terça-feira, 2 de setembro de 2008

DEUS DEBAIXO DA MÁQUINA

É a tradução ad litteram da expressão Latina “Deus ex machina”. Esta expressão, no entanto, surgiu na antiguidade clássica helénica, muito utilizada no teatro, referindo-se a um improvável, inesperado ou inverosímil objecto, personagem ou situação repentinamente introduzido na tragédia e ou na comédia para deslindar um complicado e já difícil enredo. Foi de facto uma forma um tanto ou quanto fácil, mas ao mesmo tempo inteligente – por acudir aos menos atentos, ou aos menos mentalmente afortunados – de magnanimamente terminar e explicar a peça. Basicamente, no teatro Grego, este dispositivo consistia, no final de cada uma das peças, em fazer baixar um qualquer Deus (normalmente seria o mais adequado à exigência da situação) através de um guindaste até ao palco, onde por sua vez começaria a explicar e a deslindar a trama.
A expressão ainda hoje é utilizada, mas para indicar um qualquer desenvolvimento de uma qualquer história que não leva em consideração a sua desejada lógica e se torna, ou apenas é, tão inverosímil que permite ao autor terminá-la com uma situação improvável porém mais conciliadora. Deus ex machina também pode descrever alguém ou alguma coisa que aparece e resolve uma dificuldade aparentemente insolúvel; poderiam alguns considerar que figuras de proa na utilização deste dispositivo seriam os escritores Agatha Christie e Sir Arthur Conan Doyle, por exemplo, mas realmente não se enquadram, pois fundamentam motivos ao longo de toda a história preparando a apoteose de forma consolidada. Hoje em dia será muito pouco recomendável recorrer a este artifício, por ser demasiado “preguiçoso” e talvez demonstrar incapacidade da parte de quem escandalosamente o utilizar.
Deus ex machina também se caracteriza pela aplicação de uma revelação, dentro de uma história vivida por um personagem, que envolva realizações pessoais complicadas e ou perigosas e ou mundanas e, eventualmente, na sequência de eventos aparentemente não relacionados que acabam por conduzir ao ponto fulcral da trama principal (isto é muito observado na série Lost, através do que se conhece também como flash-back).
Deus ex machina não é exclusivo da ficção. Na vida real, os “heróis” estarão muitas vezes abrangidos pelo conceito, por razões já supra mencionadas.

Entendendo a expressão será provavelmente mais fácil ir de encontro à ideia do não muito original autor. Os conceitos que este autor recria são já muito batidos: o último homem à face de uma terra apenas povoada por mulheres; a guerra por um ponto de vista que não a dos homens; a politica e o providencial e inverosímil super-homem que a mantém limpa, ou menos suja; ou o mais misterioso, aparentemente desconexo ambiente, carregado de inverosímeis situações, personagens e objectos. Mas é na recriação destes conceitos que Brian Keller Vaughan acaba por ser brilhante, um mágico, segundo Brad Meltzer (consultor do FBI, da CIA e do DHS; co-criador de TV; premiado escritor de ficção e comics – "Identity Crisis"). Os seus textos absorvem-nos para a trama, pelos seus textos detalhados, inteligentes, por vezes apenas insinuantes, cheios de corpo, umas vezes acutilantes, outras, um marasmo de dúvidas. Não é realmente à toa que se tornou numa referência da escrita dos Comics e mais recentemente da televisão. Nos Comics colecciona sucessivas nomeações para os mais creditados prémios da Industria, tendo já arrebatado alguns. Títulos como "Y – The Last Man" (prémio Eisner best series 2008), "Ex Machina", "Runaways", "Ultimate X-Men"; “Pride of Bagdad”; e a sua estreita colaboração na escrita dos argumentos da arrebatadora série campeã de audiências “Lost”, fazem dele um dos Homens da actualidade. Vaughan já passou pelas principais editoras e já deixou o seu timbre em imensas e improváveis (pensaríamos nós) séries e personagens; desde a sua estreia com o "Cable" até "Ka-Zar", passando por um “What if?”, também no "Batman" e "JLA", até à "Buffy, the Vampire Slayer", entre muitos outros.

EX MACHINA é que me traz aqui. Já há muito tempo que andava intrigado pela série, quando soube do lançamento da edição especial em hardcover (ou cartonado, se preferirem) que compila os primeiros 11 números, decidi esperar. Longa foi a espera, mas acabou por compensar, pois a edição tem acabamentos muito cuidados e de extrema qualidade. No entanto é muito fraquinha quanto a extras; para quem gosta destes, nesta edição apenas terá a proposta original do autor para esta série, com alguns desenhos e estudos de personagens.
A história, para quem (como eu até há pouco tempo) desconhece (ia), passa-se no período consequente à tragédia do 9/11 e debruça-se no personagem Mitchel Hundred, o novo e independente Mayor de Nova York. Vaughan começa esta série não pelo princípio. Nós somos apresentados ao personagem principal pelo próprio, e já no fim do enredo. Segundo Brad Meltzer, na introdução, EX MACHINA começa com uma confissão – provavelmente uma desculpa – do terrível desastre causado pelo próprio Mitchel Hundred em 2005. Não começa como um Super-Homem, a sorrir e a salvar o mundo envolto na bandeira. Antes, ele lamenta-se tal Rei Lear, contando-nos secamente que “it may looks like a comic, but it’s really a tragedy.” Logo nesta primeira página, o autor, dá-nos logo o fim. Faz-nos uma promessa. Ele diz-nos – promete-nos – que se tivermos dispostos a ouvir, esta vai ser uma das mais devastadoras, horríveis, tragédias que alguma vez o olho Humano testemunhou. Ele garante-nos que o personagem por quem nós vibramos irá miseravelmente falhar. Irá ser uma carnificina. Este é o desafio: será que conseguiremos afastar o nosso olhar?! Afastar o nosso olhar da complexidade do ego do Mitchel Hundred; das nuances dos personagens que também habitam a história, como Kremlin, Bradbury, Mom, Zeller, e os outros? Não há dúvidas que esta é uma história de política. Não apenas politica, mas ciência politica no seu todo, institucional, do aparelho e seus constituintes, suas batalhas sobre as próprias condições e fraquezas. Também é a história de um “super-herói”, o primeiro do Mundo, “The Great Machine”.

Como qualquer leitor de comics (em especial) sabe, tudo descambaria num redondo falhanço se a arte que acompanha qualquer argumento – por mais brilhante ou genial que este possa ser – não estivesse à altura. A esta série, Tony Harris dá-lhe vida. Vida a sério. Tony Harris consegue captar tudo o que existe num ser humano e mesmo na cidade e resto do Mundo que o rodeia. A beleza, a fealdade, a juventude e a velhice são desenhadas sem meias medidas, apenas como as coisas e as pessoas são: imperfeitas, logo com autenticidade. Este artista de 39 anos, mas com cerca de 20 anos de experiência, já passou por todas as grandes casas da indústria dos comics desenhando séries e personagens bastante conhecidos de todos nós. Vencedor de dois prémios Eisner, um pela série STARMAN, outro por EX MACHINA, está agora a trabalhar para lançar uma série sua. Ficam aqui as imagens (fotografias) que serviram de modelo à criação dos personagens Bradbury, Kremlin e Mitchel.

Não menos importantes, embora raramente mencionados, são os responsáveis pela arte-final e pela coloração das obras. Portanto faço questão em mencioná-los aqui.
O responsável pela arte final desta série é o Tom Feister. Feister é já presença habitual na arte final de muitas séries de renome, caso dos Fantastic Four ou Iron Man, entre outras.
O responsável pelas cores é o JD Mettler. O JD também já tinha trabalhado para a Marvel e para a DC (anteriormente) e desde que chegou a esta série ganhou uma nomeação Eisner para melhor colorista e inúmeros convites (que tem aceite) para trabalhar com as maiores empresas nos mais famosos personagens até hoje criados.

EX MACHINA deluxe edition book one, assim como a série, são da responsabilidade da Wildstorm Productions, inprint da DC Comics, a Warner Bros. Entertainment Group.
É uma obra muito séria, mas o humor subtil também não falta. Para quem não gosta de política, talvez não seja a melhor escolha. Para quem gosta de se sentir desafiado a embrenhar-se num argumento complexo, então será muito generosamente recompensado. Em suma, leitores inteligentes precisam-se.

7 comentários:

Anónimo disse...

A propósito de Agatha Christie, convido você e a todos para conhecerem dois blogs recém-lançados...

A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie
http://acasatorta.wordpress.com

Cinema é Magia
http://cinemagia.wordpress.com

Um abraço.

Bongop disse...

Olá Pedro
Essa sempre foi uma série que me criou curiosidade. Sempre que fazia buscas por outros títulos, esse atravessava-se inúmeras vezes à minha frente, mas nunca me deu para investigar mais fundo para conhecer mais um pouco da série. Obrigado por uma boa explicação! De qualquer maneira tenho sempre receio de comprar edições desse género, porque o papel é quase sempre muito ordinário, tipo papel de jornal. Pelo que me contaste, não fiquei muito a fim da série, não pela qualidade da dita, mas pelo tipo de enredo... só lendo um pouco... aí talvez me desse o entusiasmo!
:)

celtic-warrior disse...

Série excelente e um desenhador em god-mode. Quando li isto até me babei, tanto o argumento como a arte são uma coisa do diabo e esta série aconselha-se a todos os apreciadores de comics. Mesmo que não gostem de política, julgo que vão gostar.

OCP disse...

Tanto a nível de argumento como de arte, essa parece uma obra fora de série...
Confesso que ainda não conhecia mas depois da tua apresentação aqui, este é um titulo a adicionar à lista a comprar. :-D

Abraço. :-)

celtic-warrior disse...

Já que meteste aí uma imagem do Pride of Baghdad, aproveito para dizer que o livro sabe a muito pouco. Tudo bem que o Vaughan respeita factos verídicos, mas aquele final, nos tempos de hoje, não tem impacto nenhum e há por ali cenas que parecem introduzidas a martelo (tipo a do Urso).
Começa tudo muito bem, mas o fim é uma desilusão.

looT disse...

O Ex-Machina ainda vai demorar mas o Pride of Bagdad já cá o tenho para ler.

Exclente texto refém.

Já agora falavas de como te irritava a postura do Surfer num comentário do "Limited Edition" e por isso tomei a liberdade de te mostrar esta página de BD: http://alternative-prison.blogspot.com/2007/01/exiles-surfer-vs-gladiator.html

É sobre o Surfer de um Universo Paralelo só por aquela página já dá para ter uma ideia. Aqui ele é mau e talvez lhe aches mais piada. Foi tirado do comic dos "Exiles".

Abraço

looT disse...

*Excelente