergências. A fatalidade abunda. Claro que já li algumas em que é o “mal” contra o “bem” e ponto final.

Noutras culturas não há uma lição de moral, antes uma escola que ensina o karma, uma lição de vida, o bem e o mal. Dois termos para a mesma coisa?

A moral é indissociável da condição Humana? O Homem só será Homem enquanto mantiver algum conceito de moral? Será que é a moral que nos diferencia dos animais, ou apenas os polegares oponíveis? Será que tanta moral afoga o Homem, ou será que falta mais moral para “salvar” o Homem? De uma coisa estou seguro, a moral será sempre a principal fonte da qual o Homem beberá, restará saber se por vezes não estará envenenada.

Eu gostei da forma como o Moëbius abordou em última análise esta questão, que ele próprio colocou: o Homem não é Bom nem Mau, é apenas intragável!