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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

EXCELSIOR

 Antes de começar este post tenho que escrever que tentei colocar mais imagens para ilustrar este texto, mas demonstrou-se ser uma missão quase impossível: o novo formato de mensagens destes blogs foi de mal a pior, as imagens são colocadas pela aplicação onde esta quer e não onde eu quero! Movimentar a imagem para um dado sitio é um exercício que mede a minha paciência de tal forma que eu prefiro não me aborrecer mais. É o mal do pessoal da informática: quando algo finalmente funciona, têm logo que vir fazer "evoluir" a aplicação, sem que isso traga qualquer proveito ao utilizador, que tem que começar tudo de novo, prejudicando de forma séria a qualidade do seu trabalho e mesmo a produção desejável. Cambada de gente que só gosta de complicar.

Stanley Martin Lieber, assim haverá muita gente que não discernirá de quem se trata, agora como Stan “The Man” Lee, para quem aprecia Comics, não precisa de qualquer apresentação. Para quem não conhece, é um dos gurus dos Comics Norte-Americanos e, convenhamos, com toda a justiça, um dos nomes maiores da 9ª Arte no Mundo.

  Sozinho e em conjunto com outros grandes nomes da História dos Comics foi responsável por uma nova aproximação aos Comics, que já existiam há muito tempo antes dele. A “humanização” dos personagens que habitam os Comics, essencialmente os Comics onde protagonizam os chamados “Super-Heróis”, foi da sua quase inteira responsabilidade. Até então, os super-heróis eram quase invariavelmente seres extraterrestres, ou humanos com meios extraordinários, como os mais famosos Superman e Batman. Caiam no estereótipo arcaico, onde o desenvolvimento tridimensional do personagem era secundário, ou pura e simplesmente inexistente, personagens de alta índole moral, inatingíveis, acima do comum dos mortais, bastiões da integridade. Após o sucesso dos Comics de super-heróis na década de 30 e seguintes, houve um inevitável declínio no interesse nos mesmos por parte do público já durante a segunda metade dos anos 40, mas principalmente durante quase toda a década de 50. Alguns dirão que realmente nunca tinha havido uma descolagem do género super-heróis em relação aos outros existentes (Policial, Horror, Fantástico, Humorístico, Western, etc.) até à entrada em cena do Sr. Stan Lee.


 Embora já trabalhasse no ramo dos Comics desde 1939 na Editora Timely Publications (Martin Goodman, Publisher; Joe Simon, Editor) e fosse um artista publicado desde 1941, foi em 1961 com o lançamento da revista Fantastic Four que Stan Lee se afirmaria como “O” monstro sagrado dos Comics. Desde os tempos da sua primeira co-criação, “Destroyer” (decorria então a agora chamada “Golden-Age of Comics”), que Stan Lee vinha a crescer a sua ambição, na mesma medida da sua frustração, de transformar os Comics de super-heróis em algo de mais tangível ao seu público-alvo na altura, os pré-adolescentes. Em meados dos anos 50, a editora era então reconhecida por Atlas Comics, publicando vários géneros de Comics.

 No final da década de 50 a DC Comics (O gigante da industria dos Comics) reanimou com algum sucesso o género super-heróis pela mão do seu então editor, Julius Schwartz, com os títulos “Flash” (reinventado) e “Justice League of America”. Mas, conforme foi já anteriormente descrito neste texto, o arquétipo dos personagens e das histórias manteve-se fiel ao antigo existente desde a década de 30. Para apanhar o comboio do sucesso, Goodman incumbiu o então editor-chefe e director de arte Stan Lee de fazer o mesmo que a DC. Descontente com o panorama, já pensando em mudar de carreira, Stan Lee foi encorajado pela sua esposa, JC (Joan Clayton Boocock), a seguir os seus instintos e as suas ideias, uma vez que pouco ou nada teria a perder. Em conjunto com outros criadores, artistas e escritores (Jack Kirby, Steve Ditko e Wally Wood são os mais memoráveis) decidiu lançar-se na aventura que acabaria por revolucionar a indústria dos Comics, até aí completamente dominada pela rival DC Comics.


A Atlas Comics passaria a ter o “label” Marvel Comics em virtude do primeiro título de Comics lançado pela Timely Publications em Outubro de 1939. O primeiro título com o “label” Marvel Comics foi o número 3 da “Amazing Adventures” em Agosto de 1961. Aqui nasce a agora chamada “Silver Age of Comics” e com ela o primeiro herói da Marvel dessa época, “Dr. Droom”. 

É em Novembro de 1961 que seria publicada pela primeira vez uma das revistas que marcariam várias gerações, e nela nasceriam os primeiros dos super-heróis criados e co-criados por Stan Lee que abalariam e, inexoravelmente, acabaram por demolir os arquétipos em que todos os personagens do género até então assentavam: Fantastic Four #1.
 A Revolução da Marvel consistiu simplesmente em “humanizar” os até aí intocáveis, altivos e “maiores que a vida” super-heróis existentes. Tornaram-se humanos, com contas para pagar, com invejas, preocupações, amores e desamores, tristezas e alegrias e tudo o que é inerente à condição humana. A ciência era a usual desculpa para tornar alguém “super”; já não necessitava de ter nascido num planeta distante, ou numa dimensão diferente, ou ser um multimilionário extravagante, ou ter morrido e se tornado numa sinistra criatura, etc. Bastava mexer numas provetas e ter um acidente e…vai buscar: agora és um homem lagarto! Ou ser um promissor estudante, que leva porrada dos colegas por ser marrão e não ter jeito para as miúdas, ir a uma visita de estudo e ser mordido por uma aranha…radioactiva! BAZINGA…és o Homem-Aranha! Ser um promissor cientista na área dos estudos militares, a testar uma nova Arma de Destruição Massiva à base de radiação Gama (porque não?!) por ele inventada, ver um puto entrar na zona de testes, sair a correr para o salvar, conseguir salvar o puto mas a ele não, por manifesta falta de tempo (não nos acontece todos os dias? Ter falta de tempo, isto é!) e TUMBA-LA: és o Incrível Hulk! Talvez seres um médico coxo, que ao contrário daquele que aprendemos a odiar na TV, é um tipo lourinho e muito bonzinho, que sente o chamamento, bate com a bengala no chão…ZUNGA: és o Thor, o Deus do Trovão desaparecido há muito! Ou, para terminar uma lista que seria muito, muito longa de situações muito verosímeis, pois então (!), para alguém se tornar “super”, um dos meus favoritos: viveste há muito tempo, combateste os nazis com enorme sucesso e desapareceste inexplicavelmente para um dia apareceres a boiar no oceano dentro de um bloco de gelo; veio um habitante de uma espécie subaquática conhecida por Atlantes, que por sinal é Príncipe, liberta-o e…depois de muita porrada…TRUXAS, bem-vindo de volta Capitão América, paladino da poderosa América! Ridículo, não é? Mas o pessoal adorava (e adora), gastando a semanada, a mesada e até uma boa fatia do ordenado, fazendo da então marginal indústria dos Comics numa indústria do bilião de dólares ano (um bocadinho mais).
 Enfim…a imaginação (muito fértil e fantasiosa) continua a ser o principal factor nos Comics de super-heróis e não foi aqui que eles mudaram. A transformação deu-se na medida em que os novos super-heróis depois de andarem à porrada com uns gajos do espaço, têm que ir ao hospital curar os ossos partidos (com algumas excepções!), depois têm que arranjar um emprego para pagar as contas dos absurdos custos dos seguros médicos (e não para esconder a identidade), pagar a renda, pelo caminho conhecem uma moça simpática, começam a namorar (com todas as alegrias e ansiedades próprias do acto, mas também com uma panóplia de preocupações devido à condição de “super”: “será que lhe conto, ou será que não lhe conto?” é a mais recorrente), casam-se (ou não), têm filhos (ou não) separam-se (ou não!), têm ciúmes (têm sempre! Elas são sempre jeitosas!), morrem (ou não! E aqui isto é muito complicado, pois muitos que morreram acabam por voltar!), etc.

O que é certo é que esta nova fórmula não só cativou ainda mais uma geração inteira de pré-adolescentes, como ainda foi buscar os adolescentes e os pais de alguns destes, que no seu tempo tinham apreciado o género, mas depois caíram na real e não tiveram pachorra para aturar tipos maiores que a vida, ainda por cima vestidos em licra e spandex. Apesar de inverosímeis, e continuarem a vestir licra e spandex, estas novas histórias de super-heróis traziam muita “miséria” da vida destes, alguns coitados, novos “super”…e não é uma questão de toda a gente gostar mais de chafurdar na miséria dos outros do que aquela em que vive, mas encontrar pontos de contacto, referencias, entre os personagens ficcionais e o leitores, estratégia que se revelou brilhante.
  Mas os enredos continuaram a complicar-se, não bastando a nova condição humana destes “super”, o factor sociedade também entrou no baralho. Saída de um pós-guerra que floresceu a economia Norte-Americana, elevando o “American Dream” ao seu expoente máximo durante a década de 50 (não obstante a guerra da Coreia). A década de 60 trouxe um panorama mais complicado nesse plano, desde as lutas contra a segregação racial com Martin Luther King, a Televisão, a transformação política com o clã Kennedy e as tensões geopolíticas vividas nesse período, nomeadamente a crise dos mísseis com Cuba e a guerra do Vietname, revoltas estudantis, crises petrolíferas, económicas, a crise na família tradicional americana com uma libertação do papel da mulher ora por necessidade ora por vontade da própria, um crescimento súbito da emigração clandestina, o desenvolvimento dos carteis da droga a sul da fronteira, e uma plêiade de outras situações que terminaram com a vida vista e até sentida em tons de cor-de-rosa de uma América em que absolutamente de forma esmagadora predominava a vontade e a visão WASP (White, Anglo-Saxon, Protestant). Todas estas questões foram sendo, devagar, colocadas nos Comics. Como exemplo, na questão das drogas o Stan Lee ajudou a rescrever o apertado Comics Code (Código de conduta aceitável nos Comics, leia-se “Censura”), quando criou uma história na qual um amigo do Spider-Man se tornou adicto a barbitúricos, tendo com isto querido avisar contra os perigos do uso de drogas. Esta história foi escrita por Stan Lee a pedido do Departamento de Estado da Saúde, Educação e Segurança Social dos EUA. Acabou por ser rejeitada pelo Comics Code Authority por ser uma história que retratava drogas, tendo o contexto sido totalmente desconsiderado. A história foi publicada na mesma, sem o selo de aprovação da autoridade “competente”. A edição vendeu muito bem e a Marvel foi amplamente louvada pela sociedade, o que levou a Comics Code Authority a reconsiderar o código, permitindo então mais liberdades até aí vedadas. As nuances e mudanças subtis ou bruscas na sociedade eram, e são, impressas nos Comics. O nível e a intensidade dramática alteraram-se por completo. Mesmo os heróis tradicionais e mais antigos, como o Superman e o Batman da gigante DC, tiveram que se adaptar à forma como Stan Lee visionou os novos Comics: o Superman tornou-se mais sorumbático e introspectivo, de perfeitamente adaptado a ser um humano passou a se sentir um alienígena, a sua até então indiscutível invulnerabilidade, mesmo a não física, é colocada em “xeque”, culminando até na morte do personagem; O Batman, de absoluto paladino da justiça passa a vigilante temido, figura mais e mais obscura, psicótica em muitos aspectos, também encontrando um fim dramático distante da aura dourada dos velhos tempos da Golden Age, passo o pleonasmo. Na Marvel, mais recentemente desde Joe Quesada, que a passada rápida e larga da realidade atropela por várias vezes as situações vividas na ficção dos Comics. Goste-se ou não, Quesada imprimiu um paralelismo ficção versus vida que transformou ainda mais os Comics, na linha do pensamento original de Stan Lee. Exemplos são a linha Ultimate, que reinventou todos os heróis (re)inventados na década de 60 e os trouxe para o público do século XXI, sem o sucesso que provavelmente desejavam, mas, sem dúvida, com bastante impacto; A morte de certos personagens, como o Capitão América, na sequência da politização dos personagens na saga “Initiative”, responsabilizando-os pelo poder e habilidades que possuem, nas consequências que estes poderão trazer, sejam estragos materiais, sejam mortes e acidentes de qualquer natureza, governamentalizando os super-heróis com um acto em forma de lei, que culminou em Guerra Civil entre eles. Tudo isto fruto do ignóbil 09/11 que em muitos aspectos acordou a sociedade Norte-Americana, é certo, mas que com isso abordou velhas questões que ensombravam o universo e as histórias dos Comics e de quem as lia. Fruto de uma evolução, dir-se-ia natural, mas em vez, pela vontade do Stan Lee em humanizar os Comics e da aceitação indiscutível do público.
 No final da década de 60, Stan Lee, se calhar por já não ter mais lata de criar pessoal “super” por erros ou acidentes laboratoriais, sem fugir à ciência, voltou-se para a Natureza e nas observações e descobertas que a própria ciência ia nesse tempo vislumbrando. Dessa observância surgiu um novo tipo de “super”, os Mutantes (X-Men). Sucesso. Na senda da humanização dos personagens, estes ainda inspiravam mais a camada pré-adolescente: também eles poderiam ser uns potenciais mutantes! Da imaginação nascia um sonho que embora inverosímil, como o de se tornar um “super” convencional, acabaria por ser um bocadinho mais verosímil no pensamento naturalmente turvado dos pré-adolescentes: bastava nascer com um gene especial, latente, vitima dos tempos modernos, e a dado momento do despontar da puberdade…BAZINGA…és um mutante que inspira respeito (ou medo, ou reverência, ou desejo, etc.), de preferência (e com sorte) com muita pinta! Os Mutantes conseguiram enfatizar ainda mais as particularidades da sociedade moderna, em especial no período pós anos noventa. A proliferação de personagens mutantes terminou num aparente descontrolo o que originou uma “lavagem” à semelhança da rival DC Comics (“Crisis”) com a saga “House of M” sendo um género de “reset”, mas também e talvez um aparente aviso para o despertar de uma ainda maior consciência social.

Stan “The Man” Lee está há já muito tempo longe do comando da Marvel, embora figure nos créditos com o título “Chairman Imeritus”, e sem dúvida será consultado em muitas questões. Muitos projectos pessoais teve desde então, e estou certo que os continuará a ter. Eu espero por eles. Com 88 anos de idade (feitos em 28/12/2010) mantém-se firme na sua dedicação aos Comics, estando ultimamente mais empenhado nas novas películas “live-action”.
 Como curiosidade, repare-se nos nomes de alguns dos personagens criados pelo Stan Lee: Reed Richards; Sue Storm; Dr. Doom; Peter Parker; Black Bolt (Blackager Boltagon); Dr.Octopus (Otto Octavius); Green Goblin; Silver Surfer; Bruce Banner; Pepper Potts; Stephen Strange; Dredmund the Druid. Ou ainda: Fin Fang Foom; Dum Dum Dugan; Mogul of the Mystic Montain; Man Mountain Marco; J. Jonah Jameson. Perceberam? Os dois ou três nomes de cada personagem começam com a mesma letra. Durante algum tempo especulou-se sobre isso e, como sempre, andou-se atrás de um significado intelectual ou misterioso ou mesmo perverso para tal! Como quase sempre, também a explicação é simples e não implica nada de extravagante: Stan Lee criou-os assim apenas por ser mais fácil para ele lembrar-se dos nomes.

 A frase famosa “With great power comes great responsibility” foi criada um tanto ou quanto à pressa, segundo o próprio Stan numa entrevista que deu ao Kevin Smith (criador de Comics, realizador de cinema), para preencher um balão de narrativa que tinha sobrado numa vinheta de uma história na edição número 15 da revista Amazing Fantasy; a frase coube perfeitamente no balão de narrativa e acabou por se tornar icónica, mais tarde atribuindo-a ao tio, Ben Parker, de Peter Parker (Homem Aranha). Devido ao elevado número de Comics que Lee tinha que levar às bancas e ao baixo número de colaboradores com quem trabalhava, os textos não podiam ser escritos em forma de guião e enviados para o desenhador, não havia tempo. O escritor e o desenhador tinham uma reunião, presencial ou por telefone ou por carta, onde discutiam e acordavam a história que queriam transpor para o papel, muito sucintamente; o desenhador criava as vinhetas com os balões vazios, e com indicações nas margens para o escritor poder seguir a acção ou as ideias; o escritor criava os diálogos e imprimia-os directamente nos balões existentes nas vinhetas. Por vezes era o contrário, o escritor escrevia uma página e enviava para o desenhador que teria que fazer vinte pranchas com ela. Este processo tem o nome de Marvel Method e foi desenvolvido e aperfeiçoado pelo Stan Lee e os seus colaboradores iniciais, em especial Jack Kirby e Steve Ditko. Devido a este processo, é por vezes dado aos desenhadores créditos de co-escritores. O Método Marvel foi adoptado por outras casas e é ainda hoje utilizado, embora com muito menor frequência, sendo exemplos relativamente recentes: “Kingdom Come” ilustrada e co-escrita por Alex Ross e escrita por Mark Waid; “Marvels” ilustrada e co-escrita por Alex Ross e escrita por Kurt Busiek.
Outra curiosidade, que surge de um episódio recente da série “The Big Bang Theory”, prende-se com o facto de nela se dizer que os coleccionadores mais afoitos, digamos assim, dariam ao Stan Lee revistas da DC para serem por ele autografadas, pelo facto do Stan Lee ser Marvel e nunca ter trabalhado com a DC, tornando essa revista autografada numa peça de colecção raríssima! Bem…o Stan Lee já trabalhou com a DC, recriando vários personagens da DC com os grandes John Buscema, Joe Kubert, Jim Lee, Dave Gibbons, Kevin Maguire, John Byrne, Gary Frank, Scott McDaniel, Chris Bachalo, Walt Simonson, Jerry Ordway e John Cassaday (DC, “Just Imagine Stan Lee’s…” – 2001). Mas, realmente, uma revista DC de outro escritor que não o próprio Stan, autografada por este último, seria raríssima pois acredito que o Stan mais depressa mostraria “O Dedo” do que assinaria uma coisa dessas!
 Os Comics pós Stan Lee começaram a ter uma muitas vezes desconsiderada tarefa de educar uma enorme fatia da população mais jovem, cada vez mais alheada da realidade devido a um sistema educacional caduco. Não focando casos concretos, mas uma generalidade de assuntos da sociedade civil, chamando a atenção e fazendo pensar os mais atentos para os paralelismos indiscutíveis que são escrutinados nos Comics e que aludem a vida real. Claro que tudo com uma dose bem valente de ficção e fantasia, afinal são Comics de super-heróis. Mesmo os super-heróis convencionais são hoje, nos Comics, antes anti-heróis, a linha que separa o Bom do Vilão é bastante ténue, mas Maus há muitos e estes últimos viajam com frequência ora num lado dessa linha ora no outro dependendo da situação. De um outro post, onde abordei as questões morais, estas desvanecem-se e o mundo é encarado pelos leitores de Comics mais jovens de forma muito diferente da chamada “geração Disney” em que não podiam ser confrontados com violência ou alusões sexuais de qualquer espécie (ressalva-se a linha de animação Disney, que sempre teve a preocupação de mostrar que a vida tem sempre dois lados, daí a mãe do Bambi morrer, a mãe do Dumbo ser afastada deste, etc). Este fenómeno de influência foi já estudado nos EUA, e, por muito que a Indústria dos Comics queira fazer crer que não influencia os mais jovens, o que se observa é que realmente tem uma forte influência no pensamento, não se conseguindo provar a mesma no comportamento, mas, aqui entre nós, provado factualmente ou não, é óbvio que também o afecta, sem que com isto queira dizer que seja de forma negativa apenas.
Por tudo isto, e muito mais, com toda a certeza, é o Stan Lee um dos nomes maiores da BD no mundo. Ao visualizar uma nova abordagem dos Comics, de forma mais humana, tornou-os e a quem os lê mais maduros…embora os personagens continuem a vestir licra e spandex! Hehehe!
*EXCELSIOR. (palavra lema do Stan Lee; também do personagem Dr. Samuel Ferguson do livro “Cinco Semanas Em Balão” de Júlio Verne; Lema do estado de Nova York).

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O ESTIGMA DOS COMICS

Este é um post de indignação. Não é a primeira vez, nem será com certeza a última, que alguém ao saber do meu gosto por BD (Banda-Desenhada) e por Comics acaba por escarnecer destes últimos (ou mesmo dos dois!). Usualmente ficam-se por maldizer os Comics. A justificação acaba por ser sempre a mesma: “Não gosto de super-heróis”. O que eu acabo sempre por entender é que essas pessoas percebem absolutamente quase nada de Comics. É perfeitamente aceitável, veja-se, ninguém precisa de saber o que são os Comics para bem da sua cultura, trabalho, vida social (por vezes é melhor nem saberem, em prol da sua vida social), sobrevivência, etc. No entanto, a ignorância nunca foi uma coisa bonita quando se teima em continuar a viver debaixo dela e quando confrontados com uma visão mais esclarecedora que poderia quebrar o preconceito. É, de facto, a teimosia no preconceito que me fere.

- Não gosto de super-heróis.

- Mas os Comics não são só super-heróis. Se te deres ao trabalho de leres alguns dos posts que eu publico no meu bloguezito verás que muito poucos são sobre super-heróis, e mesmo esses são sobre super-heróis muito pouco convencionais, poderá dizer-se que são sobre “anti-super-heróis”.

- AH! Tudo bem, mas eu não gosto de Comics.

- E gostas de BD?

- Alguma. Gosto de Corto Maltese e do Bilal.

A conversa fica quase sempre por aqui. Mais pela vergonha que essas pessoas têm em falar de BD em público (não vão ser conectados com algo que é aparentemente visto como leitura para putos).

Devo acrescentar, antes de continuar, que aceito sem qualquer tipo de problema que haja pessoas que pura e simplesmente não gostem de arte sequencial (chamem-lhe BD, Fumetti, Gibis, Mangá ou Comics). Gostos não se discutem, lá diz o povo. Não é minha intenção assumir qualquer papel de missionário para andar a converter quem quer que seja, por maior que seja a minha paixão. Também compreendo que muitas pessoas associem os “Super-Heróis” aos Comics. É natural que assim seja. A Industria dos Comics está conectada aos personagens que lhe deu força e notoriedade Mundial: Os “Super-Heróis”. Mas, Super-Heróis é igual a Comics? Não, não é. Ou, pelo menos, NÃO É SÓ igual a isso.

As pessoas que melhor me conhecem sabem que eu (já) não sou nenhum puto e que até tenho alguma cultura que me permite falar de inúmeros temas, tão díspares como a literatura (sem serem Comics ou BD, pois também são literatura…por muito que não concordem), religião, física, biologia, astronomia, astrologia, política (ao estilo taxista e mesmo na vertente da ciência política propriamente dita), história, música, etc. Não sou nenhum erudito em qualquer um dos temas, é certo. Estou sempre pronto a aprender ao ponto de reconhecer que nem sempre o que eu penso está de facto correcto, sejam factos, sejam pré-concepções de gostos (às quais também não estou isento). Afinal só necessitava que alguém as explicasse de forma mais esclarecedora para que eu pudesse alterar a forma como as via e sentia. Apesar de eu ter uma natureza teimosa, lembro-me que a tenho e tento contrariá-la para não ser um mentecapto e, pior, acéfalo. Por vezes é difícil contrariar tal natureza, confesso.

Os Comics, caríssimos(as) amigos(as), não são apenas sobre tipos vestidos com licra e capinhas esvoaçantes. Entendam que eu também gosto deste género. Cresci com eles e no fundo, no seu tempo, até gostava de ser como eles: tipo mutante como o Wolverine, ou um génio multimilionário como o Tony Stark (Iron-Man). Mas acabei por crescer e fazer-me um homenzinho. Aliás, os Comics também acabaram por crescer.

Na vertente “Super-Heróis” dos Comics e desde os tempos do Superman (1932) e do Batman (1939) terem pela primeira vez aparecido muitas coisas mudaram. A primeira grande mudança deu-se no início dos anos 60 do séc. XX, com o aparecimento do Spider-Man (Criado pelo Stan Lee e pelo Steve Ditko - 1962). Este super-herói introduziu o factor humanista nos habituais personagens heróicos com capacidades sobre-humanas, pelo aproximar do público-alvo (jovens) ao personagem: é jovem, classe média-baixa, anda no liceu, é vítima de bulliyng, é inteligente e sonhador e torna-se um combatente das injustiças devido a um muito improvável, convenhamos, inverosímil acontecimento, enaltecendo, enobrecendo, o facto que “com grandes poderes, grandes responsabilidades”.

Em 1963, o Stan “The Man” Lee com o Jack “The King” Kirby criou uma equipa que também abalou os alicerces dos Comics: X-Men. Estes sujeitos nasciam com um gene que “acordava” com a chegada da puberdade e se manifestava em casos de grande ansiedade e ou desespero. Cá está, os putos sonhavam (secretamente) em se tornarem um mutante qualquer e libertarem-se do jugo de quem quer que fosse que os restringisse e ou subjugasse.

Aquele pré-requisito de se ser alienígena, ou treinar artes-marciais que nem um louco e ter medo de morcegos, deixou de ser essencial para atingir o factor “Super”. No fundo, a leitura dessas aventuras em formato Comics era um escape do dia-a-dia; uma novela das 21horas para putos iberbes.
O sucesso estrondoso que esta receita trouxe ao mundo dos Comics fez (e faz) a delícia da garotada e, porque não, das casas que as publicam, nomeadamente a Marvel e a DC a liderarem destacadamente o mercado multimilionário.

Mas a garotada cresceu e a mina de ouro não podia acabar ali, naquela idade público-alvo. Os próprios escritores/argumentistas e os artistas/ilustradores também ansiavam por criar coisas diferentes, ou recriar estilos mais antigos de Comics, estilos que antecediam o género “super-heróis” e que foram de grande sucesso. Estilos como o Policial Noir, o Hard-Boiled, o Terror e o Fantástico, a Guerra (com os seus heróis e anti-heróis, por sinal, muito humanos), a comédia satírica, o erotismo, a capa e espada, a espada e fantasia, etc. Foram muito mais abundantes nos Comics os géneros que não os dos Super-Heróis durante bastante tempo.
A própria arte dita Pop começou a colar-se ao processo, sendo o caso do Roy Lichtenstein um caso de renome e também um caso controverso, pois foi acusado de plágio descarado de Comics (comparem as imagens em cima do quadro do Roy L. ao centro com as pranchas muito mais antigas do Russ Heath); eu prefiro pensar que antes foi um elogio aos comics e ao papel destes na Pop Art. Mas os Comics continuam a ser um parente pobre da Arte e da Literatura. Felizmente este estigma está a ser bastante contrariado.

No final dos anos 80, mas principalmente durante os anos 90 surgiram publicações que derivavam das duas grandes casas de Comics Norte-Americanas. Estas duas grandes casas passaram a se designar por Mainstream, por continuarem debaixo das suas chancelas os principais títulos lhes deram notoriedade. Na Marvel: Spider-Man, Uncanny X-Men, Avengers, Fantastic Four e muitas dezenas mais. Na DC: Detective Comics, Batman, Superman, Justice League, Wonder Woman, e muitas dezenas mais. As novas chancelas que derivaram das casas mães, que se designam por Imprints, dedicam-se a géneros de Comics mais literários e onde a arte é muito mais expressiva, normalmente destinadas a um público-alvo mais adulto. Não escrevo mais exigente, pois o público do mainstream é extremamente exigente (cronologia, direcção artística, fidelidade aos personagens e seus títulos, etc).

Com imprints como a Epic, MC2 e MAX pela Marvel; ou Helix, Vertigo, DC Focus, Elsworlds e Cliffhanger pela DC, ou mesmo a Amalgam das duas em conjunto, abriu-se um novo mundo de oportunidades. Algumas destas continuavam a dedicar-se ao universo de super-heróis, mas outras aproveitaram o distanciamento e dedicaram-se exclusivamente (ou quase) a géneros “super-heróis não entram”. Prendia-se também a oportunidade e vontade que muitos dos talentosos artistas e argumentistas tinham em deterem eles próprios os direitos sobre o seu trabalho, o que os títulos mainstream não possibilitam.

A imprint VERTIGO, da DC, é um estrondoso sucesso nesse género e na criação das supra mencionadas oportunidades, com títulos de incrível qualidade que atingiram a crítica literária de tal maneira que alguns livros (leia-se comics) foram colocados no top 100 das melhores obras literárias do séc. XX publicada pelo New York Times. "Watchmen", escrito pelo Alan Moore e desenhado pelo Dave Gibbons, publicado no final dos anos 80 pela DC é o exemplo mais flagrante do reconhecimento literário ao género Comics. Embora seja um Comic de “super-heróis”, foi com este livro que se começou a desconstruir a faceta de incólumes dos mesmos. É, basicamente, um requiem aos Super-Heróis como eram conhecidos e percepcionados até então.
A VERTIGO editou (e reedita) em formato Comic Book, Tradepaperback e Hardcover, títulos como: “V for Vendetta” (Alan Moore e David Lloyd); “Sandman”, “Death” (Neil Gaiman); “Lucifer” (Mike Carey); “Fables” (Bill Willingham); “DMZ” (Brian Wood); “Losers” (Andy Diggle); “Y: The Last Man”, “Pride of Baghdad”(Brian K. Vaughan); “Transmetropolitan”, “Orbiter” (Warren Ellis – um dos meus favoritos), “Scalped” (Jason Aaron), “American Virgin” (Steven T. Seagle), “100 Bullets” (Brian Azzarello); Hellblazer (vários); sobre alguns dos quais podem ler os posts que neste bloguezito foram colocados.

A IDW publica autores como Garth Ennis, Ben Templesmith. A WILDSTORM é representada por autores como Brian K. Vaughan e Warren Ellis ("Atmospherics", "Ocean"). Na Dark Horse são às dezenas os nomes sonantes de autores que escapam ao género “Super-Heróis”. A Image, com autores como, aqui também, Warren Ellis: "Ministry of Space". Já que gosto tanto de ler Warren Ellis, porque não também a Avattar Press, com títulos como "Freak Angels", ou "Crecy" na linha Apparat. Existem mais.

Títulos que abordam: o misticismo, recriando a criação de acordo com as diversas visões religiosas; elaboradas teorias da conspiração; Mundos distópicos; Mafiosos; Policias; Guerra Civil; Sociedade; Romance; Paranormal; Ficção-Cientifica; História; Terror; etc. Sem um único “Super-Herói” vestido de licra e capinha esvoaçante!

Claro que o mainstream é, talvez, o mais prestigiado e que faz realmente vencer um qualquer autor e artista na “gazilionária” Industria dos Comics. O convite para escrever um ciclo dos X-Men, do Wolverine ou do Spider-Man é absolutamente irrecusável.

Refira-se que o conjunto do autor/argumentista e do artista/ilustrador/co-autor é que faz a qualidade de um qualquer título. Mas, admite-se, que o autor/argumentista é o elo mais forte no sucesso desse título.

Eu ainda acompanho alguns títulos mainstream (com super-heróis); alguns para não “partir” a colecção (que já é considerável e bastante valiosa por alguns títulos), outros por continuar a gostar de os ler, pura e simplesmente.

Mesmo estes títulos mainstream evoluíram bastante. Os motivos são mais complexos, os personagens são bem mais tridimensionais, a influência política e mesmo geopolítica é uma constante, os diferentes aspectos e conflitualidades da actual sociedade são espelhadas nos intrincados argumentos, etc. Não se resume ao tipo que é “bom” a dar porrada no tipo que é “mau”. A divisão ou luta entre o “bem” e o “mal” não é tão linear, as questões morais diluem-se e são deixadas, muitas vezes, ao critério do leitor. Mas sim, continuam a serem tipos e tipas vestidos de licra, com máscara (ou não) e capinha esvoaçante.Para quem teima em associar Comics apenas a super-heróis, se se deram ao trabalho de ler este post talvez consigam agora ter uma visão mais abrangente. Eu não aprecio em especial o Expressionismo (tirando raras excepções), mas não posso dizer que não gosto de Pintura apenas por isso. Não aprecio certo tipo de Romance literário e não posso dizer que não gosto de ler. Não gosto de Jornais sensacionalistas, mas leio Jornais. Por tal, “não gosto de ler histórias com super-heróis, mas gosto de histórias whatever” é perfeitamente comum. Para quem não gosta de arte sequencial pura e simplesmente: Temos pena! Ninguém é perfeito :-)
Em suma: Comics é uma expressão de origem Inglesa que pode ter a tradução infeliz de "cómicos" e que designa as bandas desenhadas produzidas nos Estados Unidos da América.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

WANTED

WANTED é uma mini-série de 6 comics editados pela Top Cow, é considerada um complemento à série “The Authority” (Warren Ellis e Mark Millar) e que é pressuposta ter uma premissa de Watchmen.
Em WANTED, Mark Millar – brilhante e muito controverso – traz-nos um Mundo habitado por Super-Vilões, os quais, após se terem organizado, acabaram com todos os Super-Heróis, dominado por cinco crime-lords e a sua fraternidade que tudo pode contra quem quer que seja e que viajam entre os vários Mundos paralelos saqueando quase que impunemente. O personagem principal é um jovem inadaptado e muito otário de 24 anos, Wesley Gibson, que descobre que o seu pai era um dos mais perigosos Super-Vilões à face do Planeta (Killer) e que lhe deixou como herança uma considerável fortuna; para poder ter direito a herdar, o jovem Wesley tem que aprender a ser como o seu Pai.
O Mark Millar, um Escocês (gozado pelos seus pares como forreta, fazendo jus à fama que acompanha os seus compatriotas – que eu considero serem bem generosos) com 38 anos e com demasiados créditos nos Comics para aqui serem referidos – abro excepção ao mega acontecimento Civil War – criou para esta sua série os assassinos “ultimate” (Pai e filho). Com arte do J.G. Jones este WANTED é uma leitura fácil mas um bocadinho perturbante devido à violência gratuita e pouco fundamentada dos seus personagens; isto é, embora sejam realmente todos Super-Vilões, o Mark tenta justificar o porquê da malvadez dos mesmos e aí perde em toda a linha, pois os pressupostos são fracos. No entanto, e no geral, a série é muito boa e constitui entretenimento garantido.
Tal foi o sucesso que, na senda aberta pelo recentemente e com muito sucesso estreado Iron-Man, a adaptação cinematográfica da mini-série estará muito brevemente a ser também estreada nas salas de um qualquer cinema perto de si (veremos se terá sucesso). O seu elenco é constituído por alguma estrelas do firmamento de Hollywood, entre elas a deliciosa Angelina Jolie (Fox), o oscarizado Morgan Freeman (Solomon) e James McAvoy na pele do protagonista, portanto poderemos contar com alguma qualidade; a realização está ao cargo do Russo Timur Bekmambetov, pouco conhecido, de onde apenas se poderá destacar os filmes “Night Watch”/”Day Watch”.
A ultima edição da série – “WANTED, Assassin’s edition” – para além dos seis comics compilados em hardcover, dá-nos uma série de entrevistas, esboços, “deleted scenes” e estudos dos personagens, capas alternativas e uma dust-cover que no reverso tem um maravilhoso desenho da bela e depravada Fox.
Não é uma série para meninos!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

AND NOW...SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT:

Roubando esta famosa frase aos Monty Python começo este pequeno post a um dos mais famosos Comic/Revista de sátira: MAD Magazine…e, pois está claro, ao “usual gang of idiots” que a criou e ainda hoje, os que ficaram, a trazem até nós. Esta frase poderia muito bem ter sido aquela que antecedia o título MAD; no entanto a frase que antecedia o título era “Tales to calculate to drive you…”, que constituía uma paródia aos famosos contos policiais radiofónicos do seu tempo: “Tales well calculated to keep you…in suspence”. A outra frase vertical, “Humour in jugular vein” era por si só uma antecipação ao seu interior satírico.
Será um pequeno post, pois tudo o que há para dizer sobre este Comic/Revista e tudo o que nela se englobou e engloba seria trabalho para um largo compêndio, qual ensaio académico. No entanto, já havendo muito – ou pelo menos, algum – material publicado sobre este famoso pasquim, para quem quiser ler e aprender mais será fácil.
Eu fui apresentado a esta revista nos idos anos 80, já ela ia no número 269 (Março de 1987), em que a capa – a imitar a TIME Magazine “Man of the year” – era uma sátira a uma das figuras que ensombravam a relativamente recente MTV – Max Headroom – onde, como é costume, a figura de proa e que logo identifica a revista se “disfarça” de Max. A MAD só a muito custo se encontrava, sendo para isso necessário correr os hotéis que possuíam banca de jornais e revistas internacionais, pois mesmo esses hotéis não a recebiam com regularidade; a Livraria Barata também era paragem obrigatória, pois possuía, provavelmente, o melhor escaparate de revistas de BD internacional em Lisboa a par com a Linhares.

A versão Brasileira, embora tivesse debutado em 1974 pela chancela da Vecchi, só na década de 80 é que se tornou fácil de encontrar nos nossos escaparates. Nunca, na minha opinião, chegou aos calcanhares da original, pese o facto de possuir muita arte da original e também ter muitos artistas Brasileiros dotados e com muito material nacional – social e politico – para satirizar. Já conta com cinco edições: Vecchi; Record; Mythos e Panini que ainda a publica.

Fundada em 1952 pelos lendários William Gaines e Harvey Kurtzman é hoje, e desde há muito tempo, a última sobrevivente da clássica e aclamada linha EC Comics (estão agora disponíveis os HC – um para cada linha - compilando os seus respectivos números). Há muitos anos atrás, estava disponível na infelizmente já desaparecida Linhares (Meca dos Comics e BD internacional em Lisboa) a primeira edição slip-cased hardcover da Tales from the Crypt e MAD Magazine, entre outras maravilhosas relíquias.
Sobre os seus fundadores também existe muita coisa a dizer, não estivessem eles entre os mais controversos, geniais e inovadores mestres dos Comics Americanos.
Escrever sobre a carreira e a vida destes Srs. é indissociável da MAD.

O Harvey Kurtzman nasce em 1924 no bairro de Brooklyn, em Nova York, e depois de muita história de vida ver-se-á como editor da MAD em 1952. O aparecimento do Comic surge de uma disputa salarial em que o Harvey se julgava discriminado em relação ao seu outro colega editor, Al Feldstein. O Al era editor de mais Comics da linha EC e reconhecidamente mais rápido a produzir. Foi então proposto ao Harvey, pelo Bill Gaines, a edição de um Comic humorístico e se o fizesse com sucesso veria os seus honorários crescer; assim nasceu a MAD. Poucos anos depois, foi-lhe feita uma proposta para um novo trabalho; o Bill Gaines, não querendo perder o Harvey, decidiu um novo up-grade ao Comic – ao fim de 9 números já tinha passado de bi-mensal a mensal – agora, depois de 23 números como Comic Book, ao vigésimo quarto, mudou o seu formato para Magazine – de $0,10 passou a custar $0,25 – mantendo assim no seu cargo o seu principal impulsionador e ao mesmo tempo contornando a nova ordem que imperava sobre os Comics (já lá vamos!). Em 1956, no ano em que a MAD cresceu bastante, enquanto os outros títulos EC já tinham sido completamente abandonados, levantou-se um caso que ainda hoje é polémico: reza a história que o Harvey pediu ao Bill 51% do negócio deste, por achar que o sucesso da revista se devia apenas a ele; o Bill, então, substituiu-o pelo Al Feldstein e o assunto ficou arrumado. Tendo saído da revista, passou por muitas outras publicações de grande qualidade, embora efémeras; exemplos: “Trump”; “Humbug” (que vai ser editada em slip-case HC brevemente) e “Help!”. Dentro do trabalho produzido para a muito efémera e valiosíssima Trump (dois números em que o Publisher era o conhecidíssimo Hugh Hefner) destaco o seguinte: quem alguma vez leu uma Playboy Norte-Americana – para além de ver as belas Playmates – se calhar conseguiu chegar às últimas páginas, onde estavam impressas umas pranchas de um comic um bocado ordinário e cheio de um humor muito à parte daquilo que era usualmente visto; o personagem chamava-se Little Annie Fanny (disponível na Amazon.com em dois volumes) e o seu autor era o grande Harvey Kurtzman. O Harvey deixou-nos com saudades ao partir em 1993. Dele ficou um histórico e impressionante acervo e um prémio com o seu nome, para além da sua herança, que predomina no humor característico com que nos brindou ao longo de décadas. Nessa altura foi editado um álbum, onde se reuniram muitos dos artistas seus amigos e principais admiradores que confessavam fortes influências, esse álbum foi publicado pela Meribérica com o título “Estranhas Aventuras”. Muito mais havia para escrever sobre este artista/autor/editor para lhe fazer completa justiça.

O outro responsável pela criação do título MAD foi o seu “Publisher”, William Gaines, nascido em 1922 tendo partido para o outro paraíso em Junho de 1992. A forma do como e porquê deu ordens para a criação da revista já foi descrita no parágrafo anterior. Este Publisher é também autor de muitos e muitos textos humorísticos e é pedra basilar no estabelecimento dos Comics como arte respeitada. Empreendeu grandes lutas contra as forças que se interpuseram aos Comics, sendo a CCA a mais famosa (Comics Code Authority) – associada da CMAA (Comics Magazine Association of América). Foi também alvo de um inquérito da Sub-Comissão do Senado Norte-Americano para a Delinquência Juvenil, após ter sido publicado o livro “Seduction of the Inocent” (1954) do Dr. Frederick Werthman. Este autor, no seu livro, defendia a tese de que os Comics eram leituras para crianças e, por tal, deveriam ser alvo de séria análise (leia-se censura) antes de publicados…passo a descrever a mais importante parte do interrogatório da sub-comissão:
Chief Counsel Herbert Beaser: Let me get the limits as far as what you put into your magazine. Is the sole test of what you would put into your magazine whether it sells? Is there any limit you can think of that you would not put in a magazine because you thought a child should not see or read about it?

Bill Gaines: No, I wouldn't say that there is any limit for the reason you outlined. My only limits are the bounds of good taste, what I consider good taste.

Beaser: Then you think a child cannot in any way, in any way, shape, or manner, be hurt by anything that a child reads or sees?

Gaines: I don't believe so.

Beaser: There would be no limit actually to what you put in the magazines?

Gaines: Only within the bounds of good taste.

Beaser: Your own good taste and saleability?

Gaines: Yes.
Senator Estes Kefauver: Here is your May 22 issue. (Kefauver is mistakenly referring to Crime Suspenstories #22,May) This seems to be a man with a bloody axe holding a woman's head up which has been severed from her body. Do you think that is in good taste?

Gaines: Yes sir, I do, for the cover of a horror comic. A cover in bad taste, for example, might be defined as holding the head a little higher so that the neck could be seen dripping blood from it, and moving the body over a little further so that the neck of the body could be seen to be bloody.
Kefauver: You have blood coming out of her mouth.

Gaines: A little.

Kefauver: Here is blood on the axe. I think most adults are shocked by that.

Esta translação do inquérito é parte integrante da História dos Comics e da MAD, pois devido a esta “perseguição” a crise nos Comic Books iniciou-se; a MAD passou de Comic a Magazine (número 24) para se esquivar das restritivas regras da CCA (impostas em 1955), podendo assim o seu criador continuar a dar livre azo à sua criatividade. A título de curiosidade, a mensagem que o número 24 traz dentro é :"Buy this Magazine".

O William Gaines era o principal responsável pela publicação dos títulos EC Comics – são as siglas para Educational Comics e também Entertaining Comics – onde os seus mais conhecidos títulos adaptavam histórias bíblicas. O Bill encontrou o seu nicho nas histórias de terror, ficção-cientifica e fantasia; dos títulos mais conhecidos destaco o famosíssimo Tales From The Crypt; Shock SuspenStories e Two-Fisted Tales. Em finais de 1954 a linha EC começou a sofrer um grande revés, acabando por ser cancelada em 1955, muito pelas razões mencionadas supra. A MAD, por ser extremamente lucrativa, foi salva pela família Gaines, tendo continuado a ser publicada.

No início, a MAD, para além do já referido Harvey Kurtzman, tinha nos seus quadros os criadores/artistas Bernard Krigstein e Russ Heath; estes eram, na época, o reduzido “the usual gang of idiots”, embora o termo só ter começado a ser publicado nos créditos da revista muitos anos depois. Refira-se também, embora só tenha entrado em dois números da revista, tendo a seu cargo a capa do número 11, o artista Basil Wolverton, conhecido ainda hoje pelos seus desenhos grotescos e por si próprio professado como “Producer of Preposterous Pictures of Peculiar People who Prowl this Perplexing Planet”.

Como já tinha escrito, aquando da saída de Kurtzman deu-se a entrada de Feldstein (número 29), este último manteve-se no cargo de editor até 1984 – a MAD tinha um tiragem de mais de dois milhões de cópias por Mês – depois de ter estado 28 anos “sentado” no cargo. A entrada de Feldstein para editor da MAD coincidiu com uma nota da TIME que escrevia que a MAD era uma efémera revista pulp satírica; a própria TIME, hoje considera a MAD como a revista com mais sucesso nos anos 50, a par com a TV Guide e a Playboy, "engolindo" sem pudor a sua nota. Após a saída do Al entraram, como equipa, Nick Meglin e John Ficarra; este último ainda hoje se encontra à frente da edição da revista.

Querendo aqui apenas referir o impacto económico-político-social que a revista causou, embora relevante e no meu entender muito interessante, seria uma tarefa extenuante e em que me arriscaria a aborrecer-vos (ainda mais) se aprofundada com as devidas referencias, pois a ramificações são inúmeras, logo, extensas. Posso apenas dizer que desde lutas legais com o gigante Coca-Cola, entre outros; políticos como o Richard Nixon ou George Bush; e sociedade Norte-Americana, desde os puritanos aos extra-liberais, passando pelos patriotas, tudo aconteceu à, e com, a MAD.

Nas suas páginas desfilaram e desfilam os melhores autores/artistas, dos tempos idos e dos contemporâneos, com os seus recorrentes artigos, tais como: “The Lighter Side of…” do inesquecível Dave Berg; “Spy vs. Spy” do saudoso António Prohía; os Gags do também saudoso Don Martin (editados na integra em dois luxuosos HC slip-cased volumes – também o seu ghost-writer Don “Duck” Edwing (figuras marginais, mas de muita importância nos comics que valerão um futuro post); “A MAD look at…” e as “MAD Marginals” (também em formato XXL) do hilariante Sergio Aragonés; As sátiras às séries de TV e aos filmes, onde destaco o Mort Druker como artista e a relativamente recente paródia cross-over feita às séries Sex in the City e Deadwood, onde as protagonistas da primeira são contratadas como prostitutas para o Gem Saloon; “Snappy answers for stupid questions” do prolifico Al Jaffee; e claro, a “MAD fold-in”, que dispensa apresentações e que valoriza brutalmente a revista, quando não efectuada. Faltam aqui dezenas e dezenas de nomes que também muito justamente mereceriam a devida vénia.
Para terminar, teria que escrever sobre o rapazinho mascote da MAD…pois está claro!!! Nunca ficaria completo – mesmo que sucintamente – um post à MAD, se não se escrevesse sobre o ALFRED E. NEUMAN!
“WHAT, ME WORRY?” é a famosíssima frase do rapazinho com ar de, para uns, de totó, para outros, de maluco. O que é certo é que o Alfred, desde que debutou na capa da MAD número 24 – first cover appearence – embora só na capa do número 30 (1956) é que contará com capa só para si, o AEN raramente deixou de aparecer numa das 490 (Junho 2008) capas da revista, exemplos: a número 233, onde aparece o Pacman e a número 254. A sua primeira aparição é em 1954 na Ballantine’s The MAD Reader (compilação dos dois primeiros anos da MAD).
Mas esta figura caricata não é original criação do responsável pela sua fama, é um pictograma já conhecido pelo menos desde 1908 (à esquerda) e 1921 (à direita), mas foi adoptado pelo Harvey Kurtzman e adaptado pelo Bill Elder (a P&B) e depois, definitivamente, pelo Norman Mingo (a cores). Mesmo muito antes de 1908, em 1868 já se conheciam as caricaturas aos “Mik”, nome pejorativo dado aos Irlandeses, que eram já muito parecidas com a do Alfred E. Neuman; isto fez com que a MAD e o seu primeiro editor tivesse que defender em tribunal a propriedade da imagem do AEN para que permanecesse registada à revista. O nome Alfred E. Neuman foi retirado de um programa de rádio dirigido pelo comediante Henry Morgan, onde aparecia um personagem inócuo – do género, passado cinco minutos já não nos lembramos dele!) e que se chamava Alfred Newman – alusivo, mas sem relação, ao compositor oscarizado; agora, não me perguntem qual o nome que o “E.” representa, pois até hoje nunca consegui saber com toda a certeza (se calhar referência ao Henry, emudecendo o “H”). Uma curiosidade é que o Alfred nunca foi desenhado de perfil, mas sempre de frente, de costas ou então em silhueta. Outra curiosidade prende-se com a frase famosa acima assinalada “What, me worry” só por apenas uma vez ter sido alterada para “YES, me worry!”, depois do desastre nuclear de 1979 na Ilha de Three Mille. Foram, no entanto, feitas adaptações a outras línguas, mesmo a línguas mortas: “Quid, me vexari?”. Cada vez que existem eleições, lá vem o eterno candidato AEN com o seu também famoso slogan “You could do worse…and always have!” (MAD cover #218 que é um remake da capa do #30). Por incrível que possa parecer, sendo o Alfred uma das caras mais reconhecidas nos EUA, a revista que mais números vendeu foi o número 161 (Setembro de 1973) que satirizou o filme Aventura no Poseidon (versão 1973) e onde apenas aparecem os pés do Alfred.
Traduzida e/ou adaptada em 24 Países e para 17 línguas (na Índia é publicada em Inglês), é ainda hoje um enorme sucesso, com o qual eu me delicio todos os meses.
Para quem a quiser adquirir, hoje em dia não é muito difícil: é procurar uma daquelas tabacarias que a receba, se a começarem a comprar o distribuidor continuará a colocá-las nesse spot. O mais cómodo e mais fiável é irem à BDMania e fazerem uma standing-order; se não morarem na grande Lisboa, fazem-na online que o serviço ao cliente é excelente.

Para quem sobreviveu até ao fim deste post, pois os meus parabéns!

Agradecimentos especiais ao Doug Gilford, pelas capas aqui colocadas (maldito scaner e dono – eu - que é um nabisso!); O Doug é provavelmente o maior coleccionador de revistas MAD, o seu site é um autêntico babanço (não digo “inveja”, porque é feio!) para quem é coleccionador destas revistas: http://www.collectmad.com/madcoversite/ . Vejam a opção “Spice up your Mad covers the Bradford way!” Quanto ao resto, tudo serviu: a memória, os meus livros enciclopédicos sobre Comics e sua História e a Wikipédia (que repete os livros e dá mais algum material).